A todos,  Namaste!

Obra prima da Literatura Theravada, o “MILINDA PAN-HA”, embora bastante conhecido na Ásia buddhista, permanece praticamente desconhecido no ocidente. Trata-se de um debate, talvez fictício, porém bastante verocímio, entre um grande rei grego, chamado Menandro (chamado MILINDA em língua Páli) e um monge buddhista, conhecido como Venerável Nagassena.

O diálogo ocorre num período em que parte da Índia foi dominada pelos gregos que em muito absorveram a cultura e religiosidade da época, convivendo também com o Ensinamento poderoso do Buddha, o que aguçou a curiosidade daquele governante, dotado de extrema inteligência e habilidade para debates, a tal ponto que nunca encontrava pessoas de seu nível intelectual com quem exercitar tal prática.

Ao saber da existência de um monge buddhista considerado imbatível na inteligência e na arte dos debates, o rei foi procurá-lo e, posteriormente convidou Nagassena para seu palácio, onde, com mais tranquilidade, poderiam passar horas debatendo.

O Milinda Pan-ha não é facilmente encontrado em português e, quando isto acontece, sua tradução é cheia de termos distorcidos, que não correspondem aos que devem ser usados dentro da Tradição Theravada. Assim, resolvi eu mesmo iniciar uma tradução desta obra tão importante e, aos poucos, vou publicando no Blog, para que todos se familiarizem com esta obra tão importante e inteligente. Com vocês, o primeiro capítulo do Milinda Pan-ha. Boa leitura!

CAPÍTULO 1

A ALMA

O Rei Milinda foi procurar o Venerável Nágassena, trocou cumprimentos educados e amistosos e tomou assento, respeitosamente, sobre um só lado. Então, Milinda começou a perguntar:

– “Como é o Reverendo conhecido e qual o seu nome?” – “Oh Rei! Sou conhecido como Nágassena mas isto é apenas uma designação de uso comum, porque nada de permanente e individual pode ser encontrado nisso.”

Então, Milinda chamou os Gregos Bactrianos e os monges para testemunharem: “Este Nágassena diz que nada de permanente e individual pode ser encontrado num nome. É possível concordar com isto?” Então, voltou-se para Nágassena e disse: “Se, Venerável Nágassena, isto é verdade, quem lhe dá mantos, comida e abrigo? Quem vive a vida correta? Ou novamente, quem mata seres vivos, rouba, comete adultério, mente e usa intoxicantes? Se o que o senhor diz é verdade, então não há mérito nem demérito, tampouco quem pratique as boas ou más ações nem resultado algum do karma. Se, Venerável Ser, um homem o assassinasse, não haveria assassinato e, por conseguinte, não haveria mestres nem professores em sua Ordem. O senhor afirma que se chama Nágassena, agora, o que é Nágassena? É o cabelo?

“Eu não digo isso, Grande Rei.”

“Então é as unhas, dentes, pele ou outras partes do corpo?”

“Certamente que não.”

“Ou é o corpo, ou sentimentos, ou percepções, ou formações ou a consciência? É isto tudo combinado?”

Nágassena respondeu: “Nada destas coisas.”

“Então, como posso perguntar, não posso descobrir Nágassena algum. Nágassena é um som vazio. Quem é que está aqui, diante de nós? O que o Venerável acabou de dizer é falso.”

“O Grande Rei sempre esteve coberto de grande luxo, desde que nasceu. Como veio até aqui – a pé ou numa carruagem?”

“Em uma carruagem, Venerável Ser.”

“Então, explique Grande Rei, o que é a carruagem. É o eixo das rodas? Ou as rodas, ou os chacis, ou as rédeas, o que é a carruagem? É tudo isso combinado ou não é nada destas coisas?”

“Não é nada destas coisas, Venerável Ser.”

“Então, Grande Rei, a carruagem é um som vazio. O Grande Rei falou algo falso ao dizer que veio até aqui numa carruagem. O senhor é um Grande Rei da Índia. A quem teme para não poder dizer a verdade?” Então, ele chamou os monges e os Bactrianos Gregos como testemunhas: “Este Rei Milinda disse ter vindo aqui de carruagem mas, quando perguntado sobre o que é uma carruagem, não foi capaz de dizer. Podem concordar com isto?”

Os quinhentos Gregos Bactrianos aprovaram e disseram ao rei, “Saia desta, se puder!”

“Venerável Ser, eu falei a verdade. É por ter todas essaas partes que a carruagem é definida com esse termo.”

“Muito bem, Grande Rei, Vossa Majestade captou o significado correto. Da mesma forma, é por causa dos 32 tipos de matéria orgânica no corpo humano e dos Cinco Agregados da Existência que eu me tornei conhecido como “Nágassena”. Como foi dito pela Irmã Vajíra na presença do Buddha, “É exatamente por haver várias partes que a palavra “Carruagem” é usada, exatamente por haver os Agregados da Existência que falamos sobre uma existência.”

“Maravilhoso, Nágassena, extraordinário o modo como resolveu este quebra-cabeça, embora fosse difícil. Se o próprio Buddha estivesse aqui, ele teria aprovado sua resposta.”

O Rei Milinda levantou-se, trocou cumprimentos educados e amistosos com Nágassena, sentou-se sobre um lado, respeitosamente, e começou por perguntar:

2. “Quantos Retiros da Estação Chuvosa tem o Venerável Nágassena?”

“Sete, Vossa Majestade.”

“Como pode dizer que é o seu sete; é o Venerável Ser o sete ou o número que é o sete?”

Então, Nágassena disse, “Sua sombra está no chão agora. o Grande Rei é o rei ou a sombra é o rei?”

“Eu sou o rei, Nágassena, mas a sombra passa a existir por minha causa.”

“Exatamente, Oh Grande Rei, o número de anos é sete, eu não sou o sete, mas é por minha causa que o número sete passa a existir e é meu o mesmo sentido, da mesma forma que é sua a sombra.”

“Maravilhoso, Nágassena, extraordinário. Muito bem foi este quebra-cabeça resolvido pelo Venerável Ser, embora difícil.”

3 – Então o rei perguntou, “Venerável Ser, vai discutir comigo novamente?”

“Se Vossa Majestade for discutir como um estudioso, sim; mas, se for discutir como um rei, não.”

“Como é então que um estudioso discute?”

“Quando estudiosos discutem há um acréscimo e um imbatível; um ou outro demonstra estar errado. Admite-se o erro, mas sem ficar com raiva.”

“Então, como é que os reis discutem?”

“Quando um rei discute uma questão e avança até um ponto de vista do qual alguém diverge, nesse ponto ele pune o oponente.”

“Muito bem então, é como um estudioso que eu vou discutir. O Venerável Ser pode falar sem medo.”

“Está bem, Vossa Majestade.”

“Venerável Nágassena, posso lhe fazer uma pergunta?”, disse o rei.

“Pergunte, Grande Rei.”

“Eu já perguntei.”

“Assim sendo, eu já respondi.”

“O que o Venerável respondeu?”

“O que o Grande Rei perguntou?”

Pensando, “Este monge é um grande estudioso, é bastante capaz de discutir comigo”, o rei instruiu seu ministro, Dêvamantiya a convidá-lo para vir ao palácio, em companhia de muitos monges e se retirou, murmurando: “Nágassena, Nágassena.”

4 – Então, Dêvamantiya, Anantakáya e Mankura foram ao hermitário de Nágassena para acompanhar os monges até o palácio. Enquanto caminhavam juntos, Anantakáya disse a Nágassena, “Quando, reverendo, eu digo “Nágassena” o que é Nágassena?”

“O que acha que é Nágassena?”

“A alma, a respiração interna, que entra e sai.”

“Mas, se a respiração ao sair não retornasse, o homem ainda estaria vivo?”

“Certamente que não.”

“E, quando os tocadores de trombeta sopram suas trombetas, o ar exalado volta para eles?”

“Não, Venerável Ser, não volta.”

“Então, por que eles não morrem?”

“Não sou capaz de discutir com o Venerável, por favor, diga-me como é isso.”

“Não há alma na respiração. As inalações e exalações são meras forças constituídas da moldura do corpo.” Então, o veterano explicou sobre o Abhidhamma e Anantakáya ficou satisfeito com a explicação.

5 – Então, depois que os monges chegaram ao palácio e terminaram a refeição, o rei se sentou num assento mais baixo que o dos monges e perguntou, “Sobre o que vamos discutir?”

“Que nossa discussão seja sobre o Dharma.”

Então o rei disse, “Qual o propósito, Venerável Ser, da vida monástica e qual o objetivo final que o Venerável busca?”

“A vida monástica tem por objetivo extinguir Dukha de modo que Dukha não mais surja; a completa extinção do apego sem que nada reste é nosso objetivo final.”

“É então, Venerável Ser, por esta razão nobre, que todos entram para a Ordem?”

“Não. Alguns entram para a Ordem para fugir da tirania dos reis, outros para se livrarem de ladrões, outros para escapar de dívidas e outros, talvez, para ter um sustento. Entretanto, os que entram corretamente, o fazem para a extinção total de Dukha.”

6 – O rei disse, “Há alguém que não renasça após a morte?”

“Sim, há. Aquele que não tem obstáculos não renasce após a morte; o que tem obstáculos, renasce.”

“O Venerável Ser vai renascer?”

“Se eu morrer com apego na mente, sim; mas se não tiver apego, não.”

7 – “Quem escapa do renascimento o faz pelo poder da razão?”

“Ele escapa tanto pela razão quanto pela Sabedoria, confiança, virtude, atenção plena, energia e concentração.”

“A razão é o mesmo que sabedoria?”

“Não. Os animais possuem razão, mas não têm sabedoria.”

8 – “O que, Venerável Nágassena, é o marco característico da razão; e o que é o marco da sabedoria?”

“Prender algo é o marco da razão, cortar as amarras é o da sabedoria.”

“Dê-me um exemplo.”

“Como os cortadores de feno cortam o feno?”

“Eles agarram o feno em um punhado com a mão esquerda e, com uma foice na mão direita, cortam o feno.”

“Exatamente assim, Oh Grande Rei, o recluso prende a mente com a razão e corta os obstáculos com sabedoria.”

9 – “O que, Venerável Nágassena, é o marco característico da virtude?”

“A manutenção, Oh Rei, porque ela é a base de todas as qualidades: as cinco faculdades controladoras (confiança, energia, atenção plena, concentração e sabedoria) também chamados de os cinco poderes morais, os sete fatores da Iluminação (atenção plena, investigação, energia, alegria de praticar, tranquilidade, concentração e equanimidade), os oito do Nobre Caminho (visão correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, meio de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta), as quatro fundações da atenção plena (atenção plena no corpo, nos sentimentos, nos pensamentos e nos objetos da mente), os quatro esforços corretos (esforço para prevenir e remover estados impuros, manter e desenvolver os estados puros da mente), as quatro bases do sucesso (vontade real, energia, tenacidade e sabedoria), as quatro absorções (os quatro estágios da meditação), , as oito liberdades (os oito estágios para libertar a mente pela concentração intensa), os quatro modos de concentração (meditação sobre o amor universal, compaixão, solidariedade e equanimidade) e as oito grandes conquistas (quatro Jhánas com forma e quatro sem forma). Cada uma destas virtuds tem como virtude a manutenção e quem sobre ela constrói todas essas fundações, essas condições não diminuem.”

“Dê-me um exemplo.”

“Assim como, Oh Rei, todas as formas de vida de animais e plantas têm na terra sua manutenção, do mesmo modo o recluso a tem na virtude, desenvolvendo as cinco faculdades controladoras e assim por diante. E, assim foi dito pelo Abençoado Buddha:

“Quando um sábio se estabelece bem na virtude,

Desenvolve concentração e entendimento,

Então, como um Bhikshu, ardente e sagaz,

É bem sucedido em se livrar dos obstáculos.”

10 – “Qual o marco característico da confiança?”

“A clarificação e a inspiração. Quanto mais brota na mente a confiança, mais rasga o véu dos cinco obstáculos e a mente se torna clara, serena e imperturbada; portanto, a confiança clareia. A inspiração é o marco quando o meditador, percebendo como as mentes dos outros foram libertadas, aspira a obtenção do que ainda não alcançou, a experiência do que ainda não sentiu e a realização do que ainda não entendeu. Porque assim disse o Buddha:

“Pela confiança ele atravessa a inundação,

Pela vigilância o mar da vida,

Pela persistência todo o lamento se acalma,

Pela Sabedoria se purifica.”

11 – “O que, Venerável Ser, é o marco característico da energia?”

“O reforço, Oh Rei, para que todas as boas qualidades não caiam e sumam.”

“Assim como, Oh Rei, quando seu exército se encontra derrotado por outro maior, o rei deve chamar todos os aliados possíveis para reforço de seu exército e derrotar o inimigo, também o reforço é o marco da energia. Sobre isto, disse o Abençoado Buddha:

“O nobre discípulo enérgico, Oh Monges,

Expulsa para longe as impurezas e cultiva as boas ações,

Elimina as ações recrimináveis e desenvolve as irrecrimináveis,

E assim, mantém ele a mente pura.”

12 – “O que, Venerável Nágassena, é o marco característico da Atenção Plena?”

“Observar e manter sob vigilância a mente. Quanto mais brota a Atenção Plena na mente do recluso, mais frequentemente ele observa suas ações puras e impuras, recrimináveis e irrecrimináveis, insignificantes e importantes, escuras e claras e aquelas que as façam pensar. “Estes são os quatro fundamentos da Atenção Plena, estes são os quatro esforços corretos, estas são as quatro bases do sucesso, estas são as quatro faculdades controladoras, estes são os cinco poderes morais, estes são os sete fatores da Iluminação, estes são os oito fatores do Caminho Nobre, esta é a serenidade, a percepção, a visão da liberdade.” Portanto ele cultiva estas qualidades que são desejáveis e afasta o que deve ser evitado.”

“Dê-me um exemplo.”

“É como o Tesoureiro Real que reporta ao seu mestre o tamanho do exército e a quantidade de valores de seu tesouro.”

“Como é o controle mental um marco da Atenção Plena?”

“Quanto mais a Atenção Plena brota na mente, mais o praticante busca as categorias de boas qualidades e seus opostos, pensando, “tais e tais qualidades são benéficas e estas são danosas”. Então, o praticante faz desaparecer o que é impuro e mantém o que é bom.”

“Dê-me um exemplo.”

“É como o Primeiro Ministro do Rei, que o aconselha sobre o desenvolvimento correto das ações. E isto é o que foi dito pelo Abençoado:

“A Atenção Plena, eu declaro, Oh Monges, é uma grande ajuda em toda parte.”

13 – “O que, Nágassena, é o marco característico da concentração?”

Liderança, Oh Rei, porque todas as boas qualidades têm a concentração como chefe; elas se voltam para a liderança, caminham direto para ela.”


Dê-me um exemplo.”


Assim como todas as vigas de um telhado se inclinam e se voltam para a viga central, que é o ponto mais alto do telhado. Assim, também as boas qualidades se inclinam e se dirigem para a concentração. E isto é o que foi dito pelo Abençoado:


Monges, desenvolvam a concentração, um monge que é concentrado vê as coisas como elas realmente são.”

14 – “O que, Venerável Nágassena, é o marco característico da Sabedoria?”

Iluminar, Oh Rei. Quando a Sabedoria brota na mente, dissipa a escuridão da ignorância, faz com que surja a radiância da visão, mas a luz do conhecimento brilhar mais longe e torna plenas as nobres verdades. Portanto, o meditador percebe com a maior das sabedorias a impermanência, insatisfação e ausência de alma em todas as formações.”


Dê-me um exemplo.”


É como uma lâmpada, Oh Rei, que na escuridão de um quarto pode iluminá-lo e fazer com que seus objetos sejam plenamente visíveis.”

15 – “Estas qualidades, que são tão diferentes, Venerável Nágassena, todas trazem um único mesmo resultado?”

Sim, trazem. A destruição dos obstáculos da mente, assim como as várias tropas de um único exército, como elefantes, cavalaria, carruagens de guerra e arqueiros todos trazem um único resultado – a conquista do exército oponente.”


Muito bem colocado, Venerável Nágassena, o Venerável é inteligente  ao responder.”