MEDITAÇÃO E TOALHAS…

A todos, Namaste!

 

Hoje ouvi de uma seguidora de outra Tradição Buddhista uma narrativa que ela considera muito interessante e me contou com entusiasmo. Segundo ela, para que seja “avaliado o grau de meditação de cada um”, uma pessoa coloca toalhas molhadas sobre as costas dos monges durante a prática da meditação  e, com o calor produzido pela meditação, em pouco tempo as toalhas estão inteiramente secas… Eu apenas sorri para a pessoa e não disse nada, já que ela acha esse fato absolutamente fascinante e, qualquer coisa que eu dissesse naquele momento, só a decepcionaria. Mas, vejamos, será que devemos ou conseguimos realmente avaliar graus de meditação? E, caso o façamos, qual seria a finalidade disto? Uma vez avaliado o grau de meditação, seria aconselhável dar prêmios aos mais avançados e repreender o “time que não conseguiu secar as toalhas”?

Há uma estória buddhista, atribuída ao Buddha, que, embora eu nunca a tenha encontrado em Sutra algum, continua sendo contada e esta é mais uma vez:

Um dia, o Buddha e seus discípulos estavam à beira de um rio e um Yôgui, tentando chamar a atenção deles, andando sobre as águas, de uma margem para a outra, sem parar. Quando chegou bem perto do Buddha, ele então resolveu dar atenção ao praticante e perguntou: “- Durante quanto tempo praticou para conseguir caminhar sobre as águas?” “- Diariamente, por seis longos anos!” Respondeu o Yôgui com convicção e orgulho. E o Buddha:”- Por apenas uma moeda nós atravessamos o rio usando a balça…”

Não praticamos meditação para mostrar ou provar aos outros coisa alguma. Não meditamos para GANHAR coisas, mas sim para PERDER o que acumulamos desnecessariamente. Não há necessidade alguma de avaliarmos nosso grau de meditação, porque não devemos estabelecer prazos para nossa evolução… Meditar pode, até certo ponto, ser comparável a uma competição de atletismo, pois o verdadeiro atleta supera seus próprios limites, com treinamento, dedicação à sua modalidade e esforço próprio, portanto, não há adversário maior para o atleta do que ele mesmo. Mas, mesmo o atleta tem um treinador, famíliares que torcem por ele e toda uma multidão o observando, portanto ele ainda tem a quem mostrar que é capaz de bater recordes. No caso da meditação, somos iguais ao atleta na persistência, determinação e superação de nossas próprias limitações, mas não há ninguém a quem mostrar nossas vitórias, tampouco há derrota, medalha ou pódio.

O que quer que consigamos em termos de poderes sobrenaturais, como levitar, ler pensamentos ou até mesmo “secar toalhas”, serão apenas efeitos colaterais que nada têm de importante e, portanto, não devemos nos preocupar, muito menos nos apegarmos a tais coisas…

Cada meditação é a base para fortalecer a seguinte e meditamos apenas POR MEDITAR, sem expectativas, sem esperar quando ou como os “poderes” vão chegar.

Dêvadatta, o primo e cunhado do Buddha que vivia tentando matá-lo, passou a vida desenvolvendo práticas meditativas com o único objetivo de obter poderes sobrenaturais para destruir o Buddha… Tudo o que conseguiu foi uma morte solitária, amargurado, arrependido e, irremediavelmente vítima de seu mau karma.

Meditemos, então, pelo simples ato de meditar. Assim nos foi aconselhado pelo próprio Buddha e devemos ter em mente que foi através da Meditação que ele conseguiu atingir a Iluminação!

Fiquem em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ