A todos, Namaste!

Uma das mais importantes práticas do Buddhismo Theravada que, infelizmente parece estar em extinção, se chama PINDABÁT e deveria ser seguida por todos os monges, diariamente. O termo BHIKKHÚ ou BHIKSHÚ (em Páli e Sânscrito, respectivamente) significa AQUELE QUE MENDIGA O PRÓPRIO ALIMENTO e é a definição específica para o tipo de monge que o Buddha e seus Discípulos se tornaram. Pelo que o Buddha estabeleceu, nós monges Theravada não somos nem mesmo autorizados a acender fogo, a não ser em caso de extrema necessidade de se proteger contra o frio, portanto, não deveríamos cozinhar absolutamente nada!

Enquanto morei na Tailândia e no Laos, costumava sair diariamente, com outros monges (no Laos) ou sozinho, pelas ruas de Bangkok, para receber alimento. Ir mendigar alimento se chama PINDABATI´KANGA e é um ato profundamente significativo, solene, uma prática muito mais importante do que se possa supor. Nós monges temos que ir descalços, usando o manto de forma que cubra os ombros, levando a tigela, pendurada por uma tira que passa pelo peito. A tigela vai tampada e só é aberta quando alguém doa alimento.

Mais que simplesmente andar, a prática é um exercício de concentração, uma meditação. Nós monges devemos andar olhando unicamente para o chão, com passos firmes porém mostrando austeridade e humildade ao mesmo tempo. Estar atento à respiração é fundamental. Embora sigamos basicamente a mesma rota diariamente, não podemos, de modo algum, olhar para a pessoa que está doando alimento, muito menos podemos sorrir ou agradecer. PINDABÁT É UMA PRÁTICA SILENCIOSA, DE CONCENTRAÇÃO E HUMILDADE!! Foi isso que o Buddha estabeleceu. Não olhamos para a pessoa para não a reconhecermos depois, criando na mente obstáculos como: “Foi essa pessoa que me serviu pouco outro dia…” ou “Foi essa pessoa que me ofereceu um pedaço de frango muito bom…” Sem saber quem é quem, todos se tornam iguais e toda oferenda é aceita do mesmo modo – com a humildade que vem do coração.

O tempo todo, durante a ronda, nós monges devemos ter em mente o seguinte pensamento: “Dependo da generosidade de todos para manter-me forte na prática de meus Preceitos. Se não fosse pela generosidade dos leigos, eu não poderia me manter na vida monástica, portanto, devo ser humilde e perseverar na prática!” 

Com o passar dos tempos, a prática de Pindabát vem se degenerando… O que foi explicado até aqui vem mudando por distorções dos reais motivos idealizados pelo Buddha. Hoje em dia, na Tailândia, vemos monges sorrindo e até conversando com as pessoas que doam alimento… Muitos andam como se estivessem passeando ou num shopping centre. A regra que estabelece que nós monges não dizemos nada “em retribuição ” pelo alimento é clara: Doar alimento a um monge é, segundo o próprio Buddha, uma GIGANTESCA FONTE DE BOM KARMA, portanto, nós monges ao recebermos a doação, estamos FAZENDO UMA TROCA DE FAVORES. O leigo nos doa a comida e, em retribuição, cria méritos para si próprio. Portanto, não há necessidade alguma de recitarmos o que quer que seja após a doação… Infelizmente, os leigos não entendem isso e podem até se recusar a doar novamente para um determinado monge, caso ele simplesmente se retire em silêncio, sem recitar uma “benção de agradecimento”.

Outra regra da PINDABATI´KANGA que também não é seguida diz que nós monges só podemos receber comida até o limite máximo de uma tigela cheia. A tigela (vejam as fotos) é bem grande e nela cabe alimento suficiente para duas refeições bem fartas, até podendo ser compartilhadas com algum monge doente ou idoso, que não possa fazer sua própria ronda. Mas, ansiosos por criar méritos ou simplesmente por ignorância, muitos leigos, mesmo vendo que nossa tigela já está cheia, insistem em doar e não aceitam que nos recusemos a receber! Com isto, outras distorções sérias da prática se formaram – Há monges que saem para a ronda acompanhados de um leigo que trabalhe no templo. O leigo vai atrás, levando um balde e sacolas!! Toda vez que a tigela está cheia até a borda, o monge passa o alimento recebido para o balde e as sacolas, até que todas estejam cheias e, só então , retorna ao templo… Triste isso!! Várias vezes cheguei a ver monges voltando DE TÁXI para o templo, com o carro lotado de comida!

Para contribuir ainda mais com as distorções, há monges chineses de Tradição Mahayana, que vão para as ruas com pequenas tigelas, até bonitinhas, que usam para mendigar exclusivamente DINHEIRO, em vez de alimento… Com tantas distorções, não é de se admirar que a importante prática de mendigar alimento esteja se extinguindo tão rapidamente!

De volta ao templo, após a ronda, os ANAGÁRIKA (aspirantes a noviços) recolhem nossas tigelas e vão preparar a ÁNASSA, uma espécie de palanque, sobre o qual nós monges fazemos as refeições em conjunto. A refeição monástica também é um ritual e uma prática de Atenção Plena! Não devemos comer alegremente, rindo ou conversando!

Várias vezes, de joelhos, esperei do lado de fora do salão do altar a chegada do Abade que parava perto da porta e esperava que eu lavasse e enxugasse seus pés antes de entrarmos para a refeição… Em seguida, nós todos nos sentávamos, alinhados por ordem de tempo de vida monástica, o que, quase sempre, me colocava como último da fila..rsrs

Todos fazem três prostrações em direção á imagem do Buddha e, em seguida para o Abade, que permanece imóvel, com as mãos juntas em “añjalí”. Diante de nós, as tigelas vazias. Após uma breve recitação em homenagem ao Buddha, os ANAGÁRIKA trazem a comida, servida primeiramente para o Abade e, passada de um a um, até que o último noviço (caso haja noviços no templo) seja servido. Os Anagárika esperam para comer o que não for consumido por nós monges.

A refeição prossegue, em silêncio absoluto, com Atenção Plena, sem fazermos barulho com a colher (alguns monges comem com a mão direita, sem talher). Os ossos, cascas e outros restos de comida são depositados na tampa da tigela. Ninguém se levanta da Ánassa antes que o Abade termine e se retire. Só após isso, cada um, lentamente se retira e vai lavar a tigela, enxugá-la e deixá-la virada para o Sol por algum tempo, sempre permanecendo junto à tigela, vigiando!

A tigela de mendigar comida é tão importante para a vida de um monge que, na Tradição da Floresta é comum ensinar que, não havendo imagem do Buddha para a qual fazermos prostrações, devemos nos prostrar diante da tigela! É realmente lamentável que tão pouca gente entenda a grandeza e importância do PINDABATI´KANGA!

Fiquem em Paz e protegidos!

सुनन्थब भिक्षु