SUTRAS VERDADEIROS X SUTRAS “FALSOS”

A todos, Namaste!

O Buddhismo, como a maior parte dos outros ensinamentos e crenças, tem seu conjunto próprio de Escrituras, consideradas por alguns como “sagradas”.
Ao conjunto de discursos atribuídos ao Buddha e, alguns, aos seus principais discípulos, igualmente iluminados, foram acrescentados diversos comentários chamados SHÁSTRAS que foram redigidos por grandes mestres, profundos conhecedores do Buddhismo. O conjunto de Escrituras Buddhistas totaliza 84.000 textos, com extensões que variam desde apenas seis linhas, até textos longos, com muitas páginas e se chama TRIPITÁKA (ou Tipitaka, em Páli), cujo significado é “Três (Tri) Pitáka (cestos ou vasos)”. Isto porque quando, finalmente, foram redigidos, muitos anos após a morte do Buddha, os discursos que foram cuidadosamente memorizados e passados oralmente foram divididos por assunto e guardados em três cestos (ou talvez vasos de barro).
Agora, notemos os seguintes pontos:
Sabemos que a história da Índia e seus vizinhos asiáticos está cheia de lendas, estórias fantásticas, alegorias e imagens criadas por uma imaginação rica e fértil que fascina a todos e se tornou característica marcante da cultura indiana. Pois bem, o Buddhismo não escapou dessa imaginação… Muitos dos textos que vemos fazem parte da TRADIÇÃO e são recheados com hipérboles que, em benefício da verdade dos fatos, devemos descartar ou entender com a mente seletiva o que querem dizer. Assim, um exemplo clássico pode ser a descrição da cena do nascimento do Buddha, no Jardim de Lumpini, quando sua mãe estava numa caravana a caminho da casa dos pais dela. Diz a Tradição que, numa atmosfera fantástica e maravilhosa, o bebê, nascido sem causar dor alguma à sua mãe, saiu andando e, de seus sete passos brotaram flores de lótus… Ora, ora… Todos sabemos que crianças não nascem falando, muito menos andando! Se formos simplesmente levar a narrativa “ao pé da letra”, acharemos que o Buddhismo é uma grande tolice, uma estorinha para crianças ou malucos! Porém, se descartarmos o aspecto fantasioso e tentarmos entender a fundo o simbolismo da narrativa, entenderemos que os tais sete passos com flores de lótus significa que o Buddha veio para desbancar a doutrina dos famosos Seis Sábios da Índia, adorados e venerados pelo Hinduísmo! A sétima e última flor de lótus representa ele mesmo, como renovador das doutrinas anteriores. Com isto, descartamos toda a fantasia e podemos crer que o Buddha, como qualquer outro ser humano, nasceu de parto normal, na beira da estrada, no Jardim de Lumpini. Todo o resto fica por conta da imaginação indiana para descrever o nascimento de um Príncipe que atingiu a Iluminação e tornou-se O Buddha.
Quando lemos as Escrituras Buddhistas, devemos levar SEMPRE em consideração que muitos textos podem ter sido exagerados ou até mesmo inventados, sem que NUNCA tenham sido ditos pelo Buddha. Ao serem críticos e questionadores, não pensem que estão cometendo alguma HERESIA ou blasfêmia, porque tais coisas não existem no Buddhismo, onde o direito de questionar e duvidar (desde que não chegue ao ceticismo) é inalienável e parte integrante da prática buddhista. O benefício da dúvida nos foi concedido pelo próprio Buddha, que sempre foi incansável no combate à “fé cega”!
Portanto, toda vez que estudamos o Tripitáka, devemos estar atentos à veracidade ou não do Sutra. Mas, como então podemos ser seletivos? Que critério devemos adotar? Bem, antes de mais nada, devemos “enxugar” a parte fantasiosa, os exageros de linguagem. Feito isto, o correto é comparar o texto com outros discursos estudados anteriormente e ver se o Sutra é coerente, porque o Buddha jamais caiu em contradição. Se, por exemplo, o texto fala sobre a recompensa da beleza física, vida longa e felicidade eterna no Reino dos Deuses como objetivo final da prática, pode estar certo de que houve um erro de visão, uma distorção do Ensinamento verdadeiro do Buddha! Da mesma forma, há textos, igualmente atribuídos ao Buddha, que chegam ao final sem dar idéia alguma sobre os verdadeiros objetivos da prática. Um exemplo claro disto é o Sutra que fala de outros buddhas, supostamente antecessores dO Buddha. O texto se limita a dar o nome de cada um deles, afirmando que, um após o outro, entraram numa montanha e nunca mais foram vistos… Será que tal crendice teria mesmo sido explicada pelo Buddha?? Que utilidade teria isto para libertar as pessoas de Dukkha e levá-las à Iluminação?
Se alguns sutras são claramente parte de uma cultura de imaginação fértil, mais imaginários ainda são os contos que formam a coletânea chamada de JÁTAKAS. Tradicionalmente, tais estórias narrariam as vidas passadas do Buddha, durante centenas de renascimentos nos quais purificou sua mente. Fascinantes para a mentalidade asiática, principalmente indianos, cingaleses e outros povos do sudeste asiático, as narrativas, quando vistas com seriedade e olhar crítico, tornam-se absurdas e só distorcem a visão sobre o verdadeiro Buddhista. Um exemplo clássico é a estória de um certo Principezinho que deu a própria vida, pulando do alto de uma rocha, para servir de alimento a uma tigresa faminta que não tinha como amamentar seus filhotes e estava prestes a devorá-los… Tolice!! Dar uma vida humana, única capaz de alcançar a Iluminação, para salvar uma tigresa que, certamente após algumas horas estaria faminta novamente, não é exemplo de inteligência nem solução para o problema! Será que o tal Príncipe não tinha condições de alimentar a tigresa de outro modo?
É preciso ter discernimento para estudar Sutras e outros textos à luz da inteligência e razão. Não devemos acreditar cegamente em tudo o que lemos em nome do Buddhismo, mesmo que atribuído ao próprio Buddha. Isto porque ele sempre nos alertou para termos muito cuidado com práticas que realmente conduzem à purificação mental e as que nos levam somente a aumentar a confusão normal da mente humana. Assim, sempre que estiverem diante de qualquer leitura buddhista, sejam extremamente críticos e atentos. Não estarão fazendo nada além do que lhes é de direito!
Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु
Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ