A todos, Namaste!

Conforme eu disse na primeira matéria desta série sobre viver num templo budista, há vários fatores variantes que determinam o estilo de vida, portanto, não podemos generalizar e afirmar que “todo templo é assim ou assado”. Através de meus relatos, enquanto experiências pessoais, espero dar uma noção da vida em cada tipo de templo.

Vamos primeiramente entender que negócio é esse de .Tradição  de Floresta.. Não se trata de uma Tradição, como a Theravada, Zen ou Buddhismo Tibetano, mas sim de um estilo específico de PRÁTICA DO BUDDHISMO, no caso, EXATAMENTE igual ao modo como o Buddha viveu há quase 3.000 anos, guardadas, obviamente, as imposições da sociedade moderna. Assim, um monge que decida viver num dos muitos “Templos de Floresta”, vai seguir regras tão antigas quanto o próprio Buddhismo!

Minha experiência nesse modo de vida não foi longa. Sempre fui alguém extremamente urbano, afinal, sou de Copacabana e, por mais que tenha viajado o mundo, morar em grandes cidades é uma característica de minhas andanças pelo mundo. Então, cheguei ao Nordeste do Reino da Tailândia e, em circunstâncias muito longas para serem explicadas agora, de repente, me vi sozinho e totalmente “abandonado” num templo onde ninguém falava uma única palavra de inglês, isto, numa época em que minha lista de vocabulário em Tailandês somava pouco mais de dez palavras… Com isto, tive que me esforçar ao máximo para entender e me fazer entendido, me adaptando às regras do local – que não são poucas.

Num Templo de Floresta não há quartos, mas sim KUTÍ, uma cabana bem pequena, toda feita de madeira, em formato quadrado, levantada do solo por quatro pilares e uma escada. Todas as paredes têm janelas e há apenas uma porta. O detalhe é que há uma grande abertura, sem tela nem nada, no alto, formando um triângulo entre a parede onde fica a porta e o teto do KUTÍ. Por ali, entram livremente todo tipo de insetos e – literalmente – CENTENAS de mosquitos, além de um parente da Iguana, chamados pelos tailandeses  de DUKHÉ. Eles berram bem alto durante a noite (os lagartos, não os tailandeses…rs).

O KUTÍ não tem mobília, o que significa que também não têm cama e temos que dormir no chão de madeira, usando um pequeno travesseiro que, embora não muito duro, tem o formato de um grande tijolo de pano. Como lençol, usa-se apenas o manto e, com sorte, a cabana pode ter um mosquiteiro – uma grande tela de filó, pendurada no teto que não tem sucesso na missão de impetir que os mosquitos devorem o monge durante a noite… Para completar a visualização da situação, não há luz elétrica no KUTÍ e, por volta das 15:30, por causa da grande quantidade de árvores altas, a luz natural já começa a não mais iluminar dentro da cabana.

Quanto ao banheiro, é comunitário e fica bastante afastado do KUTÍ, no meio da mata. Para chegar até lá durante a noite é necessário usar uma lanterna – caso haja alguma – ou levar uma vela, com cuidado para não a deixar cair nem se queimar.

Se você achou cedo o sino de despertar no Templo Chinês da matéria anterior, bem, no Templo de Floresta todos os monges despertam às 03:30h. para estarem reunidos no Grande Salão às 03:30h. Um detalhe característico do Templo de Floresta é que NÃO HÁ o Salão do Altar, como nos demais templos de todas as Tradições. Um amplo salão, multifuncional, tem a imagem do Buddha, mas é o mesmo local usado para as refeições monásticas, palestras, reuniões em festividades etc. sem ter a função específica de Salão do Altar.

O  SILÊNCIO é um ponto predominante e característica em comum de todos os Templos de Floresta. Mesmo nos poucos momentos de descontração e conversas, não se ouve conversas em voz alta, muito menos gargalhadas! Isto não quer dizer ausência de humor, muito pelo contrário! Quem já viu o sorriso de um Monge da Floresta tem certeza do quanto são felizes e guarda bem clara na mente essa imagem!

Após a Recitação da Manhã, todos se preparam para a ronda de mendigar alimento. Outra diferença em relação aos templos da cidade é o fato de usarmos OS DOIS MANTOS, desdobrando o MANTO SUPERIOR – “SANGHATÍ”, que, na cidade só é usado como uma faixa sobre o ombro esquerdo, em ocasiões especiais e ritualísticas.

São muito poucos os momentos em que os monges do Templo de Floresta realmente estão juntos. Nas Recitações – da manhã e da tarde, na ronda de mendigar alimento – quando todos nós caminhamos em fila e silêncio absoluto, durante a ÚNICA REFEIÇÃO DO DIA, feita sempre antes do meio-dia e também em total silêncio e em raras outras ocasiões ao longo do dia quando conversas curtas e em voz baixa podem acontecer.

Fora isto, o tempo passa lentamente, na solidão dos KUTÍS, tão afastados uns dos outros que nem ao menos são vistos… A luz do dia dura pouco e logo não é possível ler livros, então, a melhor opção é meditar, meditar e meditar… A escuridão da noite não convida para saídas noturnas. Hà um tipo de formiga vermelha, muito perigosa por atacar em bando e, por terem um tipo de veneno, deixam os pés e pernas dormentes, sem sensibilidade alguma por um bom tempo, dependendo da quantidade de mordidas. Por experiência própria, não aconselho alguém a pisar num formigueiro delas! Como cobras e aranhas também são facilmente encontráveis nos Templos de Floresta, é melhor ir ao banheiro enquanto há luz do dia evitando qualquer tipo de saída noturna…

Um Templo de Floresta é um local perfeito para viver em isolamento, praticar os Preceitos conforme foram originalmente idealizados pelo Buddha – desapegando-se de todos os bens materiais, não tocando em dinheiro e dependendo da ajuda e doação dos seguidores leigos a um ponto tal que a humildade e interdependência se tornam absolutamente claras na mente do praticante.

É impressionante ver o respeito que o povo tem pelos Monges da Floresta. Nada falta ao templo e, na verdade, as refeições mais fartas que já vi na vida me foram servidas em Templos da Floresta! Onde quer que sejam vistos e identificados, os monges são reverenciados e recebidos com sorrisos da população! Ao mesmo tempo, demonstram uma humildade e espontaneidade que, infelizmente, já não é vista com frequência entre os monges de Bangkok e de outras cidades grandes…

Em linhas gerais, assim é a vida nos Templos de Floresta onde tive a oportunidade, ainda que não muito longa, de praticar.

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु