A todos, Namaste!

Meus primeiros meses na Tailândia como monge Theravada, vindo de Taiwan, foram num templo da severa Tradição da Floresta. Lá, no nordeste do país, prosperam os mais puros templos de meditação e as regras são bem rígidas: levantar às 3 da manhã, estar pronto para a Recitação às 03:30, sair para a ronda de buscar alimento bem cedo, caminhar muito e fazer as refeições em absoluto silêncio, usando SOMENTE A TIGELA DE MENDIGAR ALIMENTO nas refeições. Após o meio-dia, nada mais é ingerido e só vamos comer novamente no dia seguinte… Como moradia, apenas uma pequena cabana de madeira, onde os mosquitos começam a função de devorar você logo que escurece. Para completar, nada de luz elétrica, muitas cobras e lagartos por toda parte e uma pequena cabine de banheiro, muito mais afastada da cabana do que se poderia desejar! A mais típica e original vida de MONGE DA FLORESTA!

Quando decidi me mudar para Bangkok, fui procurar um amigo que foi meu colega de sala em Taiwan, onde aprendemos chinês. Eu ainda não falava quase nada de Tailandês e o Venerável Mahá Somjêt não sabia uma única palavra de Inglês, assim, o Mandarim era nossa única forma de comunicação…

Passei as primeiras semanas me acostumando à vida na capital tailandesa. Logo aprendi a rota certa para mendigar alimento todos os dias e, como cidade grande, não faltava quem doasse comida. Me acostumei também a dormir no chão frio, sem cama nem colchão, usando o braço como travesseiro e o manto como lençol… Aos poucos minha vida foi se tornando rotineira e tranquila. Foi então que recebi uma ligação do antigo templo de floresta. Os monges haviam sido convidados para uma grande oferenda de comida, uma refeição num restaurante muito chique, do outro lado da cidade de Bangkok, especializado em frutos do mar.

Era uma grande honraria que tivessem se lembrado de mim e me incluído na oferenda de almoço! Fiquei bastante animado e, ao mesmo tempo, uma certa ansiedade cresceu em mim. Como já havia se passado algum tempo que eu estava na capital, também estava feliz pela oportunidade de ver os antigos amigos, embora mal pudesse falar com eles, por causa do meu vocabulário tão restrito no idioma local.

Meu anfitrião havia me dito que não estaria em Bangkok na semana da oferenda, porque ia visitar a família, no leste do país, mas eu poderia ficar à vontade, como se o quarto fosse meu. Aproveitei a presença dele para pedir detalhes de como me comportar e não fazer feio numa ocasião tão especial, mesmo que não fosse a primeira vez que eu participaria desse tipo de ritual.

Me lembro bem que comentei sobre a necessidade de levar minha tigela de mendigar alimentos. Meu amigo riu muito de mim! Disse que eu estava em Bangkok e não devia me comportar como um monge interiorano, um “caipira”. Eu insisti, afirmando que todos eram estritamente da Tradição da Floresta e que achava que devia levar a tigela. O Ven. Mahá Somjêt disse que a oferenda era num restaurante fino e tradicional, então, era óbvio que eles usariam pratos e talheres para a refeição!

No dia marcado, meu amigo já não estava em Bangkok. Era um dia ensolarado e extremamente quente, típico do verão tropical da Tailândia. Para evitar imprevistos e os tradicionais engarrafamentos de Bangkok, saí bem cedo, de táxi, para encontrar o restaurante, numa área da cidade onde eu ainda não tinha ido. Tomei cuidado de levar num papelzinho o nome da rua e do restaurante, escritos em Tailandês, para ter certeza de chegar lá!

Fui muito bem recebido pela proprietária, que me fez sentar numa confortável sala com ar condicionado e me serviu um copo d´água. De uma grande janela de vidro, podia-se ver a rua e, assim, logo reconheci a van que trazia meus companheiros “Da Floresta”. Antes mesmo de desembarcarem, o leigo Atendente Pessoal do Abade abriu a porta traseira e, para meu desespero, começou a descarregar as TIGELAS DE MENDIGAR ALIMENTO!

Eu só senti um frio imenso tomar conta de meu corpo! Me apressei em ir na direção do carro e, sem nem prestar respeito aos monges, fui logo falando com o atendente, o único que conseguia falar inglês! Expliquei a situação constrangedora e pedi ajuda urgente… Ele traduziu o que estava acontecendo para os monges, rapidamente tirou bastante dinheiro do bolso e deu a um motorista de táxi, com instruções de me levar até o Wat Duang Khea, onde eu morava, aguardar por mim e me trazer de volta ao restaurante, o mais rapido possível!

Cada segundo do trajeto parecia uma hora! O trânsito lento da cidade que vive engarrafada parecia ainda pior que de costume… Quando finalmente cheguei ao quarto, outro imprevisto: eu bati a porta com a chave do lado de dentro!!! Tentei forçar a fechadura, mas foi inútil… A única cópia da chave estava fora da cidade, com o Venerável Mahá Somjêt! Lá embaixo, o táxi me aguardava… No restaurante, a oferenda de refeição tinha que começar e eu não poderia deixar de ir, nem me atrazar!

Com muito medo, resolvi ir pelo lado de fora e entrar pela janela da varanda, andando pela beira da fachada do prédio, numa altura de terceiro andar. Para complicar, a varanda era cheia de plantas altas, em grandes vasos. Meu manto ficou preso nos galhos, mas consegui me livrar!

Peguei rapidamente a tigela, não me esqueci da chave e o mais rápido que pude, voltei para o táxi! O trânsito, no horário de almoço, estava ainda mais engarrafado e meu nervosismo muito maior. Quando, finalmente, cheguei ao restaurante, encontrei o salão lotado de leigos sentados no chão e, sentados lado a lado, o Abade e todos os monges, superiores a mim, aguardando minha chegada! Pude ver que alguns me olharam e, rindo baixinho cochicharam alguma coisa – não é preciso ser vidente para saber o que diziam…

Terminada a oferenda, fui fazer prostrações aos pés do Abade e pedir perdão por minha falta. Com a ajuda do Atendente como tradutor, ele me disse uma única coisa: “Prometa que nunca mais vai esquecer sua tigela…” Promessa feita, ele só sorriu e tocou minha cabeça, como os pais fazem com os filhos no Reino da Tailândia.

Certamente uma lição para iniciante da qual nunca mais vou me esquecer! Um “mico monástico” para ser guardado para o resto da vida! Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHO BHIKSHU