A todos, Namaste!

A vida num templo buddhista pode variar significativamente, dependendo da Tradição que o monge ou monja sigam, do país onde fica o templo, da localização – floresta ou cidade, do número de monges residentes ou até mesmo da mentalidade do Abade ou Abadessa que dirige o templo. Portanto, não há uma regra fixa de rotina ou comportamento que possamos determinar. Assim, esta matéria visa dar uma noção geral, baseada nos templos onde eu vivi, tanto de Tradição Mahayana no Budismo Chinês – principalmente em Taiwan, mas também em Hong Kong, quanto os Templos Theravada de Tradição da Floresta e da cidade, na Tailândia, Laos e Malásia. Hoje, escreverei apenas sobre o Treinamento Monástico num Templo do Budismo Chinês.

Minha primeira vivência foi no Yuan Guan Buddhist Institute, na cidade de Zhong Li – Taiwan. Tipicamente chinês, bastante tradicionalista e voltado para o treinamento de monges de várias Tradições e diferentes nacionalidades – eu fui O PRIMEIRO OCIDENTAL A ESTUDAR LÁ, o Yuan Guan (significa “círculo de luz”) faz questão de disciplinar a vida monástica, moldando os alunos dentro da mentalidade chinesa, em todos os detalhes. Começam por mudar os nomes monásticos de cada aluno, escolhendo nomes chineses. Também os mantos Theravada ou Tibetanos são imediatamente substituidos pelos mantos do Buddhismo Chinês e só eles são aceitos.

No instituto Yuan Guan todos os alunos são divididos em 5 ou 6 grupos que devem ficar encarregados, em sistema de rodízio, de realizar várias tarefas – faxina, jardinagem, cuidados com o Salão do Altar, limpeza dos banheiros e das salas de aula e até descarregar caminhões de mantimentos e derrubar árvores… Há monges e monjas, em duas alas separadas, que fazem basicamente as mesmas atividades, mas em horários diferentes, de forma que quase não nos encontremos!

O horário de despertar é às 04:00h. da madrugada, quando um dos membros do grupo encarregado de acordar a todos faz um ritual de andar em torno do Salão do Altar, batendo duas tábuas, numa cadência certa e número de toques invariavelmente iguais. Ao mesmo tempo, os outros membros se apressam em arrumar o salão, acender incenso e tocar o enorme sino, anunciando que todos devem se apressar para o Ritual da Manhã.

Pular da cama no inverno de Taiwan, àquela hora da madrugada, com a temperatura em torno dos 4 graus e os constantes tufões que trazem chuva fina durante dias e noites sem parar, não é uma tarefa fácil. Para estar no Salão do Altar pontualmente às 04:30, o tempo é curto – se vestir, lavar o rosto com água gelada, escovar os dentes e, debaixo de chuva, correr para não perder a hora. O Ritual da Manhã é obrigatório, os lugares são marcados por hierarquia (tempo de manto) – os monges veteranos ocupam as primeiras fileiras, os com menos tempo de ordenação monástica ficam no meio e os novatos e ainda noviços ficam mais para trás. Com isso, o Supervisor sabe exatamente quem está presente e quem não conseguiu, por alguma razão, estar presente.

Ausências por não acordar a tempo ou doença não justificada significam punição – dois ou três dias de joelhos num canto do Salão do Altar, destacado do grupo. O Ritual dura de 45 minutos a uma hora, caso haja alguma comemoração especial na data, é todo cantado em chinês, utilizando instrumentos tradicionais – um grande tambor, o sino enorme, pequenos sininhos e outros instrumentos que nós monges aprendemos a tocar em aulas específicas de instrumentos ritualísticos. Também aprendemos a marcação certa de quando ficar de pé, quando ajoelhar e quando fazer as inúmeras prostrações, com a testa no chão.

Após o Ritual da Manhã, há um tempo curto para a troca de manto – tiramos o manto ritualístico e vestimos o manto de trabalho e exercício. Temos um tempo curto para varrer o pátio e arrumar um pouco a área em torno dos dormitórios etc. Em seguida, nos reunimos, entrando em fila no pátio principal do templo. Nos preparamos para uma corrida, fora do templo, pela estrada. São quase oitenta monges, correndo pela rua, em volta da área total do Instituto. Ao regressarmos, entramos em formação, também com posições marcadas, para exercícios de QI GONG (“Tchi Kung”), alongamento energético chinês que, segundo eles, é muito saudável e deve ser praticado diariamente… Já são quase 06:00 da manhã quando temos que voltar aos dormitórios para, mais uma vez, trocar de manto! Tiramos o manto de exercício e vestimos o manto de gala, usado para rituais, refeições e também para assistir aula.

Em frente ao refeitório, uma das monjas encarregadas da cozinha bate com um martelo num peixe de madeira, pendurado do lado de fora, avisando o horário da Refeição da Manhã. É hora de corrermos para entrar em fila, também com lugar marcado, e, perfilados, aguardarmos a passagem do Abade do Templo. Imóveis em posição de sentido, vamos, um a um nos curvando em reverência à passagem dele.

Depois, ainda em fila, vamos ocupando os lugares marcados nas longas mesas do refeitório, onde o grupo responsável naquela semana, já arrumou as tigelas, talheres e guardanapos. Se vocês imaginam uma Refeição da Manhã com pão e café, ou talvez um chá chinês, estão totalmente enganados! Na Ásia não há diferenciação entre o café da manhã e as demais refeições do dia, ou seja, você tem que se acostumar a comer comidas como macarrão apimentado, sopa e legumes de manhã. Além disso, o Budismo Chinês é RIGOROSAMENTE VEGETARIANO, portanto, a dieta além de não ter carne, também não usa cebola nem alho (considerados afrodisíacos na tradição chinesa) e é quase sem sal….

Após uma longa Recitação em chinês, começamos a Refeição da Manhã, em silêncio absoluto. À medida que terminamos, aguardamos pacientemente pela Recitação Finall e, só então, um a um, vamos deixando a mesa para lavarmos as tigelas e talheres, num tanque do lado de fora do refeitório. É hora de nos prepararmos para limpar o templo, banheiros, salas de aula etc. Cada grupo sabe exatamente qual o local de trabalho durante a semana. Mas, para isso, temos que correr até o dormitório e trocar de manto, vestindo os mantos de trabalho…

Com tudo limpo, é hora de que??? Voltar ao dormitório e vestir novamente o manto de gala, para assistirmos aula! As aulas de chinês duram o resto da manhã e só são interrompidas na hora do almoço, quando novamente ouvimos as batidas no peixe de madeira e repetimos o mesmo ritual da Refeição da Manhã, exatamente igual!

Após o almoço, temos pouco tempo para nos reunirmos do lado de fora do Salão do Altar para, em fila e silêncio absoluto, praticarmos Meditação Andando por cerca de 20 minutos. A ausência não justificada é logo notada pelo Supervisor e também passível de punição…

Terminada a Meditação Andando, é a hora do repouso. De meio-dia até as 14:00h. todos os monges devem dormir e descansar. Mesmo os que não estiverem com sono, devem permanecer em silêncio, lendo nas salas de aula ou passeando nos jardins, sem perturbar o sono dos demais. Às 14:00h. toca o sino de despertar. Hora de vestir o manto de gala e se apressar para voltar às salas de aula, para nova rodada de aulas de chinês!

Às 16:30 se encerram as aulas do dia. Novamente corremos para os dormitórios, vestimos os mantos de trabalho e vamos fazer as atividades determinadas para cada grupo – limpar, varrer, cuidar do jardim, limpar o Salão do Altar etc. etc. O Supervisor, sempre atento, percorre todas as áreas do templo, fiscalizando nosso trabalho e punindo os ausentes ou negligentes…

Quando terminamos as funções, chega a hora de tomar banho. Os chuveiros, mesmo no inverno, só têm água FRIA. Quem quiser tomar banho quente, tem que entrar na fila da torneira quente, encher um balde plástico, levar para o banheiro e, usando uma tigela ou cuia, tomar banho jogando água sobre o corpo… Sair do banho e atravessar o pátio interno, com chuva fina e tufão, não é  exatamente agradável…

O jantar é opcional e a comida bem simples. Assim, não há lugar marcado nem formalidades de entrar em formação antes de entrar no refeitório. Cada um pode se servir e comer o quanto quiser, bastando lavar a tigela e deixá-la no lugar certo para que seja encontrada na manhã seguinte. Após um tempo de descanso, chega a hora da reunião na sala de aula principal. Desta vez (pasmem!) não há necessidade de trocar de manto….rsrsr Nos sentamos todos, em silêncio ou conversando baixinho, para os deveres de casa (ou TEMA, para meus seguidores gaúchos…) e temos uma hora e meia antes de nos prepararmos para o Ritual da Noite. Desta vez, basta vestir um manto preto, usado exclusivamente para rituais, sobre o manto de trabalho…

O Ritual da Noite é um pouco diferente do Ritual da Manhã, mas demora mais ou menos o mesmo tempo – cerca de 45 minutos e a presença de todos é obrigatória. Em seguida, vamos todos para o pátio principal, onde fazemos um estranho exercício de marcha acelerada. É uma das poucas atividades que as monjas participam junto conosco. A tal marcha termina com um “ato solene” de reverência ao Buddha na escadaria do Salão do Altar. Depois disso, nos resta apenas disputar uma torneira onde escovar os dentes e nos prepararmos para dormir.

O grupo responsável pelo “toque de recolher” deve ir ao Salão do Altar, arrumar tudo para o despertar do dia seguinte e, com um toque sincronizado do sino enorme e do grande tambor, anunciam o horário em que todos nós devemos praticar meditação, sentados na cama, durante 20 minutos antes do apagar das luzes do templo. É a hora de acabar mais um dia, nisso, já são 22:00h… O seguinte será invariavelmente igual!

O único dia de folga é o DOMINGO. Não há aulas e, após o Ritual da Manhã e a Refeição da Manhã, quem quiser passar o dia fora do templo tem que preencher uma ficha pedindo permissão ao Chefe do Grupo, Chefe Geral e, finalmente, pedir a aprovação da saída ao Supervisor Geral. Após essa maratona burocrática, é necessário correr para pegar no horário certo o único onibus que passa de manhã, indo para a cidade, que fica mais de 4 km longe do Instituto Yuan Guan…

Bem, resumindo, foi assim a rotina nos dois anos que passei em Taiwan…. Muitos tufões, chuvas que inundaram os dormitórios, a presença constante de ratazanas nos quartos e baratas gigantes nos armários e duas experiências com terremoto deram um pouco de vida e agitação a esses dias nem sempre tão iguais….

Nas próximas matérias falarei de outros tipos de templo onde também tive treinamento monástico. Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ