O QUE PODEMOS ESPERAR DO BUDDHA?

A todos, Namaste!

Um dos pontos marcantes do Buddhismo é o fato de o Buddha Shakya Muni, o ex-Príncipe Siddhartth Gáutam que atingiu a Iluminação, era apenas um ser humano, guardadas as virtudes especiais que sempre teve desde a infância. Um ser humano que praticou esportes, tornou-se campeão em várias modalidades esportivas, estudou todas as matérias e assuntos que um futuro rei deveria saber (inclusive os vários e complicados rituais e cerimônias do Hinduísmo), aprendeu diversos idiomas, teve ao longo de sua vida todos os tipos de prazeres sensuais, música, conforto, mulheres à sua disposição para diversão e sexo. Casou-se com a mulher por quem se apaixonou e com ela teve um filho – bonito e saudável…
Tudo isto faz do divulgador dos Ensinamentos Buddhistas uma pessoa diferente da maioria dos líderes religiosos, que se anunciam como divindades, profetas, mensageiros de um ou mais deuses etc. O Buddha, ao contrário, sempre fez questão de ressaltar que era apenas um ser humano que descobriu um Caminho seguro e confiável, o qual ele mesmo percorreu até a Liberação Final e, somente por isso, o estava divulgando. Assim, duas coisas são importantes que notemos: Ele mesmo, por esforço próprio e sem auxílio de NADA SUPERIOR a ele, conseguiu alcançar seu objetivo, ao qual chamamos de ESTADO MENTAL DO NIRVÁNA. O outro ponto, talvez ainda mais importante, é que ele NUNCA DISSE PARA O SEGUIRMOS! Nunca quis ser idolatrado, incensado, reverenciado… Muito pelo contrário! Durante os 45 anos nos quais, incansavelmente, esteve entre nós, o Mestre fez questão de dizer coisas do tipo: “Não sigam nem ao menos minhas pegadas na areia, pois elas não os levarão a lugar algum…” ou “Se querem me homenagear, não me ofereçam incenso e flores, mas sim, pratiquem o Caminho que eu venho ensinando…” Mais que isso, o Buddha nunca permitiu que fizessem qualquer tipo de reprodução de sua imagem física e as primeiras estátuas buddhistas surgiram muitos e muitos anos após sua morte, não deixando nenhum retrato confiável de como era sua aparência física que, certamente, nada tinha a ver com as figuras obesas e patéticas que, infelizmente ainda encontramos à venda no comércio.
É importante manternos a certeza que o Buddha MORREU… Não vai voltar, não vai ressuscitar, não vai fazer mais coisa alguma por nós. AINDA BEM! Porque, como monge buddhista eu ficaria profundamente decepcionado se o Buddha aparecesse de novo neste mundo ou se eu recebesse alguma promessa de ajuda dele para a solução de meus problemas diários… Afinal, o que é um Buddha? É um ser que, finalmente, depois de muita prática e dedicação, alcançou um estado mental no qual NÃO MAIS HÁ DUALIDADE ALGUMA… Isto significa que um buddha, se verdadeiro, NÃO PODE, NÃO CONSEGUE ter quaisquer tipos de sentimentos opostos – bom x mau, agradável x desagradável, triste x alegre etc… Portanto, um buddha jamais pensaria: “Pobrezinho do Sunanthô! Eu tenho que fazer algo por ele!” Porque tal sentimento significaria que ele ainda tem pontos de vista dualísticos e, portanto, ainda não atingiu a Iluminação! Com isto, eu teria seguido os Ensinamentos de alguém falso, então, melhor que o Buddhismo continue sendo O CAMINHO DO SOLITÁRIO, no qual tudo aquilo que conseguimos (caso consigamos!) é somente por esforço próprio e seguindo O ENSINAMENTO DEIXADO pelo Buddha, sem nada esperar do Buddha em si.
Há quem acredite exatamente no contrário do que eu expliquei agora. Tem gente que pede proteção ao Buddha ou diz tolices como: “Que o Buddha te abençoe!” Até mesmo temos seitas totalmente convictas de que se seguirmos determinadas práticas um buddha, na hora de nossa morte, virá nos buscar e conduzir para um tipo de paraízo. Como eu já disse, isso é totalmente impossível, ou o Buddha não estaria na paz da ausência de dualidade do Nirvana, mas sim trabalhando pela eternidade, vindo e voltando, resgatando praticantes por todos os pontos do Universo!
O ser humano não somente tem uma necessidade enorme de crer em coisas superiores a si próprio, às quais tenta recorrer sempre que se mete em encrencas, mas também sente uma vontade enorme de dividir tais coisas em “departamentos de atendimento” às suas necessidades. Assim, criam o santo disso, a santa daquilo, o padroeiro de não-sei-o-quê, a protetora dos não-sei-mais-o-quê e assim por diante. Cada um atende a uma necessidade específica, cumpre um papel para suprir as carências de esforço próprio das pessoas. As pessoas criam novenas, orações milagrosas, fórmulas mágicas e tantas outras crendices. Há as que falam com imagens, desabafam seus problemas, choram, as acariciam e até mesmo as castigam quando seus pedidos não são atendidas, pondo “as coitadinhas” de frente para a parede ou até de cabeça para baixo, até que seus pedidos sejam atendidos…
Como tudo isso é fruto da tolice da mente humana, o Buddhismo também não escapou delas. Há quem reze para as imagens do Buddha, peça favores, esfregue nelas notas de dinheiro e outras demonstrações de ignorância sobre o Ensinamento do Buddha. Além disso, também criaram os próprios super-heróis buddhistas com seus “departamentos de salvação”. O buddha disso, o buddha daquilo e uma infinidade de seres iluminados ou semi-iluminados com grandes poderes de “nos salvar”.
Se um buddha, qualquer que seja, fosse capaz de evitar catástrofes ou salvar vidas, a grande Tsunami que atingiu a Ásia quando eu mesmo ainda estava por lá, não teria acontecido, afinal, toda aquela região é predominantemente buddhista, não é?
O mundo não precisa de vários buddhas com diferentes poderes milagrosos! Um só é bastante – O BUDDHA, que, embora tenha morrido há 2554 anos, nos deixou uma Verdade poderosa e tão atual no mundo de hoje quanto foi no seu tempo. O DHARMA, o Ensinamento que sempre existiu mas só o Buddha pode ver com clareza absoluta e nos deixar como herança é a única coisa que pode nos salvar! Pelo Buddha, que não vai voltar, não pode nos ver nem fazer mais nada por nós, só devemos expressar respeito, gratidão e admiração. Se realmente quisermos mais alguma coisa dele, só pode ser o exemplo, já que todos somos capazes de, seguindo o Ensinamento, nos tornarmos exatamente como ele. Portanto, a pergunta título desta matéria só pode ser respondida de um modo: “Do Buddha, nada mais podemos esperar!” Já de nós mesmos, temos que nos esforçar para nos tornarmos como o Buddha!
Fiquem todos em Paz e protegidos!

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ