CAPÍTULO 3

O INÍCIO DO TEMPO

1 – “Qual a raíz, Venerável Nágassena, do tempo passado, presente e futuro?”
“A ignorância. Pela ignorância as formações são condicionadas; pelas formações, religamos a consciência; pela consciência, a mente e a matéria; pela mente e a matéria, as seis bases dos sentidos; pelas seis bases dos sentidos, o contato; pelo contato, sentimento; pelo sentimento, a cobiça; pela cobiça, o apego, o existir; pelo existir, nascimento; pelo nascimento se condicionam o envelhecer, morte, luto, lamentações, dor, sofrimento e desespero.”
2 – “O Venerável diz que o início de todas as coisas não é aparente. Dê-me um exemplo.”
“O Abençoado disse: “Por causa das bases dos sentidos e dos objetos dos sentidos, surge o contato; por causa do contato, sentimento; por causa do sentimento, cobiça; e por causa da cobiça, a ação (karma). Então, da ação, as bases dos sentidos são novamente produzidas.” Agora, poderia haver qualquer fim para essa sequência?”
“Não.”
“Exatamente, Oh Rei, o início de todas as coisas não pode ser compreendido.”
3 – “É o início de todas as coisas conhecido?”
“Parcialmente sim, parcialmente não.”
“Qualquer condição precedente ao nascimento, é para nós como se não tivesse existido. No que se refere a isto, o início das coisas é desconhecido. Entretanto, o que não existia passa a ser existente, assim que surge, desaparece novamente. Com referência a estes, o início pode ser conhecido.”
4 – “Há formações que são produzidas?”
“Certamente, Oh Rei. Onde quer que haja um olho e formas, há visão; onde há visão, há contato; onde há contato, há sentimento; onde há sentimento, há cobiça; onde há cobiça há apego; onde há apego, há existência; onde há existência, há nascimento; onde há nascimento há envelhecimento, morte, luto, lamentação, tristeza e desespero.”
5 – “Há formações que não foram produzidas?”
“Não há, Oh Rei, porque somente pelo processo de passar a existir elas são produzidas.”
“Dê-me um exemplo.”
“Esta casa onde o Grande Rei está sentado, foi produzida pelo processo de passar a ser?”
“Nada há aqui que não tenha sido. Esta madeira estava na floresta e o barro estava no solo e foi graças ao esforço de homens e mulheres que a casa passou a existir.”
“Exatamente assim, Oh Rei, não há formações que não tenham sido produzidas.”
6 – “Há, Venerável Nágassena, algo como “Aquele que sabe”? (Vêdagú)
“O que é isso?”
“O princípio interno vivente que vê, ouve, saboreia, cheira, sente e discerne as coisas; assim como nós, aqui sentados, podemos olhar através de qualquer janela que desejarmos.”
“Se, Oh Rei, o princípio vivente pode ver, ouvir, saborear, cheirar, sentir coisas como o Grande Rei disse, não poderia ele ver coisas através do ouvido e assim por diante?”
“Não, Venerável Ser.”
“Então, Oh Rei, o princípio vivente não pode fazer uso de qualquer dos sentidos como desejar, do modo que o Grande Rei sugeriu. É, Oh Rei, através do olho e das formas que a visão e as outras condições surgem, a saber: contato, sentimento, percepção, intenção, foco, vitalidade e atenção. Cada uma surge simultaneamente com suas causas e somente aqui “Aquele que sabe” pode ser encontrado.”
7 – “A consciência da mente surge onde quer que a consciência do olho surja?”
“Sim, Oh Rei, onde uma está, a outra também está.”
“Qual surge primeiro?”
“Primeiro a consciência do olho, então a da mente.”
“A consciência do olho envia um comando para a consciência da mente ou vice-versa?”
“Não. Não há comunicação entre elas.”
“Então, por que, Venerável Nágassena, a consciência da mente surge onde há consciência do olho?”
“Porque, Oh Rei, há a tendência, a abertura, um hábito e uma associação.”
“Dê-me um exemplo.”
“Se a cidade fronteiriça de um rei tivesse uma forte muralha e apenas um único portão e um homem quisesse deixar a cidade, por onde ele sairia?”
“Através do portão.”
“E se outro homem saísse da cidade, por que caminho sairia?”
“Pelo mesmo caminho.”
“Mas, o primeiro homem enviou algum comando para o segundo dizendo: “Vá pelo mesmo caminho que eu”, ou o segundo homem mandou uma mensagem para o primeiro dizendo: “Vou pelo mesmo caminho que você.”?
“Não, Venerável Ser, não houve comunicação entre eles.”
“Da mesma forma, a consciência da mente surge onde há consciência do olho, mas não há comunicação entre elas.”
8 – “Onde há consciência da mente, Venerável Nágassena, sempre há contato e sentimento?”
“Sim, onde há consciência da mente há contato e sentimento. E também percepção, intenção, aplicação inicial e aplicação sustentada.”
“O que é o marco característico do contato?”
“O toque.”
“Dê-me um exemplo.”
“Quando dois címbalos se tocam; o olho é como um címbalo e o objeto é o outro e o som produzido é o contato.”
9 – O que é o marco característico do sentimento?”
“O ser experimentado, Oh Rei, e apreciado.”
“Dê-me um exemplo.”
“Como quando um homem que tem estado a serviço do rei e lhe foi dado um posto de oficial, depois ele aprecia os benefícios de ocupar tal posição.”
10 – “O que é o marco característico da percepção?”
“O reconhecimento, Oh Rei, do azul, do amarelo ou vermelho.”
“Dê-me um exemplo.”
“É como o Tesoureiro Real que reconhece os bens do rei ao ver suas cores e formas.”
11 – “O que é o marco característico da intenção?”
“Arquitetar, Oh Rei, e preparar.”
“Dê-me um exemplo.”
“Como quando um homem que, após preparar um veneno, o bebe e sente dor, da mesma forma, alguém que arquitetou uma má ação, após praticá-la vai sofrer no inferno.”
12 – “O que é o marco característico da consciência?”
“O saber, Oh Rei.”
“Dê-me um exemplo.”
“Assim como um vigia na praça da cidade saberia quando alguém se aproximasse, não importa de que direção venha; assim, quando um homem vê um objeto, ouve um som, sente um odor, testa um sabor, sente um toque ou sabe uma idéia; é através da consciência que ele sabe isso.”
13 – “O que é o marco característico da aplicação inicial?”
“Fixação, Oh Rei.”
“Dê-me um exemplo.”
“Assim como um carpinteiro fixa e corta acuradamente as peças de madeira, também se fixa a aplicação inicial.”
14 – “O que é o marco característico da aplicação sustentada?”
“Examinar mais e mais uma vez.”
“Dê-me um exemplo.”
“Como a batida de um gongo é a aplicação inicial; como a reverberação é a aplicação sustentada.”
15 – “É possível separar estas condições; dizendo “Este contato, este sentimento, esta percepção, esta intenção, esta consciência, esta aplicação inicial e esta aplicação sustentada?”
“Não, Oh Grande Rei, isto não pode ser feito. Se alguém fosse prepara uma sopa, contendo coalhada, sal, gengibre, sementes de cominho e pimenta, não poderia tirar o sabor da coalhada e mostrá-lo dizendo, “Este é o sabor da coalhada” ou retirar o sabor do sal e dizer, “Este é o sabor do sal”, ainda assim, cada sabor seria distintamente presente por seu sinal característico.”
16 – Então o Venerável disse, “O sal, Oh Rei, é reconhecido pelo olho?”
“Sim, Oh Reverendo, ele é.”
“Cuidado, Oh Rei, com o que diz.”
“Então, é reconhecido pela língua.”
“Sim. Está certo.”
“Mas, Venerável Nágassena, é somente pela língua que cada tipo de sal é reconhecido?”
“Sim, todos os tipos.”
“Então, por que são trazidos vários carregamentos dele?”
“É impossível trazer o sal por si só. Por exemplo, o sal tem uma massa, mas é impossível pesar sal, podemos pesar somente a massa.”
“O Venerável Nágassena é hábil na argumentação.”