CAPÍTULO 5

 O BUDDHA

 1 – “O Venerável Nágassena ou seus mestres alguma vez viram o Buddha?”

“Não, Grande Rei.”

“Então, Venerável Nágassena, não há o Buddha!”

“Alguma vez o Grande Rei ou seu pai viram o Rio Uhá nos Himalaias?”

“Não, Venerável Ser.”

“Então, seria correto dizer que não há o Rio Uhá?”

“O Venerável Nágassena é hábil nas respostas.”

2 – “É o Buddha incomparável?”

“Sim, ele é.”

“Mas, como pode o Venerável saber, se nunca o viu?”

“Assim como os que nunca viram o oceano podem saber o quanto ele é grandioso, porque os cinco grandes rios correm para dentro dele e, nem por isso ele se inunda; assim, eu sei que o Buddha é incomparável quando penso em todos os grandes mestres que já vi e todos são discípulos dele.”

3 – “Como podem os outros saber que o Buddha é incomparável?”

“Muito tempo atrás, havia um mestre de escrita chamado Tíssa Thêrá. Como as pessoas sabiam sobre ele?”

“Por sua escrita.”

“Exatamente, Oh Rei. Assim, da mesma forma, quem quer que veja o Dharma ensinado pelo Abençoado sabe que ele é incomparável.”

4 – “O Venerável Nágassena já viu o que é a verdade?”

“Nós discípulos, Oh Rei, nos conduzimos de acordo com as regras estabelecidas pelo Buddha.”

5 – “Pode haver algum renascimento sem que haja transmigração?”

“Sim, pode, assim como um homem pode acender uma lamparina a óleo a partir de outra, mas nada se move de uma lâmparina para outra; ou como um aluno pode decorar um verso recitado pelo professor, mas o verso não transmigra do professor para o aluno.”

6 – Então, o Rei Milinda perguntou de novo: “Existe esse “Aquele que tudo sabe”? (Vêdagú)

“Não em sentido absoluto.”

7 – “Há algum ser que transmigre de um corpo para outro?”

“Não, não há.”

“Se assim é, não haveria escapatória do resultado das más ações?”

“Sim, haveria uma escapatória se pudessem não mais renascer, mas não há escapatória se tiverem que renascer. Neste processo da
mente e matéria cometerem ações, tanto puras quanto impuras, e por causa desses karmas outra mente e corpo renascem. Portanto, a mente e corpo não estão livres das más ações.”

“Dê-me um exemplo.”

“Se um ladrão roubasse as mangas de outro homem, ele deveria ser punido?”

“Certamente que sim.”

“Mas se as mangas roubadas não fossem as que o homem plantou; por que deveria ser punido?”

“Porque as que ele roubou resultaram das anteriores.”

“Do mesmo modo, Oh Rei, este processo de mente e corpo comete ações puras ou impuras e, por causa do karma da outra mente e
corpo, renasceram. Portanto, esta mente e este corpo não estão livres das más ações.”

8 – “Quando ações são praticadas pela mente e corpo, onde elas permanecem?”

“As ações os seguem, Oh Rei, como uma sombra que nunca vai embora. Entretanto, não podemos apontá-las, dizendo “Essas ações
estão aqui ou ali”, assim como os frutos de uma árvore não podem ser apontados antes de gerados.”

9 – “Quem está prestes a renascer, tem consciência
disso?”

“Sim, pode ter consciência, assim como um fazendeiro que plantou as sementes no solo, vendo que a chuva tem sido suficiente, saberia que haverá o que colher.”

10 – “Há alguma pessoa que é como o Buddha?”

“Sim.”

“Poderíamos dizer que o Buddha está aqui ou ali?”

“O Abençoado morreu e dele nada restou para formar outro indivíduo. Ele não pode ser apontado aqui ou ali, tal como a chama de um fogo que foi apagado não pode ser vista aqui ou ali. Ainda assim, há o registro histórico de sua existência e sua doutrina pode ser vista, tal como foi ensinada por ele.”