A todos, Namaste!

Esta matéria não tem a menor intenção de ser um “curso de meditação”, um manual para meditadores, nem uma aula de como meditar! Meditação é algo sério e profundo demais para ser ensinada em uma matéria de blog e fortemente recomendo que, aqueles interessados em se tornar meditadores procurem a orientação de um monge, caso queiram praticar no âmbito do Buddhismo. A orientação e acompanhamento de um monge podem contribuir em muito para o sucesso de sua prática. Com esta matéria, busco apenas despertar nos eventuais curiosos o gosto pela Meditação e, para os que já tentaram uma ou mais vezes, sem sucesso, pode ser a explicação que faltou antes e, a partir de agora, pode estimular o retorno à prática, desta vez, espero,  bem sucedida!

Há mais de uma forma de “meditação buddhista” e algumas tantas outras formas de meditar, ensinadas por aí… Esta matéria vai tratar apenas da meditação ANAPANASSÁTI. Em língua Páli, Anapana significa “entrada e saída do ar” e Satí significa “Atenção Plena”, “Atenção Focada”, portanto, “Atenção Plena na Entrada e Saída do Ar”, ou seja, usamos o processo da respiração (nada é mais natural que o ato de respirar!) como objeto de concentração para a prática meditativa.

Muita gente já ouviu falar de outra forma de meditação, chamada de VIPÁSSANA(em Páli) ou VIPÁSHYANA (em Sânscrito). Há quem pense que essa outra forma é mais “poderosa” ou mais eficiente que a Anapanassáti, mas isto não é verdade e não tem fundamento algum afirmar isso.

Voltando à explicação, como eu disse, usamos a RESPIRAÇÃO para mantermos a mente focada. Com isto, não há desculpa alguma para não praticar… Você não precisará de varinha de incenso, nem de almofada especial, nem de CDzinho com gaivotas, ondas do mar e outras “coisinhas bonitas de se ouvir”, mas que nada têm a ver com MEDITAÇÃO BUDISTA! Deixe essas coisas para seus momentos de lazer e relaxamento, pois, conforme eu disse, Meditação é coisa séria!

Meditar é estar diante de si mesmo, sem fantasias, sem distorções, sem achar que você “É O CARA”, frase tão na moda no mundo atual… Meditamos para reduzir nossa sobrecarga de pensamentos inúteis, nossos apegos, ansiedades, mágoas, angústias, expectativas e, portanto, aliviamos nossa mente, vagando nela um espaço para organizarmos nossas idéais e, consequentemente, vermos o mundo como ele realmente é, em vez de vê-lo do jeito distorcido que normalmente usamos.

É muito importante, porém, que você MEDITE SOMENTE POR MEDITAR, sem esperar nada, absolutamente NADA! É exatamente por isto que tão pouca gente medita e tantas pessoas desistem após uma ou duas tentativas! A mente destreinada está sempre fazendo algo COM O OBJETIVO DE ALGO, esperando um retorno imediato para tudo o que faz. No caso da Meditação, como é impossível obter qualquer resultado imediato, as pessoas acham que estão “perdendo tempo” e logo desistem…

Medite sem intenção de coisa alguma e, naturalmente os resultados virão, no momento certo – nem antes, nem depois – como “efeitos colaterais” de uma prática consistente e disciplinada.

Para quem acha que “Meditação é parar de pensar” e, por causa disto, não consegue meditar, aqui vai uma explicação animadora: Meditar não é parar de pensar! É um processo GRADATIVO de não se envolver emocionalmente com os pensamentos que surgem durante a prática da meditação e, pacientemente, voltar ao objeto da prática meditativa – a respiração – toda vez que os pensamentos surgirem, sem dar atenção a eles, até que diminuam de frequência e deixem de nos incomodar! Portanto, a velha e tradicional afirmativa: “Eu não medito, porque NÃO CONSIGO parar de pensar!” é uma má interpretação do que é Meditação!

Esperando ter sido esclarecedor até aqui, vamos então a alguma dicas que podem ajudar no seu sucesso como praticante de Meditação Budista. Na Tradição Theravada não é comum o uso de almofadas de meditação, tão comuns em outras Tradições do Buddhismo. Portanto, não se justifica que alguém não medite por falta de almofada. É importante, entretanto, se sentar em um lugar com uma base sólida, que dê firmeza ao corpo para praticar. Definido isto, vamos a outros detalhes importantes…

Procure meditar sempre no mesmo horário, a ser definido por você, usando o bom senso! Obviamente, você não vai querer iniciar a prática, faltando cinco minutos para sair para o trabalho… Tampouco vai escolher como horário de meditação o momento em que seus filhos voltam da escola! Portanto, escolha o horário mais calmo e silencioso que puder. Se mora numa avenida movimentada, talvez acordar mais cedo, antes que os carros façam barulho seja uma boa opção… Ou num horário noturno, depois dos horários de pico no trânsito. Enfim, a decisão e escolha são suas!

Se você é do tipo que acorda “de mal com o mundo”, o horário da noite, antes de dormir, pode ser mais estimulante para meditar. Ao contrário, se é do tipo que já está caindo do sofá logo após o jantar, então, de manhã pode ser um horário melhor. Novamente – a decisão é sua! O importante é que medite sempre no mesmo horário, criando um hábito a ser praticado, um compromisso – sua mente precisa ser treinada para esse compromisso diário!

Prepare-se, então, na posição de meditar. Você não nasceu na Índia nem no Nepal… É ocidental e, portanto, não tem obrigação alguma de se sentar em posições mirabolantes de yôguis… Basta cruzar as pernas, naturalmente. Se for capaz de se sentar em “meio-lótus”, “lótus completo” etc., bom para você! Aliás, se você, por qualquer razão, não consegue se sentar no chão, não precisa usar isto como desculpa para não meditar… Pode perfeitamente meditar usando uma cadeira, desde que siga as instruções para se sentar corretamente.

Formando um triângulo firme e equilibrado, mantenha a coluna reta, ombros alinhados com o tronco,  sem se curvar para trás nem para a frente. Ponha as mãos sobre o colo, com a direita por baixo e a esquerda por cima. Não se importe com aquelas famosas posições das mãos que você vê em fotos e imagens do Buddha… Deixe isso para trás… Somos brasileiros!!!!

Se preferir meditar de olhos abertos, recomendo que se sente, à meia luz, de frente para uma parede lisa, sem objetos que perturbem sua meditação. Se preferir fechar os olhos, simplesmente baixe um pouco a cabeça, calculando mais ou menos dois palmos adiante de seu corpo e feche os olhos naturalmente ou os mantenha quase fechados.

É bastante aconselhável que pressione a língua ligeiramente, na parte dura do céu da boca, acima da raíz dos dentes superiores. Isto reduzirá significativamente a produção de saliva, diminuindo a salivação. Bem, com estas dicas, você já está em posição para começar a Meditação Budista , usando o método ANAPANASSÁTI.

Seu único trabalho, sua única ocupação, é observar o processo respiratório! Nada mais lhe interessa ou ocupa durante a Meditação Anapanassáti. Inspire e expire longamente, somente pelo nariz, para iniciar o trabalho de Meditação. A partir de então, apenas observe a respiração, respirando NATURALMENTE, sem forçar nada: “longa”, “curta”, “sutil”, “forte”… Apenas isso, nada além disso!

Resta agora administrar o método… Vamos supor que você ouça um cachorro latindo. Imediatamente, “rotule” o som: “cachorro”, ou “latido”, ou “cão”… Use apenas UMA palavra para o rótulo, NUNCA rotule: “um cachorro latindo”, por exemplo. Quanto mais curto for o rótulo, mais eficiente! Se você se envolver emocionalmente com o latido do cão: “É aquele cachorro branco do vizinho do apartamento tal… etc. etc.” Já não estará mais meditando e sim pensando sobre o cachorro que seu vizinho tem, concorda?

O mesmo processo de rotular é válido para um carro: “BUZINA!” ou “MOTOR!”  Para o som de vozes conversando: “VOZ!” ou “PAPO!” e assim por diante… Apenas ROTULE, sem se envolver com os sons que estiverem tentando perturbar sua Meditação. Mesmo que o som persista, apenas rotule e volte imediatamente para a única coisa que importa no momento: A RESPIRAÇÃO!!

É natural que você sinta dores nas pernas, dormência, talvez coceiras pelo corpo e a impressão de que há mosquitos e outros insetos perturbando… TUDO ILUSÃO! A mente, que não está gostando nada dessa idéia de Meditação, porque sabe que está sendo submetida a um treinamento disciplinar, vai começar a criar todas essas coisas, na tentativa de fazer você desistir de meditar! O que fazer então?? ROTULE!! Ao sentir dor: “DOR!” ao sentir dormência: “DORMENTE!” E assim, sucessivamente, até que a perturbação desapareça e, acredite, ela DESAPARECE após algum tempo de prática.

Permaneça nesse processo. Não desanime. Não desista! Com alguns dias de prática a dor no corpo vai diminuindo e, quando você menos esperar, estará sentando para meditar por vários minutos, talvez até horas, sem dor alguma e, com certeza, o que antes parecia uma tortura, se tornará uma prática tão prazerosa que você sentirá falta se passar um único dia sem meditar!

Como eu disse, minha intenção não é fazer deste blog um compêndio de Meditação, portanto, espero ter sanado algumas dúvidas básicas e mais comuns sobre o tema e, se consegui despertar em alguém a vontade de começar ou tentar de novo, terei cumprido meu objetivo! Boa prática a todos! Lembrem-se: estou aqui mesmo para esclarecer e ajudar… Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ