CAPÍTULO 2

RENASCIMENTO

1 – “Quem renasce, Venerável Nágassena, é a mesma pessoa ou outra?”
“Nem a mesma, nem outra.”
“Dê-me um exemplo.”
“No caso de um pote de leite que se transforma em coalhada, então em leite, então em ghí (manteiga clarificada indiana); não seria correto dizer que o ghi, manteiga, coalhada são o mesmo leite, mas, vieram dele, então, também não seria correto dizer que são outra coisa.”
2. “O homem que não vai renascer, está ciente deste fato?”
“Sim, Oh Rei.”
“Como ele sabe disto?”
“Pela cessação de todas as causas e condições para o renascimento. Assim como um fazendeiro que não ara, nem semeia nem ceifa sabe que seu celeiro não vai estar cheio.”
3. “Venerável Nágassena, em alguém onde o conhecimento (ñána) surge, também a Sabedoria (pañña) surge?”
“Sim, Oh Rei.”
“Conhecimento e Sabedoria são a mesma coisa?”
“Sim, Oh Rei.”
“Então, ele com sua Sabedoria e conhecimento ainda poderia ser ignorante sobre alguma coisa?”
“Ele poderia ainda ser ignorante sobre coisas que ainda não aprendeu, mas, no que se refere ao que já atingiu com sabedoria – que é a percepção da impermanência, insatisfação e inexistência da alma – não mais seria ignorante.
“Então, ele acabaria com a ilusão sobre esses pontos?”
“A partir do momento que o conhecimento surge, a ilusão se dissipa. Assim como a luz, ao chegar, faz a escuridão desaparecer.”
“Mas, então, o que se torna sua Sabedoria?”
“Quando a Sabedoria cumpre sua função, também desaparece; mas seu entendimento sobre a impermanência, insatisfação e inexistência da alma não desaparecem.”
“Dê-me um exemplo.”
“Assim como um homem que quer escrever uma carta à noite tem que acender uma lâmpada e mantê-la acesa enquanto escreve a carta, após terminar, ele apaga a lâmpada, mas a carta permanece escrita.”
“Aquele que não mais vai renascer pode sentir algum tipo de dor física?”
“Ele pode sentir dor física, Oh Rei, mas não mais sente dor mental.”
“Se pode sentir dor, então, por que simplesmente não morre e obtém a extinção do apego e põe fim a Dukha?
“O Arhat (Arahant) não tem vontades nem aversão sobre sua vida. Ele não sacode a árvore para que caia o fruto ainda não maduro, mas aguarda até que ele amadureça. Sobre isso falou o Venerável Shariputra, o discípulo chefe da Sangha do Buddha:
“Não é a morte nem a vida que eu valorizo.
Assim como o trabalhador contratado por hora
conta seu pagamento,
eu conto meu tempo.
Não é a vida nem a morte que eu busco,
Com Atenção Plena e compreensão clara,
Vejo o tempo passar.”

“É um sentimento impuro, puro ou neutro?”
“Pode ser qualquer um dos três.”
“Mas, certamente, Venerável Ser, se condições impuras não são dolorosas e as dolorosas não são puras, então, não pode haver condições impuras que sejam ao mesmo tempo dolorosas.”
“O que pensa, Oh Rei? Se um homem segura em uma das mãos uma bola de ferro quente e na outra mão uma boa de gelo, ambas não o queimariam?”
“Certamente queimariam.”
“Então, sua hipótese tem que estar errada. Se não são ambas quentes mas queimam e são não são ambas geladas mas, ainda assim ambas queimam, então, a dor não vem do calor nem do frio.”
“Não sou capaz de argumentar com o Venerável. Por favor, explique a questão.”
Então, o Venerável explicou o Abhidhamma ao Rei:
“Há seis prazeres conectados com o mundo e seis com a renúncia, seis tristezas mundanas e seis da renúncia, e seis sentimentos neutros em cada caso, compondo trinta e seis. Então, há trinta e dois sentimentos no passado, presente e futuro que, juntos são cento e oito sentimentos.”
“O que é que renasce, Venerável Nágassena?”
“Mente e matéria.”
“É a mesma mente e matéria que renasce?”
“Não, não é, mas a mente e a matéria praticam atos e, por causa dos feitos por elas praticados, outra mente e matéria renascem; mas a mente e a matéria não são liberadas como resultado das ações previamente praticadas.”
“Dê-me um exemplo.”
“É como um fogo que um homem acendeu e, depois de se aquecer, o deixou queimando e foi embora. Então, se o fogo se expandiu e incendiou o campo de outro homem, que prendeu o homem que se aqueceu com o fogo e o levou até o Rei, para ser julgado. “Vossa Majestade, eu não pus fogo no campo deste fazendeiro. Apenas deixei o fogo aceso, o que é diferente de incendiar o campo. Não sou culpado.” Ele merece punição?
“Certamente que sim, porque, não importa o que diga, o fogo causou o incêndio no campo do fazendeiro.”
“Justamente, Oh Rei, pelos atos praticados por sua mente e matéria, outra mente e matéria surgiram; mas aquela mente e matéria não foi liberada por causa dos resultados das ações prévias.”
7- “O Venerável Nágassena vai renascer?”
“Que utilidade tem repetir esta pergunta? Já não foi dito ao Grande Rei que se eu morrer com apego em minha mente vou renascer, caso contrário, não vou?”
8 – “O Venerável Nágassena estava explicando sobre a mente e a matéria, assim sendo, o que é mente e o que é matéria?”
“O que quer que seja bruto e grosseiro, é matéria, tudo o que é sutil e formações mentais, é a mente.”
“Por que não nascem separadamente?”
“Estas condições se comparam à gema do ovo e sua casca, sempre surgem juntas e assim vem acontecendo desde tempos incontáveis.”
9 – “Venerável Nágassena, quando o Venerável diz – “tempos incontáveis”, o que quer dizer? Existe tal coisa?”
“Tempo significa passado, presente e futuro. Há aqueles para os quais o tempo existe, para outros, não. Onde há seres que vão renascer, então o tempo existe; onde há seres que não mais vão renascer, para estes o tempo não existe.”
“Bem exposto. O Venerável Nágassena é inteligente nas respostas.”