A todos, Namaste!

 Hoje o mundo comemora o Dia internacional da Mulher… Uma data que pode parecer insignificante, quando observada com cuidado, é uma conquista. Durante a história da Humanidade, a mulher, na maioria das culturas, sempre foi renegada a um papel secundário, quando não esquecida por completo. Já foi troféu de grandes batalhas, objeto sexual, escrava, moeda de troca e sofreu todo tipo de humilhações.

Ainda que, em muitas partes do planeta ainda esteja longe de atingir seus direitos mais fundamentais, em outras culturas, no entanto, a mulher vem se destacando em muitas atividades e, aos poucos, recebendo o devido reconhecimento. Felizmente, em alguns países como a Finlândia, por exemplo, a figura feminina já atingiu patamares elevados em relação aos homens. Porém, para um monge ocidental, é triste perceber que o Buddhismo, tão igualitário em tantos aspectos, ainda discrimina EM MUITO a figura da mulher, principalmente das monjas!

Como fundador do Buddhismo Theravada Brasileiro, aproveito a oportunidade para renovar publicamente meu empenho em valorizar o papel feminino na Sangha Leiga (Comunidade Buddhista sem Ordenação Monástica) e manter minha promessa de que toda mulher que desejar se tornar monja terá total atenção e o melhor treinamento monástico que eu puder orientar.

A seguir, um presente para as mulheres, contando a história da Fundadora da Ordem das Monjas Buddhistas. Fiquem todos em Paz e protegidos, com minha especial gratidão à todas as mulheres que se empenham em tornar este mundo um lugar melhor para se viver.

  MAHÁ PRAJÁPATI GÁUTAMI – A MÃE DE CRIAÇÃO DE SIDDHARTTH GÁUTAM

  Diz a Tradição Buddhista que, oito dias após dar à luz o Príncipe Siddhartth Gáutam, a Rainha Mahá Mayá faleceu de modo inesperado. Com isto, o recém-nascido foi imediatamente entregue aos cuidados da Princesa Mahá Prajápati Gáutami, irmã mais nova da rainha, que assumiu a posição de primeira esposa do Rei Suddhodána, pai do futuro Buddha. Assim, o Príncipe Herdeiro do trono de Kapilavasthu cresceu sob os cuidados de sua tia, que dedicou a ele o amor e carinho de uma mãe verdadeira.

 

Com o decorrer da história, o Príncipe Siddhartth cresceu, se casou, teve seu próprio filho e acabou abandonando o palácio real, na busca que culminou com a Iluminação, que o tornou O Buddha. Seis anos após isto, recebendo a mensagem que seu pai estava doente e chamando por ele, o Buddha decidiu visitar sua terra natal e vários fatos ocorreram durante os poucos dias que permaneceu no reino de seu pai. O fato que nos interessa na data de hoje, Dia Internacional da Mulher, se refere justamente à sua mãe de criação:

Após ver as profundas mudanças de seu filho e sentir o poder de seus Ensinamentos, Mahá Prajápati Gáutami decidiu abandonar sua vida de rainha e tornar-se monja. Assim, foi procurar o Buddha, que já estava pronto para seguir viagem e pediu a ele que a aceitasse na Ordem Monástica, chamada de Sangha. O Buddha ouviu sua mãe de criação, mas recusou o pedido… Ainda por duas vezes a rainha insistiu mas foi inútil. O Buddha achou que ela não estava pronta para o rigor e inúmeras dificuldades da disciplina monástica e partiu sem dar ouvidos aos apelos de sua mãe.

Inconformada, Mahá Prajápati Gáutami tomou uma decisão radical e corajosa. Raspou a própria cabeça, mandou providenciar panos cor de laranja, com os quais costurou mantos improvisados. Quinhentas mulheres que a serviam no palácio real fizeram o mesmo e, juntas, abandonaram o conforto da realeza e partiram, descalças pela estrada de saída do reino. Assustados com aquele cortejo estranho, os nobres e soldados tentaram oferecer carruagens, cavalos e até elefantes para que a rainha partisse em caravana, mas foi inútil. Irredutível, ela e suas seguidoras continuaram a pé, pelas estradas poeirentas e cheias de pedras. 

Foram muitos dias de caminhada, já que o Buddha partira muito tempo antes e já estava bem distante. Enfrentando dificuldades, as mulheres reuníram forças para seguir adiante e, finalmente, chegaram ao local onde o Buddha e seus monges estavam acampados. Quando o Venerável Ánanda, sobrinho da Rainha Mahá Prajápati Gáutami e Atendente Pessoal do Buddha viu a tia, mal pode reconhecê-la! Estava exausta, suja, empoeirada, com os pés calejados e sangrando… Cheio de compaixão, o Ven. Ánanda foi pedir ao Buddha que recebesse sua mãe de criação. Só então, percebendo a força de vontade de Gáutami, o Buddha a recebeu, juntamente com as seguidoras dela e, numa decisão que mudou a história do Buddhismo, deu a todas elas a Ordenação Monástica, criando assim a Ordem das Monjas Buddhistas.

Mahá Prajápati Gáutami foi uma monja exemplar, uma excelene líder das outras monjas e, em pouco tempo atingiu a Iluminação.

Atualmente, há países buddhistas onde o número de monjas supera o de monges. Nessas sociedades, o papel das monjas buddhistas é fundamental em vários campos – educação de crianças, cuidado com órfãos e idosos, alfabetização de adultos, cuidado com pacientes HIV positivo, reinserção social de prostitutas e muitos outros trabalhos onde as qualidades femininas atuam muito melhor que os homens e, portanto, são fundamentais para o engrandecimento do Ser Humano!

Espero que chegue o dia em que todas as Tradições Buddhistas dêem às mulheres, monjas ou não, o valor que lhes é devido…


सुनन्थो भिक्षु

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ