A todos, Namaste!

Antes de explicar mais uma vez o significado dos Cinco Preceitos, é importante sabermos o que é “preceito”. Principalmente nas sociedades judáico-cristãs onde todos nós crescemos, nos criamos ouvindo falar de MANDAMENTOS, que, quando não obedecidos, nos tornam passíveis de punição divina, castigo, confissão e pedido de perdão por nossos pecados. Nada disso tem a ver com os Preceitos que foram idealizados pelo Buddha.

Um Preceito não é uma ordem. È algo que, previamente testado e aprovado por alguém, nós ouvimos como um conselho e, ao seguirmos, comprovamos que também é bom para nosso cultivo de uma vida melhor. Portanto, um Preceito é algo “previamente aceito”, não um lei que não pode ser desobedecida. O Buddha pensou nisto e sabia que as pessoas preferem fazer coisas que sejam capazes de entender, em vez de serem ameaçadas ou forçadas a seguir por fé cega. Ao mesmo tempo, quando formulou o que chamamos de Cinco Preceitos de Um Leigo Buddhista, ele “cercou” todas as possibilidades para que não houvesse a menor chance de quebrarmos os Preceitos por mau entendimento deles!

Infelizmente, com tantos idiomas para os quais os Preceitos foram traduzidos o conceito original, tão bem elaborado pelo Mestre Buddha muitas vezes acabou se perdendo ou, da forma como se lê, não mostra a clareza pensada por ele. É por isso que, de tempos em tempos, eu faço questão de redigir uma matéria esclarecedora, para que não haja dúvida sobre os Cinco Preceitos que, na verdade são CINCO TREINAMENTOS MENTAIS PARA A PURIFICAÇÃO MENTAL, que conduz ao Nirvána.

Vemos o Primeiro Preceito simplificado para “NÃO MATAR!” Ora, não foi isso que o Buddha disse!! O Preceito, em seu texto em Páli, é assim: “PÁNÁTIPÁTÁ WERAMANI SIKHÁPADAM SAMÁDIYÁMI!” Isto significa: EU ASSUMO O COMPROMISSO DE MANTER A ATENÇÃO PLENA NO TREINAMENTO MENTAL DE NÃO TIRAR INTENCIONALMENTE A VIDA DE NENHUM SER VIVO!” Isto é muito diferente de “não matar” e ressalta o aspecto da întenção do ato de matar, assim como engloba TODOS os seres vivos, não somente humanos, já que a maioria das crenças afirma que o ser humano é o “rei da criação” e, portanto tem direito de matar todo tipo de animal, indiscriminadamente! Já no Buddhismo, o Buddha afirmou que todo ser vivo tem IGUAL DIREITO à vida e a tentar ser feliz.

O Segundo Preceito também é encontrado facilmente com sua tradução incompleta e errada! Na maioria das vezes o vemos como: “NÃO ROUBAR!” O texto original é assim: “ADINNÁDÁNÁ WERAMANI SIKHÁPADAM SAMÁDIYÁMI!”  Que significa: “EU ASSUMO O COMPROMISSO DE MANTER A ATENÇÃO PLENA NO TREINAMENTO MENTAL DE NÃO PEGAR PARA MIM ALGO QUE NÃO TENHA SIDO DADO PELO LEGÍTIMO DONO!” Isto sim, como eu disse antes, cobre todas as possibilidades, não deixa margem a dúvidas e é claramente entendido por qualquer pessoa! Não pegar, é NÃO PEGAR e pronto!

Sabemos que, para nossa felicidade, a maioria das pessoas não rouba! Portanto, “não roubar” jamais poderia ter sido dito pelo Buddha como Preceito. Já do modo como ele realmente disse, fica bem claro que, se algo não nos foi dado pelo dono, não temos o direito de pegar! Só assim todas as possibilidades de não quebrarmos o preceito estão garantidas! E, por favor, não me venham com essa tolice enorme de que “achado não é roubado”!!!

O Terceiro Preceito se refere à prática sexual e é ainda mais passível de confusão e má interpretação ou, pior ainda, não esclarece nada, do modo como vem sendo traduzido!EVITAR MÁ CONDUTA SEXUAL!” Ora… Ora… Alguém pode me explicar o que é boa ou má conduta sexual??? Isso não diz absolutamente nada! Será que masturbação é má conduta sexual? Será que homossexualismo é má conduta sexual? Será que sexo grupal é a tal má conduta sexual?? O Buddha nunca disse coisas “pela metade” ou que causassem confusão mental! Portanto, o Terceiro Preceito foi estabelecido de modo muito claro: “KAMESSUMI TCHÁATCHÁARÁ WERAMANI SIKHÁPADAM SAMÁDIYÁMI!”, cujo significado real e literal é EU ASSUMO O COMPROMISSO DE MANTER A ATENÇÃO PLENA NO TREINAMENTO MENTAL DE NÃO SER DESLEAL À PESSOA COM QUEM ASSUMI O COMPROMISSO DE UMA VIDA SEXUAL A DOIS. Aí sim, temos uma explicação clara e convincente do Terceiro Preceito! Temos que ter em mente que o Buddha viveu numa sociedade onde a poligamia (o homem tinha várias esposas) era comum… O pai do Buddha tinha várias mulheres e, ele mesmo, antes de se tornar o Buddha, se casou e continuou tendo outras mulheres à sua disposição. A questão é que toda vez que queria ter relações com as outras, sua mulher sabia e CONSENTIA nesse ato! Portanto, o Buddha jamais tentaria convencer as pessoas a terem uma única parceira ou um só parceiro! Isso não funcionaria na época, como, aliás, sabemos que também não funciona no mundo atual!!

O Terceiro Preceito, na ótica buddhista, não condena, embora não aconselhe, que as pessoas tenham vários parceiros sexuais… Essa coisa moderna que a juventude chama de “FICAR” e saem por aí, beijando várias garotas e garotos a noite toda, não é uma prática saudável nem recomendável, porém, não posso condenar, porque cada um é responsável por seus próprios atos! Mas, se alguém assume formalmente o compromisso de uma vida A DOIS e, por algum motivo, resolve ter uma relação extraconjugal, isso só pode ser realizado COM O CONHECIMENTO E CONSENTIMENTO da pessoa com quem o compromisso foi assumido. SE e SOMENTE SE a outra pessoa concordar, não é traição, não há deslealdade e, portanto, não há quebra do Terceiro Preceito, conforme idealizado pelo Buddha. Além disto, não há preconceito algum no Buddhismo se as pessoas do mesmo sexo vivem juntas. O Buddhismo não discrimina o homossexualismo masculino ou feminino, porque todo ser tem igual direito de ser feliz do jeito que é, com total respeito à sua sexualidade, mas o Terceiro Preceito é válido para todos – hétero ou homossexuais!

 Cá entre nós, nenhuma outra crença ou Ensinamento NO MUNDO pode ser mais liberal e moderno que isto, certo?

O Quarto Preceito é, com certeza o mais difícil de ser seguido! Ele também não escapou das traduções erradas e causadoras de dúvida e confusão: “NÃO MENTIR!” O texto que o Buddha falou é assim: “MUSSÁVÁDÁ WERAMANI SIKHÁPADAM SAMÁDIYÁMI!” Significando: EU ASSUMO O COMPROMISSO DE MANTER A ATENÇÃO PLENA NO TREINAMENTO MENTAL DE NÃO FAZER MAL USO DE MINHAS PALAVRAS!” Vamos analisar isto: As palavras não brotam de nossas bocas… A boca e a língua são meros aparelhos vocais! Tudo o que falamos, surge primeiramente em forma de pensamento, ou seja, nossas mentes criam as palavras e as processam na boca, para que saiam em forma de som ou, no caso da escrita, o que pensamos é transformado em letras etc.

Falamos demais, falamos tolices, usamos linguagem suja, vulgar, palavrões – mesmo que transformados em gírias, usamos de linguagem agressiva, inútil, fútil, ilusiva! Dizemos coisas “só por falar”, sem a menor intenção de cumprir, prometemos coisas, assumimos compromissos que não temos a intenção de realizar… Tudo isso e muito mais, está incluído no Quarto Preceito elaborado pelo Buddha.

Temos que manter em mente, que o Buddhismo é um programa perfeito e completo de DISCIPLINA mental, para, através da Purificação da Mente, passarmos a ver as coisas com clareza e, eventualmente, atingirmos a Iluminação! Se não formos cautelosos e disciplinados no uso de nossas palavras e na quantidade de tempo que desperdiçamos falando demais, será muito difícil completarmos esse programa de purificação! Portanto, devemos estar sempre atentos para o Quarto Preceito!

O Quinto e último Preceito também vem sendo mal traduzido em todos os idiomas… Costuma ser encontrado como “NÃO INGERIR ÁLCOOL!” Tolice!! Tolice!! Não foi isso que o Buddha nos disse! O texto original é: ‘SURÁMERAYA MADJAPAMÁ DATTHANÁ WERAMANÍ SIKHÁPADAM SAMÁDIYÁMI!” Isto tudo aí, quer dizer: EU ASSUMO O COMPROMISSO DE MANTER A ATENÇÃO PLENA NO TREINAMENTO MENTAL DE NÃO FAZER USO DE QUALQUER SUBSTÂNCIA QUE POSSA ALTERAR O ESTADO PURO E NATURAL DE MINHA MENTE!  AAAH! Agora sim!! Isto é algo que foi elaborado por um Ser Iluminado! Afinal, sabemos que maconha não é álcool, cocaína também não! Porém, ambas alteram o estado puro e natural da mente! Se fosse sobre álcool apenas, o Quinto Preceito não seria perfeito, porque não cobriria todas as possibilidades!

NÃO INGERIR, não é ingerir “de vez em quando” ou “ingerir só um pouquinho” nem “em comemorações pode”!!! Não ingerir é NÃO INGERIR e ponto final! Quando temos consciência  de que os Cinco Preceitos são nossos aliados, existem para nos libertar – não para nos escravizar, mantê-los PUROS E INTACTOS se torna fácil!

Seguir os Cinco Preceitos de Um Leigo Buddhista é ter consciência de que nossas vidas se tornam melhores, mais fáceis e mais felizes… Não há escravidão, não há repressão, não há “caretice” em seguir os Preceitos! Quanto mais os praticarmos, mais felizes seremos… Não devemos ter medo do que os outros vão pensar ou dizer a nosso respeito por sermos “diferentes” da maioria, afinal, quem falou que a maioria é sempre certa, tem sempre razão???

Estes são os Cinco Treinamentos Mentais para a Purificação da Mente. Se você já os praticava mas não conhecia a tradução exata deles, agora já as tem! Se nunca tinha ouvido falar deles, agora já os conhece e, com a sorte de vê-los do modo como o Mestre Buddha os elaborou, então, que tal começar desde agora a seguí-los? Pode ter certeza de que não se arrependerá!

Fiquem todos em Paz  e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ