A todos, Namaste!

No recente Retiro de Prática Buddhista em Sta. Cruz do Sul, falei superficialmente sobre os Quatro Grandes Elementos (Tchattárô Mahá Bhutáni, em Páli) que compõem nosso corpo – Água, Terra, Fogo e Ar e também mencionei que a mente humana, dividida em Manô e Citta (“tchítta”), raciocínio e sentimento – respectivamente, também é formada por Agregados. É sobre os detalhes de todos estes constituintes que trata esta matéria. Vamos lá!

Elemento Água – (Apô-dhátu, em Páli) São todas as substâncias líquidas encontradas em nosso organismo. Nâo somente a água que ingerimos, mas também o sangue que circula em nosso corpo inteiro, suor, saliva, lágrimas, urina, suco pancreático, bílis, suco gástrico, esperma (no caso masculino) e tantos outros elementos contidos em nosso corpo.

Elemento Terra – (Pat.haví-dhátu, em Páli) É toda a parte de nosso organismo composta por minerais – como o cálcio, por exemplo, que compõe todos os ossos de nosso esqueleto e nossos dentes. Também temos em nós outras substâncias, como sais minerais, fósforo e a própria água. Assim, nosso corpo é uma mistura de vários elementos encontrados na terra, no solo.

Elemento Fogo – (Têdjô-dhátu, em Páli) É o calor de nosso corpo, nossa temperatura, que, em condições normais, gira em torno de 36 graus. É através da produção de calor que processamos a queima do alimento, a combustão, fazendo a digestão. Também a febre, aumento de nossa temperatura, é comprovação de que possuímos o elemento Fogo em nosso organismo.

Elemento Ar – (Váyô-dhátu) Está bem claro em nós através da respiração. Todos nós sabemos que nosso cérebro necessita de constante oxigenação. Sabemos que o sangue contém ar e também nossos pulmões. Nosso organismo precisa constantemente do processamento do oxigênio e eliminação do gás carbônico. Respiramos também através dos nossos poros e, quando digerimos alguns alimentos, produzimos e eliminamos gases. Tudo isso é o elemento Ar dentro de nós.

Agora vejamos. O que chamamos de CORPO HUMANO, nada mais é que a combinação destes Quatro Grandes Elementos. Enquanto as causas e condições naturais os mantêm unidos, associados, agregados, podemos considerar que estamos vivos.

Sempre que um desses Quatro Grandes Elementos está fora de equilíbrio, está em desarmonia, podemos dizer que nosso corpo está DOENTE. A desidratação, por exemplo, é a carência do elemento Água em nosso corpo. Se nos falta o elemento Ar, sentimos asfixia. Já se há um desequilíbrio, um aumento do elemento Fogo, temos febre, ou, ao contrário, se formos expostos a um frio intenso, perdemos o elemento Fogo e temos o fenômeno da hipotermia.

Assim, podemos concluir que, bastando apenas a retirada ou falta de UM dos Quatro Grandes Elementos, nossa condição de vida deixa de existir! Portanto, vendo claramente que somos apenas a associação temporária e em constante risco de separação dos Quatro Grandes Elementos, não podemos afirmar que somos um INDIVÍDUO. O Buddha afirmou que, tudo aquilo que é composto de vários elementos associados e que tendem a se desassociar, não pode ser considerado como uma entidade permanente, algo fixo e imutável.

Também através da matemática, podemos ver que um conjunto formado por vários elementos não pode ser chamado de Conjunto Unitário. Então, o que convencionalmente chamamos de “Sunanthô”, “Aquiles”, “Tânia”, “Zeca” ou “Enio”, nada mais é que uma necessidade básica de distinguirmos diferentes “associações ambulantes de elementos em constante estado de decadência e risco de desassociação”… Nada há de Ego, de Eu, de Indivíduo Permanente em nenhum de nós! Mas… Esperem um pouco… Estamos nos limitando somente ao nosso corpo físico, chamado de RÚPA, em Páli. Porém, nosso corpo, esse agregado de Quatro Grandes Elementos, é a casa, o cenário de ação da MENTE, que atua em cada um de nós, fazendo com que cometamos várias ações ao longo de nossa existência atual. Segundo a crença buddhista, nossa vida presente é apenas um dos milhões de nascimentos e renascimentos pelos quais passamos há uma infinidade de séculos e eras passadas e ainda vai se estender por outras tantas existências por um futuro que ainda não somos capazes de delimitar.

A mente atua em cada um de nós assim como as ondas de rádio e TV atuam em cada aparelho – em nossa casa, na do vizinho etc. Enquanto há associação em condições favoráveis dos Quatro Grandes Elementos, a mente pode atuar em cada um de nós. Quando, por alguma razão, as causas e condições se tornam desfavoráveis, ela nos abandona e parte para uma nova existência. A isso, convencionamos chamar de MORTE. Algo que a maioria de nós tem medo até de pensar!

A grande maioria da Humanidade acredita que existe uma ALMA, criada por um deus criador e destinada a retornar para ele ao fim da vida ou, se praticarmos o mal, condenada a arder no inferno ou algum outro tipo de castigo eterno… Assim, para a maior parte das religiões, a alma é algo imutável, capaz de cometer ações pelas quais será submetida a um julgamento divino, definindo assim seu destino final. Mesmo as crenças como o Hinduismo e o Espiritismo Kardecista, que, assim como o Buddhismo, crêem na Lei do Karma, que ocasiona vários renascimentos (aos quais eles chamam de “Reencarnação”) afirmam que é uma alma permanente, criada por deus, que passa de uma vida para outra, num contínuo processo de purificação e aprendizado e, no momento que se purificar de vez, retornará ao seu criador. O Buddha, entretanto, desbancou essa teoria, ao afirmar, categoricamente, que “NÃO EXISTE UMA ALMA”. Mais do que isso, ele afirmou que não existe nada permanente, imutável e indivisível que possamos considerar como um Ego, um Eu, uma INDIVIDUALIDADE. Tudo, absolutamente TUDO o que existe no Universo é IMPERMANENTE, em decadência, sujeito à desassociação, portanto, nada pode ser considerado como uma existência individual e absoluta!

Você então pode perguntar: “Mas e a MENTE? Ela não seria o equivalente à ALMA que as crenças no renascimento consideram existir?” Minha resposta é exatamente igual à do Buddha (afinal, sou um monge Buddhista…rsrs): Não! A mente não corresponde ao conceito de ALMA, porque o Buddha nunca afirmou ou deixou de afirmar que há um criador para a mente, do modo como as religiões afirmam que a alma é criação divina. Para diferenciar ainda mais as duas, o Buddha nos explicou exatamente como a mente funciona, mostrando que ela TAMBÉM não é algo individual, imutável, onde um Ego pode ser encontrado! Vamos ver isso:

A mente se utiliza de nosso cérebro, com seu complicado sistema neurológico e impulsos elétricos para se manifestar. O Buddha a subdividiu em duas partes: MANÔ, centralizadora e coordenadora do raciocínio pleno, direto e objetivo e CITTA(se pronuncia TCHÍTTA), que pode ser comparada ao coração, no sentido das emoções, sentimentos, envolvimento afetivo etc. Ambas as partes estão sempre agindo e interagindo, nos influenciando em nossas tomadas de decisões e todas as ações de nossa vida. Recentemente, assisti a um documentário no qual cientistas da Escócia vêm afirmando que o coração humano tem uma espécie de “minicérebro” dentro de si, ao qual eles chamam de “pequeno cérebro do coração”. Seria uma “filial” do cérebro que temos no crânio, com constante troca de informações e experiências através de uma complicada rede neurológica que envia mensagens pela corrente sanguínea! Por mais fascinante ou irreal que isto possa parecer, pelo que vejo, mais uma vez a Ciência começa a descobrir coisas que o Buddha já afirmava, quase 3.000 anos atrás! Infelizmente, os tais cientistas estão iludidos na crença da existência de uma alma que, segundo eles, talvez pudesse ser transplantada de um ser humano para outro, como já acontece com o coração e outros órgãos de nosso corpo. Mas, voltemos a falar de Manô e Tchítta… Eu dizia que, assim como o corpo humano é formado pelos Quatro Grandes Elementos, também a mente não é algo individual, único, um Eu absoluto. Manô e Tchítta só existem enquanto condicionados, aprisionados pelos CINCO AGREGADOS DA EXISTÊNCIA ou KHANDHAs (em língua Páli). O que chamamos de MENTE, só se manifesta, só tem poder de atuação, enquanto motivada por reações em cadeia desses Agregados, que veremos agora:

AGREGADO RÚPA (Rúpa Khandha) – É exatamente o corpo físico, do qual a mente necessita para atuar, como no exemplo do rádio ou TV que mencionei acima. A mente tem que ter um corpo com cérebro onde possa se manifestar.

AGREGADO DA SENSAÇÃO (Vêdana Khandha) – São todas as sensações de prazer ou desprazerosas que sentimos, toda e cada vez que nossas “Portas dos Sentidos” – Tato, Olfato, Paladar, Visão, Audição e Mente (o sexto órgão do sentido na visão buddhista) têm contato com algum dos respectivos “Objetos dos Sentidos”: o toque na pele, os aromas no nariz, o sabor na língua, os objetos e imagens em contato com o olho, os sons em contato com o ouvido e tudo isso centralizado e coordenado pela Mente (Manô e Tchítta, atuando em seus respectivos “departamentos”)

AGREGADO DA PERCEPÇÃO (Sañña Khandha) – É a espécie de “alarme” que soa como uma reação ao contato explicado acima. Toda vez que há um contato de uma ou mais Portas dos Sentidos com seus respectivos objetos dos sentidos, é preciso que haja PERCEPÇÃO. Se usarmos como exemplo uma pessoa paraplégica ou tetraplégica, incapaz de sentir um toque na maior parte do corpo, não haverá percepção, porque a Porta do Sentido não terá como reagir ao toque, mesmo que ele exista. O mesmo é vállido para um deficiente visual, onde não há contato da Porta dos Sentidos do Olho com as imagens. Se não houver contato, NÃO EXISTE PERCEPÇÃO.

AGREGADO DA FORMAÇÃO MENTAL (Sankhára Khandha) – Toda vez que o processo do contato da Porta do Sentido com seu respectivo Objeto do Sentido se concretiza, se torna real, dentro das causas e condições coincidentes, então temos como resultado uma FORMAÇÃO MENTAL, um conceito, uma opinião que se forma – boa ou ruim, sobre algo. Por exemplo, quando o olho entra em contato com uma imagem bonita – isso forma uma sensação (Vêdana)agradável. Se ele está atento, prestando atenção, então haverá “Sañña” – Percepção. A partir daí, uma formação mental surgirá – “Gosto disso! Quero ver isso de novo! Quero SEMPRE ver isso, porque é bom e eu gostei!” etc. Claro que o mesmo se passa com coisas que NÃO gostamos. As demais Portas dos Sentidos e seus respectivos Objetos dos Sentidos, também dão origem aos vários outros tipos de Formação Mental: gostos bons e ruins ao tocar a língua, prazeres sensuais ou dor no contato com o corpo físico (Rúpa), perfumes ou cheiros fedorentos fazendo contato com o nariz etc. etc.

AGREGADO MENTAL DA CONSCIÊNCIA (Viññana Khandha) – Uma vez que esse processo todo tenha se desenvolvido, se ele não foi considerado NEUTRO (sem reação alguma), inevitavelmente teremos DOIS RESULTADOS: APEGO ou AVERSÃO. Isto quer dizer que, em nossa consciência ou memória, ficará marcada, armazenada, arquivada a experiência que tivemos, tanto se foi boa quanto se foi ruim. Deste modo, toda vez que a experiência se repetir, ainda que seja só a nível de recordação em nossa memória, a sensação de APEGO ou AVERSÃO vai se repetir em nossa mente. Por exemplo, podemos salivar toda vez que vemos algum prato saboroso com o qual já tivemos uma experiência de contato. Mesmo que o prato não esteja diante de nós, só de lembrarmos dele, podemos até mesmo salivar! Ao ouvirmos uma música romântica que, no passado dançamos com a pessoa amada, as memórias nos transportam imediatamente para a cena que vivemos. O mesmo pode acontecer se ouvirmos o som de uma batida de carros. Podemos sofrer ou ficar com medo, caso já tenhamos vivido a experiência de um acidente.

Segundo a explicação do Buddha é através da FALTA DE CONTROLE, da falta de ATENÇÃO PLENA, que somos capazes de produzir KARMA, fazendo com que nossa mente desenvolva APEGO ou AVERSÃO a cada contato das Portas dos Sentidos com seus respectivos objetos. Quanto mais alertas formos capazes de estar, menos risco teremos que nossos constantes contatos com objetos, imagens e sensações se tornem fonte de apego ou aversão. Assim, não haverá envolvimento emocional e, portanto, seremos capazes de diminuir nossa produção de Karma, tanto BOM quanto RUIM. Enquanto houver produção de Karma, como resultado de nossos contatos, haverá renascimento e reinício de todo o nosso caminho a ser percorrido!

Quanto à MENTE, que a pergunta lá em cima queria saber se poderia ou não ser comparada à ALMA, acho que o Buddha nos mostrou, mais uma vez, que não há relação alguma entre as duas! Como vimos, ela é formada, condicionada, dependente da existência dos Cinco Agregados da Existência então, assim como nosso corpo físico depende diretamente das causas e condições para manter associados os Quatro Grandes Elementos, também a mente depende diretamente das causas e condições para sustentar seus Cinco Agregados da Existência. Assim, voltamos ao que foi explicado: onde há vários elementos associados, em constante decadência e risco de desassociação, não pode haver algo único, permanente, imutável ou que possa ser chamado de EGO…

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ

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