A todos, Namaste!

Em um de seus discursos mais bonitos – O Kálamá Sutra, o Buddha nos aconselha a não termos fé cega, a não nos apegarmos a coisa alguma simplesmente por ouvirmos falar ou por mera tradição… Grande parte das coisas que acreditamos e seguimos, não temos a menor noção confiável de onde vêm ou como tiveram início! Apenas seguimos porque nossos pais, avós e ancestrais praticavam e, cegamente, continuamos a seguir, sem questionamento algum! Agora, vou dar dois exemplos práticos de PORQUÊ não devemos seguir algo que não sabemos a origem… O primeiro caso é uma estória chinesa, que ouvi na Ásia durante minhas andanças por lá. A segunda situação é real e vivida por mim mesmo, nos dois anos que morei em Taiwan. Vamos lá:

Contam que um casal de chineses já estava casado há alguns anos. A mulher, muito dedicada, de vez em quando preparava o prato favorito de seu marido, um peixe, velha receita de família, herdada de sua avó. O marido sempre se  deliciava, mas, um dia resolveu perguntar a razão de o peixe SEMPRE vir sem a cabeça e sem o rabo. A esposa simplesmente respondeu que a receita era seguida exatamente como sempre foi em sua família: cortando a cabeça e o peixe! Como o marido insistiu na curiosidade, meio impaciente a esposa disse que ele devia perguntar à mãe dela, de quem aprendeu a fazer o tal peixe.

Quando a sogra veio visitar, o marido lembrou do prato e perguntou à sogra e, para sua surpresa, ela também não foi capaz de explicar a razão de cortarem a cabeça e o rabo ao prepararem o peixe. A sogra disse que ele devia perguntar à avó da esposa, uma chinesa já bastante idosa.

Movido pela curiosidade e, decidido a resolver o “grande mistério”, o marido, na primeira oportunidade, perguntou à velha senhora a razão de cortarem o peixe daquela receita… A idosa riu muito ao saber disso: “Ah! Então minha filha e minha neta ainda fazem isso?? Eu vou lhe contar, então! Quando eu era moça e meu marido ainda era vivo, éramos muito, muito pobres! Não tínhamos muita opção de comida e morávamos numa casa muito humilde. Felizmente, meu marido era pescador e sempre trazia peixe, quase o único alimento que consumíamos. Acontece, porém, que eu só tinha UMA FRIGIDEIRA e, como era pequena demais, eu tinha que cortar a cabeça e o rabo dos peixes para que cabessem nela… É simplesmente por isso que o peixe sempre foi servido dessa forma!”

No templo em que morei, na cidade de Zhong Li, Taiwan, havia monges de várias nacionalidades, aprendendo chinês e, muitas vezes por imposição local, seguindo as tradições chinesas… Éramos tailandeses, cambojanos, cingaleses (Sri Lanka), vietnamitas, burmeses e até alguns lamás tibetanos, todos convivendo (supostamente) em harmonia.

Todas as noites, cumpríamos uma estranha prática de andarmos em marcha acelerada, em volta do grande pátio diante das escadarias que conduziam ao salão do altar. Isto era feito quase que no escuro, com apenas algumas lâmpadas iluminando esse estranho exercício noturno. Após algumas voltas, todos parávamos enfileirados diante da escada e alguém previamente escolhido pegava duas espadas de madeira, recitava algo em chinês, gritando bem alto e todos fazíamos uma reverência…

Acontece, porém, que um monge muito engraçado, da Tailândia, detestava todas essas tradições chinesas e nunca perdia a oportunidade de fazer alguma graça para ridicularizá-las! Nessa situação da caminhada noturna, ele sempre achava um modo de parar junto a uma enorme lanterna de pedra onde havia uns sininhos pendurados e, protegido pela penumbra do local, tocava o sininho, fazendo todos rirem e causando raiva no Supervisor geral, um chinezinho bastante nervoso e disciplinador: “Quem fez isso??? Acuse-se e será punido!!!” Todos nós ríamos muito e ninguém nunca acusou o monge, um gordão fanfarrão e muito engraçado.

Muito bem. Eu saí de Taiwan, morei mais um ano na Tailândia e voltei ao mesmo templo chinês. Muitos monges conhecidos já haviam ido embora, o gordão há muito tinha deixado Taiwan e até mesmo o Supervisor já era outro. Mas, o mesmo ritual da marcha noturna continuava e, para minha surpresa, ao final, na mesma penumbra, na mesma lanterna de pedra, ao terminar o ritual, alguém gritou: “O SININHO!! TOCA O SININHO!! Não podemos quebrar essa antiga tradição chinesa!!”

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ