(Desde que me identificando como autor e acrescentando meu endereço para contato, todas as matérias que envio podem e devem ser passadas a mais e mais pessoas, para que o Buddhismo seja divulgado. Aos que o fizerem, meu sincero agradecimento!)

A todos, Namastê!

Uma frase buddhista que costuma causar controvérsia e curiosidade nas pessoas diz o seguinte: “Quaisquer que sejam os seus hábitos, tanto os bons quanto os maus – diminua-os!” A maioria das pessoas entende com facilidade que, assim como nas religiões, o Buddhismo também aconselhe que os maus hábitos sejam diminuídos, mas, o que pouca gente consegue perceber é a necessidade de diminuir também as boas coisas que temos o hábito de fazer! Tendemos a achar que, se é bom, deve continuar para a vida toda… Na verdade, a mente humana quer sempre manter “por uma eternidade” tudo aquilo que a agrada e se apega a essas coisas que, infelizmente (será?) nunca poderão durar para sempre. Daí, é inevitável que surjam frustração, nostalgia, mágoa, ressentimento, saudade e tantas outras inquietudes mentais, às quais chamamos tecnicamente de DÚKKHA – toda e qualquer alteração no estado puro e tranquilo da mente.
Um exemplo que sempre menciono é o de um bom aluno que tive, num dos primeiros Grupos que orientei pela internet quando eu ainda morava na Ásia. Ele era de Sorocaba, ainda jovem, casado e professor de Aikido. As aulas eram de manhã na Tailândia e, por causa do fuso horário, aqui eram 21:00h. quando eu começava a transmitir Ensinamentos… Naquela época, havia muitos alunos e a maioria deles participava das aulas com bastante interesse, incluindo esse do qual estou falando. Em dado momento das aulas, ele sempre demonstrava uma certa ansiedade em encurtar o assunto, acelerando o fim da aula. Por vezes me interrompia no meio de uma explicação e isso chegava a assustar os demais alunos. Um dia, resolvi perguntar a ele, em particular, se ele realmente tinha pressa em terminar a aula ou se seria impressão minha. Ele me explicou que, desde que se casou, tinha o saudável hábito de, junto com a esposa, acordar bem cedo para verem da varanda o Sol nascendo. Assim, como as aulas eram no domingo à noite, ele tinha pressa em ir dormir para não deixar de ver o Sol nascer.
Eu elogiei o comprometimento dele com a esposa e disse que é muito bom ver um casal que, após alguns anos juntos ainda mantêm um hábito romântico e bonito… Porém, lembrei a ele o quanto é rara a oportunidade de ouvir e estudar o Dharma, mais ainda quando falado em Português, dentro de casa e gratuitamente. Perguntei a ele se não seria possível, uma única vez por semana, que eles deixassem de ver o nascer do Sol e, juntos, pudessem aproveitar mais tempo da minha aula.
Embora aparentemente ele concordou comigo, nunca mais entrou online para assistir as aulas. É a esta diminuição dos bons hábitos que a frase acima se refere. Se nos tornarmos APEGADOS a algo de bom, a ponto de passarmos a ser escravos de um horário, de um hábito, de uma prática qualquer, por melhor e mais proveitoso que o hábito seja, ele passará a ser nocivo e deverá ser diminuído!
Todos nós temos a tendência de dizer: “Eu sou ASSIM e pronto!” “Já estou muito velho para mudar meu jeito, eu sou ASSIM!” “Meu modo de ser é ASSIM mesmo, quem não estiver satisfeito que se afaste!” Toda vez que pensamos deste modo, estamos nutrindo a mente com um conceito tolo e infantil. O Buddhismo é a arte de cultivar a mente, numa evolução constante que só termina quando atingimos a Iluminação, que é justamente a ausência total e definitiva de qualquer conceito! Portanto, se SER ASSIM (ou assado!) fosse algo definitivo e absoluto, ninguém jamais alcançaria a Iluminação.
É por isso que inventei a palavra título desta matéria: “DESASSINZAR-SE”, que seria o empenho constante e gradativo para DEIXAR DE SER ASSIM e, saindo da estagnação, progredir continuamente, rumo ao Nirvána, o estado mental de se tornar um buddha.
Há muitas situações que a vida nos leva a ser de um ou de outro modo e nos parece impossível mudar isto. Através da prática do Buddhismo, vemos que, na maioria das vezes é por comodismo, preguiça ou medo de mudar que temos tantas manias, apegos, intolerâncias, preconceitos e muitos outros obstáculos. À medida que passamos a conhecer a nós mesmos, sem medo de nos encararmos frente a frente como realmente somos, passamos a nos “desassinzar”, mudando tantos “assim” que carregamos ao longo da vida.
Todos nós temos muito ainda para “desassinzar”. O importante é não ter medo da mudança e nunca, mas nunca mesmo, achar que é muito tarde para mudar. Quando nos limitamos, bloqueamos nossas metas e nos tornamos lentos e obstruídos. Nossa mente é capaz de milhões de coisas que nem ao menos podemos imaginar! Só quando estamos realmente dispostos a vencer o obstáculo do “ser assim e ponto final!” é que realmente podemos aceitar as mudanças que o Buddha nos propôs, afinal, se ele não tivesse “se desassinzado”, provavelmente continuaria na vidinha cômoda, segura e confortável do palácio de seu pai e o mundo nunca teria descoberto as verdades iluminadoras do Buddhismo!
Fiquem todos em Paz e protegidos!

Reverendo Sunanthô
Monge Buddhista, Fundador do
Buddhismo Theravada Brasileiro