A todos, Namastê!
“Palavras o vento leva…” ou “Palavras são apenas palavras…” A meu ver, ambas as afirmações são tolice! Se assim não fosse, eu teria que discordar do Buddha que, Sábio como sempre, deu tanto valor às palavras a ponto de criar um Preceito exclusivamente para termos o devido cuidado ao lidar com elas! As palavras não surgem em nossa boca. Boca é instrumento, é aparelho falador… A origem de nossas palavras é a mente – dividida no Buddhismo entre MANÔ e CITTA (“tchítta”), cada uma controlando um departamento diferente. Quando utilizamos o raciocínio claro, sem envolvimento emocional, é Manô que está atuando. Já o sentimento, a sensibilidade, a compaixão, são regidos por CITTA (“tchítta”). De acordo com a situação e atuação de cada, nossas palavras surgem na mente e, através da boca, quando na linguagem oral, são emitidas. O mesmo é válido, claro, para a linguagem escrita, mas isto explicarei mais adiante nesta matéria. Se são geradas pela razão e/ou sentimento, é bastante claro que as palavras sejam a expressão do que estamos pensando e sentindo, por isso, são tão importantes e, uma vez emitidas, podem nos causar muito transtorno e trabalho quando “dizemos o que não queríamos”. Palavras são como seres vivos – longas, curtas, simples, sofisticadas, carinhosas, agressivas, indiferentes, atenciosas… Elas são a expressão de nossa maneira de encararmos o mundo, em nosso cotidiano. Também expressam o quanto de felicidade ou amargura trazemos dentro de nós em relação à vida. Mostram o quanto somos capazes de conviver com a vida deixando ir ou acumulando tristezas, mágoas profundas. Tudo isto é facilmente percebido no nosso modo de falar. Quando não está em Atenção Plena, perdemos controle de nosso raciocínio, não vemos as coisas com clareza. Já, quando CITTA perde o controle, se descuida da Atenção Plena, então, nos deixamos envolver emocionalmente pelas circunstâncias e isto causa todo tipo de descontrole – paixões, choro, ciúme, complexo de inferioridade, rejeição, raiva, agressividade, ódio, ilusão de que existe um ego – valorizado ou atingido etc. Tudo isso é expresso através de nossas palavras, tão descontroladas e impensadas quanto nossa mente. Estejam certos de que um falador compulsivo, com risos constantes e infundados, é um descontrolado, alguém sem o mínimo de Atenção Plena. Há uma tendência em aportuguezar palavras estrangeiras, tornando-as adaptadas ao nosso idioma. Isso não é um modernismo. Sempre aconteceu em nosso idioma e tampouco é exclusividade do Português, pois acontece em todos os idiomas… Citando um aportuguezamento antigo, se escrevermos ABAJUR em vez de “abatjour”, isso não vai ofender os franceses e também não altera o significado, pois todos entendem que se trata do objeto usado para iluminar etc. Se, daqui a algum tempo decidirem escrever “MAUSE” em vez de “mouse” para a peça do computador, também não fará diferença alguma, até porque, num futuro cada vez mais próximo, talvez o único “mouse” existente seja o “rato em inglês”. Portanto, aportuguezar, inglezar ou afrancezar palavras de nosso dia a dia, facilita nossas vidas e não nos prejudica em aspecto algum. Muito antes do Buddha, os sábios da Índia já recitavam os Vêdas, suas escrituras sagradas, com uma sonoridade e melodia em cada palavra que nós ocidentais dificilmente conseguiríamos igualar. Isto porque cada sílaba, cada consoante é cuidadosamente emitida com respeito e, principalmente – Atenção Plena no que está sendo pronunciado, na quantidade de ar utilizada para produzir a palavra. Com isto, preservaram há mais de 5 mil anos, os mesmos sons, com o mesmo significado e, acima de tudo, o mesmo poder energético de tudo o que vem sendo dito. Então, como podemos pensar que palavras não têm importância e, se as pronunciarmos de qualquer modo, alterando sua sonoridade, isto não vai fazer diferença alguma? Mantras, recitações de Sutras e Parittas têm grande importância na criação de energia pura e tonificante para a mente. Isso pode parecer estranho ou tolice neste nosso mundo de aspirinas e anti-bióticos, mas é um fato que, se negado pela nossa mente ocidental não o torna falso… Nos idiomas indianos, aos quais o Buddhismo está inseparavelmente ligado, a coisa não é tão simples como o “abajur” ou “abatjour”… CADA letra tem um som único, especial e imutável e isso é algo muito importante que não cabe a nós considerarmos como uma simples questão de ortografia… Tanto em Sânscrito como em Páli, D e DH não são a mesma letra e, claro, não têm o mesmo som. Se não pronunciarmos claramente, cada sílaba, teremos o sentido da palavra alterado ou, pior, não teremos sentido algum! Mesmo para um indiano ou um cingalês (natural do Sri Lanka), existe, é claro, o que chamamos de TRANSLITERAÇÃO, que é o uso de um alfabeto que conhemos e utilizamos, para escrever palavras originalmente em outros sistemas de escrita desconhecidos, como o “namastê”, usado no início desta matéria, escrito em nosso alfabeto, em vez do Devanágari. Mas, há um problema que devemos ser cuidadosos para evitar… Se escrevermos CARMA em vez de KARMA e dermos a palavra para um indiano ler, ele pronunciará TCHÂRMÂ, que não faz sentido algum! Isto porque o “C” tem som de “TCH” e a vogal “A” tem o som fechado… O que acontece então quando tentamos aportuguezar palavras em vez de mantê-las na grafia original? Com o objetivo de “facilitar”, acabamos prejudicando ou até matando o sentido das palavras… Já se as mantivermos do jeito que sempre foram há milhares de anos, não somente preservamos seu sentido, como as respeitamos em relação ao que a Sabedoria indiana fez tanto esforço em manter intacto. Como eu expliquei acima, o som das palavras em Sânscrito e Páli envolve muito mais do que uma preferência ortográfica. Há questões muito complexas como BIJJA (“bidjdja”) ou sílaba original que contém o poder energético da palavra, campo kármico protetor, produção de energia universal, transferência de mérito e vários outros processos energéticos, contidos nas palavras desses idiomas especiais, com os quais não devemos mecher simplesmente em função da ortografia ou facilidade de pronúncia… Em minha opinião, em vez de aportuguezar palavras que, há milhares de anos vêm sendo pronunciadas do mesmo modo, com funções benéficas e específicas, deveríamos mantê-las em suas transiliterações oficiais, usando entre parênteses, como sempre procuro fazer, a pronúncia figurada (o mais acurada possível) em português. Assim, não só estaremos mantendo o poder energético original da palavra como, ao mesmo tempo, aumentaremos nosso vocabulário e pronúncia correta em línguas às quais devemos muito, pois foi graças a elas que o imortal Ensinamento do Buddha chegou a nós. Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु
Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ

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