A todos, Namaste!

Uma das pessoas mais gratificantes que conheci, durante os quase 16 anos de minha jornada pelo Buddhismo é um monge tailandês, bem mais jovem que eu, chamado Venerável JAYADHARÔ (“vitória do Dharma”). Nascido e criado na importante região nordeste da Tailândia, área famosa por produzir os melhores e mais conceituados monges buddhistas da Tradição da Floresta, ele foi mandado por seu mestre para aprender Mandarim em Taiwan e já estava há algum tempo no Instituto no qual eu também fui estudar, ainda que em circunstâncias bem diferentes…

O Instituto Buddhista Yuan Guang, na cidade de Zhong Li tinha mais de 70 alunos quando cheguei, de diferentes nacionalidades e os tailandeses e cambojanos eram maioria. Não demorou muito para despertar uma grande afinidade entre mim e o Ven. Jayadharô. Sua imensa vontade de ser corrigido em seu inglês básico ajudou muito para que se aproximasse de mim e, logo, nos tornarmos amigos.

Eu nada mais era que um noviço brasileiro, iludido e, ao mesmo tempo muito triste e assustado por causa das muitas mentiras e enganações das quais fui vítima quando me enviaram para Taiwan. Assim, a sinceridade e retidão de caráter daquele jovem monge tailandês me surgiram como um porto seguro e uma fonte de Dharma onde encontrei um abrigo.

O Ven. Jayadharô já falava bem chinês e assim, não estávamos juntos na mesma classe, mas, todo tempo livre que tínhamos, era dedicado a longas conversas sobre o Dharma, nas quais eu aumentava meu conhecimento sobre Buddhismo e ele, ávido de mais vocabulário e melhor pronúncia em Inglês, não se cansava de me fazer perguntas, forçando-o a repetir cada sílaba até estar perfeito. Também foi através do novo amigo que aprendi minhas primeiras palavras em Tailandês, na época sem saber que acabaria me tornando monge Theravada, ordenado pela Tradição Tailandesa!

Nem sempre minha mente destreinada entendia ou aceitava o modo de ser do colega tailandês… Na verdade, não foram poucas as vezes em que, ansioso e tolo, perdi a paciência com ele… É que meu amigo tinha o “estranho hábito” de dizer  “TALVEZ”… Isto, em mais de uma situação, chegou a me irritar a ponto de discutir com ele que, com toda paciência do mundo, achava graça de minhas explosões e, simplesmente sorria!

Nossas folgas da rotina do templo eram sempre aos domingos, quando tínhamos que pedir permissão ao supervisor geral, caso quiséssemos ir à cidade e passar o dia fora do Instituto. Eu, inquieto e impaciente, contava as horas para a chegada do domingo. Foi assim que, num sábado comentei com o venerável amigo: “Amanhã é nossa folga! Vou à cidade, tenho várias coisas para fazer lá e tenho que ir a uma Lan House, ler meus e-mails e fazer contato com o Brasil. Vou bem cedo para aproveitar o dia!” E, muito calmo, o Ven Jayadharô olhou para mim, sorriu e disparou: “TALVEZ!”

Perdi a calma: “Como TALVEZ??? É claro que eu vou! É domingo, não temos furacões nesta semana, o tempo está bom, é nossa folga e eu sei como pegar o onibus para ir à Lan House, então, tudo está certo! Não tem TALVEZ nenhum!!” Ele sorriu de novo e insistiu: “Talvez!” E, quanto mais eu me irritava, mais ele ria… Chegava mesmo a gargalhar!

No dia seguinte, um belo domingo de sol, logo após as tarefas da manhã, me vesti com o manto de sair (coisas do buddhismo chinês…rsrsr) e me apressei em procurar o supervisor geral, para COMUNICAR a ele minha ida à cidade. O encontrei passeando ao sol, no pátio principal do templo. “Venerável! – comecei com as mãos juntas em saudação – “Estou pedindo permissão para ir à cidade, já que hoje é domingo, dia de nossa folga. Vou agora… Com sua licença!” Pensei ter ouvido errado quando ele disse: “Não vai!” Me virei e perguntei, ainda surpreso: “O que o Venerável disse???” – “Disse que você não vai! Não vai sair hoje… Não vai a lugar algum!” – “Mas, Venerável… É meu dia de folga, preciso resolver várias coisas na cidade, fazer contato com meu país…” E ele, irredutível: “Já disse que não vai…” Eu insisti: “Posso saber do Venerável a razão para não me permitir ir?” E ele: “Porque EU estou com dor de cabeça!” E, com um gesto da mão disse: “Agora me deixe em paz…”

Naquele exato momento, me veio à mente a imagem do Venerável Jayadharô dizendo: “TALVEZ!” Foi a melhor lição que já tive de como NUNCA DEVEMOS descartar a impermanência e nos projetarmos com todas as nossas expectativas no futuro, contando com o incerto como se fosse uma certeza!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु