A todos, Namaste!

Ontem fui abordado por dois seguidores do Buddhismo que ficaram muito surpresos quando souberam que sigo a Tradição Theravada: “Seu modo de usar o manto é Tibetano, não é Theravada!”  “Você usa o Akasha Mála (“rosário buddhista”) no pescoço e isso não é coisa de monge Theravada!” e, para completar: “Você pratica Recitação de Mantras, o que não é prática do Budismo Theravada!” Eu concordei com as observações e expliquei que sou fundador do Buddhismo Theravada Brasileiro, o qual engloba práticas de outras formas de Buddhismo à Tradição Theravada original, a fim de que todos possam entender e praticar o Budismo de modo claro, sem com isto perder o Ensinamento Original do Buddha.

Mais do que uma criação deliberada, uma invenção de minha mente, o Buddhismo Theravada Brasileiro é a expressão pura e simples de um DIREITO ASSEGURADO pelo próprio Buddha! O Mestre nunca nos disse para “vestirmos a camisa de um time”, seguindo extritamente uma Tradição. Aliás, ele NUNCA CRIOU tradição alguma, muito pelo contrário!

Para esclarecer o assunto, segue o Kalamá Sutra, a explicação do Buddha sobre o que devemos ou não seguir, sempre dentro do Ensinamento Buddhista conforme ele próprio o concebeu:

O KALAMÁ SUTRA

(O SUTRA AO POVO KALAMÁ)

 

Reescrito e comentado em linguagem simples

pelo Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 “Assim me foi transmitido oralmente”.Em certa ocasião, o Bhagaván estava perambulando por Kossalá com um grande número de bhikshús (monges buddhistas) até que por fim ele chegou em Kessaputra, uma cidade dos Kalamás (apelido do povo daquela cidade). Os Kalamás de Kessaputra ouviram dizer, “Gáutam o contemplativo, o filho dos Sakyas, que adotou a vida de purificação mental, deixando o clã dos Sakyas, que andava perambulando em Kossalá com um grande número de bhikshús chegou em Kessaputra. E acerca desse mestre Gáutam existe essa boa reputação: ‘Esse Bhagaván é um arahant (ser iluminado em vida), perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos (de tudo o que existe no Universo), um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de dêvas (seres que habitam em dimensões paralelas à nossa) e humanos, desperto, sublime. Ele declara – tendo realizado por si próprio com o conhecimento direto (iluminado a si próprio, sem qualquer ajuda superior) – este mundo com os seus dêvas, maras (seres do mal) e brahmas (seres evoluídos no cultivo mental), esta população com seus contemplativos (praticantes de várias seitas) e brâmanes (sacerdotes do hinduísmo), seus príncipes e povo. Ele ensina o Dharma (o Ensinamento Buddhista), com o significado e fraseado corretos, que é admirável no início, admirável no meio, admirável no final; e ele revela uma vida santa que é completamente perfeita e imaculada. É bom poder encontrar alguém tão nobre.”

Assim os Kalamás de Kessaputra foram até o Buddha. Alguns homenagearam o Bhagaván e sentaram a um lado; alguns trocaram saudações educadas com ele e após a troca de saudações sentaram a um lado (o modo especial de se sentar demonstrando respeito); alguns juntaram as palmas das mãos em respeitosa saudação e sentaram a um lado; alguns anunciaram o seu nome e clã e sentaram a um lado. Alguns permaneceram em silêncio e sentaram a um lado.

Uma vez sentados, eles disseram para o Bhagaván: “Senhor, existem alguns brâmanes e contemplativos que vêm para Kessaputra. Eles explicam e glorificam as suas doutrinas, porém com relação às doutrinas de outros, eles as desaprovam, as repelem, demonstram desprezo por elas e fazem pouco delas. E então outros brâmanes e contemplativos vêm para Kessaputra. Eles explicam e glorificam as suas doutrinas, porém com relação às doutrinas de outros, eles as desaprovam, as repelem, demonstram desprezo por elas e fazem pouco delas. Eles nos deixam confusos e em dúvida: quais desses brâmanes e contemplativos estão falando a verdade e quais estão mentindo?”

“Claro que vocês estão confusos Kalamás. Claro que vocês têm dúvidas. Porque a dúvida surge com relação a qualquer assunto que cause a confusão mental. Dessa forma, Kalamás, nesse caso não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, ‘Este contemplativo é o nosso mestre.’ Quando vocês souberem por vocês mesmos (após comprovarem por experiência própria!) que, ‘Essas qualidades são incorretas; essas qualidades são culpáveis; essas qualidades são passíveis de crítica pelos Sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao mal e a Dukkha (toda e qualquer forma de inquietação mental)’ – então vocês devem abandoná-las.

“O que vocês pensam Kalamás? Quando a cobiça surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o mal, Senhor.”

“E essa pessoa que está tomada pela cobiça, sua mente obcecada com a cobiça, mata seres vivos, toma o que não lhe é dado, pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, mente, usa de linguagem vulgar e induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta é dano e Dukkha por um longo tempo.”

“Sim, Senhor”

“E o que vocês pensam, Kalamás? Quando a aversão surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o mal, Senhor.”

“E essa pessoa tomada pela aversão, sua mente obcecada pela aversão, mata seres vivos, toma o que não lhe é dado, pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, mente, usa de linguagem vulgar e induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta é dano e Dukkha por um longo tempo.”

“Sim, Senhor.”

“E o que vocês pensam, Kalamás? Quando a delusão surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o mal, Senhor.”

“E essa pessoa tomada pela delusão, sua mente obcecada pela delusão, mata seres vivos, toma o que não lhe é dado, pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, mente, usa de linguagem vulgar e induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta é dano e Dukkha por um longo tempo.”

“Sim, Senhor.”

“Então Kalamás o que vocês pensam. Essa qualidades são corretas ou incorretas?”

“incorretas, Senhor.”

“Culpáveis ou isentas de culpa?”

“Culpáveis, Senhor.”

“Criticadas pelos Sábios ou elogiadas pelos Sábios?”

“Criticadas pelos Sábios, Senhor.”

“Quando postas em prática elas conduzem ao mal e a Dukkha ou não?”

“Quando postas em prática elas conduzem ao mal e a Dukkha. Assim é como as vemos.”

“Então como eu disse, Kalamás: ‘Não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, “Este contemplativo é o nosso mestre.” Quando vocês souberem por vocês mesmos (e somente depois de praticar e desaprovar!) que, “Essas qualidades são incorretas; essas qualidades são culpáveis; essas qualidades são criticáveis pelos Sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao mal e a Dukkha” – então vocês devem abandoná-las.’ Assim foi dito. E em referência a isso é que foi dito.

“Agora Kalamás, não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, ‘Este contemplativo é o nosso mestre.’ Quando vocês souberem por vocês mesmos que, ‘Essas qualidades são corretas; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos Sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem-estar e à felicidade” – então vocês devem penetrar e permanecer nelas.

“O que vocês pensam Kalamás? Quando a ausência de cobiça surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o bem, Senhor.”

“E essa pessoa que não está tomada pela cobiça, sua mente não está obcecada pela cobiça, não mata seres vivos, não toma o que não lhe é dado, não pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, não mente nem usa linguagem vulgar e não induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta para o bem-estar e Sukkha (o contrário de Dukkha) por um longo tempo.”

“Sim, Senhor”

“O que vocês pensam Kalamás? Quando a ausência de aversão surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o bem, Senhor.”

“E essa pessoa que não está tomada pela aversão, sua mente não está obcecada pela aversão, não mata seres vivos, não toma o que não lhe é dado, não pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, não mente nem usa linguagem vulgar e não induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta para o bem-estar e Sukkha  por um longo tempo.”

“Sim, Senhor”

“O que vocês pensam Kalamás? Quando a ausência de delusão surge em uma pessoa, ela surge para o bem ou para o mal?”

“Para o bem, Senhor.”

“E essa pessoa que não está tomada pela delusão, sua mente não está obcecada pela delusão, não mata seres vivos, não toma o que não lhe é dado, não pratica sexo traindo a confiança da pessoa com quem se tem uma vida a dois, não mente nem usa linguagem vulgar e não induz outros a fazerem o mesmo, tudo o que resulta para o bem-estar e Sukkha  por um longo tempo.”

“Sim, Senhor”

“Então Kalamás o que vocês pensam. Essa qualidades são corretas ou incorretas?”

“corretas, Senhor.”

“Culpáveis ou isentas de culpa?”

“Isentas de culpa, Senhor.”

“Criticadas pelos Sábios ou elogiadas pelos Sábios?”

“Elogiadas pelos Sábios, Senhor.”

“Quando postas em prática elas conduzem ao bem e à felicidade ou não?”

“Quando postas em prática elas conduzem ao bem e à felicidade. Assim é como as vemos.”

“Então como eu disse, Kalamás: ‘Não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, “Este contemplativo é o nosso mestre.” Quando vocês souberem por vocês mesmos que, “Essas qualidades são corretas; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos Sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem e à felicidade” – então vocês devem entrar e permanecer nelas.’ Assim foi dito. E em referência a isso é que foi dito.

NA VERDADE, KALAMÁS, NÃO SE DEIXEM GUIAR NEM MESMO POR MINHAS PRÓPRIAS PALAVRAS, MAS, SOMENTE APÓS COMPROVAREM, POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA, QUE MEU ENSINAMENTO PRODUZ SUKKHA, É VERDADEIRO, CONDUZ À LIBERAÇÃO DE DUKKHA E AO ESTADO MENTAL DE NIRVÁNA, SÓ ENTÃO O SIGAM E PONHAM EM PRÁTICA.

“Agora Kalamás, aquele que é um nobre discípulo – portanto despojado de cobiça, despojado de má vontade, não deludido, com Atenção Plena e plena consciência – permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de amor bondade, da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permeia o mundo todo com a mente repleta de Amor Universal (mettá ou maitrí, amor puro e altruísta por todos os seres vivos), abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade .

“Ele permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de compaixão (karuná), da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permeia o mundo todo com a mente imbuída de compaixão, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.

“Ele permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de alegria altruísta (muditá), da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permeia o mundo todo com a mente imbuída de alegria altruísta, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade.

“Ele permanece permeando o primeiro quadrante com a mente imbuída de equanimidade (upêkkhá), da mesma forma o segundo, da mesma forma o terceiro, da mesma forma o quarto; assim acima, abaixo, em volta e em todos os lugares, para todos bem como para si mesmo, ele permeia o mundo todo com a mente imbuída de equanimidade, abundante, transcendente, imensurável, sem hostilidade e sem má vontade .

“Agora Kalamás, aquele que é um nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém quatro garantias no aqui e agora:

“’Se existe um mundo após a morte, se existem conseqüências das boas e más ações, então essa é a base pela qual com a dissolução do corpo, após a morte, renascerei num destino feliz, no paraíso.’ Essa é a primeira garantia que ele obtém.

“’Porém se não existe um mundo após a morte, se não existem conseqüências das boas e más ações, então nesta vida cuidarei de mim mesmo com tranqüilidade – livre de hostilidades, livre de má vontade, livre de dificuldades.” Esta é a segunda garantia que ele obtém.

“’Se conseqüências ruins recaem sobre quem pratica ações más, eu no entanto não penso em agir com maldade, então, como poderão os resultados ruins recaírem sobre mim?” Essa é a terceira garantia que ele obtém.

“’Porém se conseqüências ruins não recaírem sobre quem pratica ações más, então de todas formas estou purificado.” Essa é a quarta garantia que ele obtém.

“Aquele que é um nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém essas quatro garantias no aqui e agora.”

“Assim é, Bhagaván. O nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém quatro garantias no aqui e agora:

“’Se existe um mundo após a morte, se existem conseqüências das boas e más ações, então essa é a base pela qual com a dissolução do corpo, após a morte, renascerei num destino feliz, no Estado Mental do Nirvana.’ Essa é a primeira garantia que ele obtém.

“’Porém se não existe um mundo após a morte, se não existem conseqüências das boas e más ações, então nesta vida cuidarei de mim mesmo com tranqüilidade – livre de hostilidades, livre de má vontade, livre de dificuldades.” Esta é a segunda garantia que ele obtém.

“’Se conseqüências ruins recaem sobre quem pratica ações más, eu no entanto não penso em agir com maldade, então, como poderão os resultados ruins recaírem sobre mim?” Essa é a terceira garantia que ele obtém.

“’Porém se conseqüências ruins não recaírem sobre quem pratica ações más, então de todas formas estou purificado.” Essa é a quarta garantia que ele obtém.

“Aquele que é um nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém essas quatro garantias no aqui e agora.”

“Magnífico, Mestre Gáutam! Magnífico, Mestre Gáutam! Mestre Gáutam esclareceu o Dharma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Nós buscamos Refúgio no Bhagaván, no Dharma e na Sangha dos Bhikshús (Comunidade de monges buddhistas). Que o Bhagaván se recorde de nós como os discípulos leigos que nele buscaram Refúgio para o resto da vida.”

सुनन्थो भिक्षु

 Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ