A todos, Namaste!

Ésta e mais uma matéria encerram esta série sobr a vida num templo buddhista. Hoje falarei sobre minha experiência em um Templo-Escola na Tailândia e amanhã mostrarei como foi minha vida num templo de monges do Sri Lanka, em Kuala Lumpur, capital da Malásia.

Após muitos meses vivendo no Wat Duan Khea, perto da Estação de trem Hua Lam Phong, centro de Bangkok, meu Preceptor, o Venerabilíssimo Phra Dham Varaporng decidiu que eu devia me transferir para o Wat Kometratanarám, na Província de Pathum Thani, bem próxima de Bangkok, se não fossem os intermináveis engarrafamentos tailandeses…

Assim, fui primeiro visitar o local, em companhia de meu Preceptor e fiquei muito bem impressionado! Uns dias depois, após preparar minha mala e me despedir dos amigos do Wat Duang Khea, parti de carro para o novo templo. O nome significa algo como “Templo do Diamante que Brilha no Alto de uma Estupa” e é um Templo-Escola, ou seja, tem uma escola onde os monges ensinam aos noviços as matérias do Ensino Básico e Secundário.

Fui muito bem instalado numa casa grande, destinada a receber visitantes VIP! Escolhi um quarto com banheiro privativo mas dispensei o ar-condicionado… Os demais quartos, maiores e mais bonitos, estavam vazios e ficavam trancados. Um corredor com uma geladeira, uma ótima sala de visitas com sofás, poltronas, mesinha de centro, tapetes e um bonito Altar do Buddha, com linda mobília tradicional tailandesa… Tudo novo, pintado, muito claro e arejado – bem diferente do Wat Duang Khea, que é velho, escuro e, por ser lotado de cães e gatos de rua, que comem os restos de comida, cheira mal o tempo todo!

No Wat Komêt, como é abreviado, havia 12 monges, todos bastante jovens (o Abade tinha menos de 50 anos) e, com idades variando dos 12 aos 18, um total de 150 noviços, das mais diversas regiões do país. Logo me tornei “professor de inglês” e me deram algumas turmas para lecionar.

A rotina é bem diferente dos demais templos onde morei! Não há horário para absolutamente nada. A presença na Recitação da Manhã é totalmente facultativa e a grande maioria dos monges não acorda antes das 9 da manhã, a menos que tenha que dar aula… Muitos vêem TV e jogam vídeo games o dia todo, em seus quartos e só saem para fazer as refeições em conjunto, voltando a não fazer nada.

Há os que se dedicam a cuidar de galos de briga e chegam mesmo a participar de campeonatos, mandando que os leigos levem as aves, já que os muitos estádios de rinha de galos (liberada na Tailândia) não são ambiente para monges. Também se vê monges jogando futebol e tocando violão… Muitos fumam, deitados nas redes, debaixo das árvores e alguns passam o dia na faculdade, voltando ao templo só no final do dia.

Aos domingos, é comum que os leigos cumpram a Tradição de criar méritos (bom karma) oferecendo refeições para nós monges. Para estas ocasiões, todos se reúnem no refeitório, é feita uma Recitação em Páli e, em seguida nós recebemos envelopes com dinheiro, antes de comermos uma farta refeição, servida pelos leigos.

Terminada a doação, sem nada mais a fazer, todos os monges vão dormir o resto da tarde… Foi esta vida um tanto quanto vazia e inútil que me levou a questionar, mais uma vez, sobre meu futuro e o que eu esperava de minha vida. Tentei visualizar o que estaria fazendo em dois ou três anos… Me vi no mesmo lugar, deitado o dia todo, TV ligada, vendo filmes em DVD, almoçando com fartura e me limitando a recitar Sutras em Páli, todos os domingos, para grupos de leigos que nem ao menos entendem o que estamos recitando.

Do Wat Komêt tenho a satisfação de ter trazido meu filho Kauan, que era noviço na escola do templo e foi lá que nos conhecemos, quando ele ainda não tinha 15 anos. Eu poderia ainda estar lá, acomodado no conforto de uma vida confortável, segura e inútil! Absolutamente nada, em termos materiais, me faltava mas decidi deixar a Tailândia e procurar algo que justificasse eu ter deixado tanta coisa no Brasil para me tornar monge.

Na matéria de amanhã, mostrarei minha experiência em um Templo totalmente dedicado, com muito sucesso, aos programas de Bem Estar social de crianças, jovens, adultos e idosos. Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ