A todos, Namaste!

Um monge buddhista da Tradição Theravada deve seguir os 227 Preceitos Monásticos, estabelecidos pelo Buddha ao longo de seu período de 45 anos como Orientador da Sangha (Comunidade Monástica Buddhista). A primeira vista, pode parecer um número muito alto, especialmente numa cultura como a nossa, onde DISCIPLINA está muito longe de ser parte da vida do povo brasileiro… Então, por que tantos Preceitos e qual a importância deles na vida de um monge? É isto que vamos ver nesta matéria.

Antes de falarmos especificamente da Sangha, devo lembrar a todos que mesmo antes do Buddha, já havia na época dezenas de seitas, com vários tipos de monges. Eram identificados pelo tipo de cabelo, tipo de manto, tipos diferentes de prática, modo de andar etc. portanto, quando o Buddha criou sua Comunidade Monástica, ele pensou em algo que fosse diferente e superior ao que já existia, algo inovador que destaca-se seus monges do que já era comum na Sociedade da época.

Antes de optar pela vida monástica, Siddhartth Gáutam foi um príncipe – nascido, criado e educado num palácio, onde recebeu a melhor educação disponível na época, com hábitos refinados, aulas de etiqueta e convívio entre pessoas da alta sociedade. Obviamente isto influiu diretamente nas regras criadas por ele para o comportamento de seus seguidores, afinal, o que vem de berço a gente nunca esquece ou abandona. Assim, os Preceitos Monásticos, chamados de PRATIMÔKSHA, foram baseados no melhor da educação daquele tempo e, quando observados hoje em dia, a maioria deles continuam sendo usados nos melhores livros de etiqueta, sem que as pessoas tenham idéia de que são Preceitos de um monge buddhista!

Preceitos são um TREINAMENTO DE ATENÇÃO PLENA. O objetivo é que o monge ou monja, ao praticá-los, cultive a Purificação Mental através da Atenção Plena, do freiar constante dos devaneios e divagações da mente. Com este objetivo em mente, o Buddha criou regras que fazem com que nós monges, O TEMPO TODO estejamos atentos ao nosso comportamento, evitando assim que nos desviemos do Caminho. Numa Sociedade tão diversificada, populosa e complexa, alguns Preceitos que parecem estranhos e sem sentido, tinham uma boa razão para existir: NÃO TRANSMITIR ENSINAMENTOS PARA ALGUÉM QUE ESTEJA USANDO UM TURBANTE (!?!?). Numa época em que as pessoas se vestiam com panos e túnicas sem bolso, muitas vezes era no turbante que elas escondiam facas e outras armas… Assim, se por acaso se irritassem ou se ofendessem ao discordar de um Ensinamento, poderiam atacar o monge ou monja. Visando a segurança física da Comunidade Monástica, o Buddha estabeleceu esse Preceito… Outra regra com a mesma razão diz  a nós monges para NÃO TRANSMITIR ENSINAMENTOS A ALGUÉM CARREGANDO UM CAJADO OU VARA. Assim, temos a certeza de que não seremos agredidos fisicamente, com pauladas. Algumas regras do PRATIMÔKSHA, hoje consideradas como básicas e simples hábitos de educação, como, por exemplo, NÃO MASTIGAR DE BOCA ABERTA ou NÃO ENFIAR OS CINCO DEDOS NA BOCA PARA COMER, não eram reconhecidas como educadas na época do Buddha e somente os nobres respeitavam tais regras de etiqueta, enquanto que a maioria da população não tinha noção de higiene e educação.

Outros hábitos simples que não eram usados mas foram implantados pelo Buddha através de Preceitos também são válidos até hoje como, por exemplo: APÓS PEGAR PARA USO  UMA CAMA OU CADEIRA, O MONGE TEM QUE COLOCÁ-LA DE VOLTA NO LUGAR DE ONDE A TIROU.  Algo que parece muito simples, mas, será que todas as pessoas fazem isso quando se hospedam na casa de alguém, ou saem por aí, bagunçando tudo e dando trabalho a quem as hospeda?

Querem mais? Que tal este: MONGES E MONJAS NÃO DEVEM PARAR PARA CONVERSAR EM LOCAIS QUE ATRAPALHEM A CIRCULAÇÃO DAS PESSOAS. Nada mais civilizado e atual que isto, não acham? E este? – MONGES E MONJAS NÃO DEVEM PERAMBULAR PELA ALDEIA NO HORÁRIO EM QUE AS PESSOAS ESTÃO DORMINDO…

Todos estes e muito mais Preceitos, quando observados pela Sangha, a tornaram um diferencial numa época em que os hábitos de educação e civilidade eram praticamente desconhecidos. Com isto, enquanto que a maioria dos monges eram mal-educados, inconvenientes ou, na melhor das hipóteses iguais às pessoas comuns, os monges do Buddha eram silenciosos, educados, não incomodavam a ninguém e, portanto, sempre bemvindos aonde quer que fossem, porque chamavam a atenção, se destacavam pelo alto nível de comportamento.

Como se não bastasse o bom comportamento em público, com tanta civilidade, os seguidores do Buddha tinham por obrigação os mesmos Preceitos que até hoje nós monges temos: NÃO TIRAR A VIDA DE NENHUM SER VIVO, NÃO PEGAR O QUE NÃO NOS FOI DADO, NÃO PRATICAR SEXO, NÃO FAZER MAL USO DAS PALAVRAS e  NÃO USAR SUBSTÂNCIAS QUE ALTEREM O ESTADO PURO E NATURAL DA MENTE, Preceitos compartilhados com os LEIGOS BUDDHISTAS até hoje.

Com tantas regras a serem seguidas, nós da Sangha do Buddha estamos constantemente atentos à prática do Cultivo Mental e, ao mesmo tempo, não perturbamos as pessoas em lugar algum por onde passamos. Constantemente atentos aos Preceitos, sempre sabemos como nos comportar, o que nos garante hospitalidade, doações, simpatia e admiração em qualquer lugar do mundo por onde passemos. Se visto por este aspecto, embora o número 227 pareça alto, nada mais é que a garantia de sobrevivência de uma Comunidade Monástica que continua crescendo há quase 3.000 anos!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ