A todos, Namaste!

Concluindo esta curta série sobre os diferentes tipos de templo por onde passei durante meu treinamento monástico, hoje relatarei como foi minha experiência num templo de monges do Sri Lanka, na cidade de Kuala Lumpur, capital da Malásia.

O templo se chama SRI LANKAN BUDDHIST TEMPLE (Templo Buddhista do Sri Lanka, nada mais objetivo!) e, por ficar no bairro de SENTUL TIMOR, é mais conhecido como “o templo de Sentul”, porque há outro, ainda mais famoso e antigo – também do Sri Lanka, na cidade. A história do templo, por si só, já é admirável e tem que ser contada. Mais de 25 anos atrás, havia no local somente um casebre. O próprio bairro de Sentul não era mais que uma quantidade de lotes vazios e terrenos baldios onde apenas algumas famílias se aventuravam a morar. No que hoje é um templo bonito, moderno e atuante, morava apenas um monge que, sabe-se lá por que razão, acabou desviando-se do Caminho e se envolvendo com traficantes de drogas e todo tipo de maus elementos. Num país muçulmano, onde o Buddhismo é apenas tolerado, não é difícil imaginar o problema que isto causou aos poucos seguidores buddhistas daquela época. Logo o templo e toda a área em redor passaram a ser vistos como um local perigoso a ser evitado.

Banido da Malásia, o mau monge deixou o local totalmente abandonado. Foi quando alguém importante para a história do Buddhismo na Malásia chegou, também vindo do Sri Lanka: um jovem e inexperiente monge, chamado Boowatte Saranánkara. Cheio de sonhos e expectativas e idealismo, mal falava inglês e era a primeira vez de sua vida fora de sua terra natal. Logo que soube da situação do barracão onde havia o templo de Sentul, optou em ir para lá, em vez de morar no outro templo, para onde vão todos os monges do Sri Lanka que chegam à Malásia.

Mesmo sendo considerado louco, avisado por todos sobre os perigos daquela área e das dificuldades que passaria, morando num local onde nenhum buddhista se atrevia a frequentar, o jovem monge não mudou de idéia e, sozinho, foi para Sentul. Aos poucos, foi melhorando a imagem daquela área. Sem desisitir dos contatos com as autoridades e Prefeitura de Kuala Lumpur, começou a conquistar a confiança dos moradores sobre sua sinceridade de atitude.

O que era uma área de marginalidade começou a prosperar. Também os buddhistas que haviam desacreditado no templo de Sentul, gradativamente, voltaram. Hoje em dia, o jovem e inexperiente Saranánkara é o VENERÁVEL BOOWATTE SRI SARANÁNKARA NÁYAKA MAHA THERÔ, uma coletânea de títulos adicionados ao seu nome que, no meio buddhista o identificam como uma grande e respeitada autoridade. Seu nome está constantemente nos jornais, com matérias destacando-o como benfeitor. É recebido e homenageado pelas autoridades muçulmanas que também visitam o templo e o presenteiam!

Mas, o que mudou tanto no antigo barracão frequentado por marginais, para tornar aquele monge tão especial? Incansável em seus projetos e na capacidade empreendedora, o Venerável Saranánkara mantém uma série de programas sociais que vêm beneficiando um número cada vez maior de pessoas. No templo que se destaca na paisagem de Sentul e que abriga a maior imagem de Buddha sentado na Malásia, funcionam várias atividades: uma CLÍNICA GRATUITA, com profissionais de medicina atendendo como voluntários, salas de aula para REFORÇO ESCOLAR de todas as matérias do ensino fundamental e secundário, abertas a alunos de todas as crenças (um grande número de muçulmanos frequentam a escolinha dentro do templo buddhista). Além disso, o templo construiu e mantém duas CASAS PARA IDOSOS que já estão lotadas e um terceiro lar está em construção.

Outro projeto que vem crescendo ano a ano se chama EDUCARE (a sigla em inglês combina EDUCATION + CARE = cuidado com a educação). Idealizado pelo Venerável Saranánkara, o EDUCARE mobiliza toda a sociedade – empresarial e comum para a doação de material escolar e uniformes completos para crianças carentes. Todo ano são coletadas centenas de materiais a serem distribuídios às famílias previamente cadastradas no projeto. Uma grande festa, no pátio do templo com apresentação de teatro, danças folclóricas, Kung Fu, barraquinhas com alimentos típicos, muita música e alegria, serve de motivação para a grande entrega das cestas com material e uniformes completos para as crianças. Mais de CINCO MIL crianças foram beneficiadas na última vez que presenciei o evento e este número continua crescendo!

Outro evento de destaque é o DIA DO RESPEITO AO IDOSO, onde centenas de velhinhos de todas as etnias e crenças religiosas da Malásia vão ao templo e são acolhidos sem discriminação alguma. Lá eles recebem alimentação e uma cesta básica completa, corte de cabelo, exame médico e dentário gratuito e passam o dia com apresentações de teatro, dança etc. Também para este evento o número de cadastrados não para de aumentar.

Nas situações de catástrofe, como, por exemplo, na China, Sri Lanka e Indonésia, o templo de Sentul também se mobiliza! Inicialmente, a idéia foi recolher doações, e, na ocasião do terremoto de Shichuan – China, três contêineres lotados foram enviados para mandar mantimentos e roupas para a população atingida. O mesmo foi feito para socorrer o povo de Mianmár (antiga Birmânia). Depois, porém, o Ven. Saranánkara achou melhor mudar a forma de ajuda. Vendo que o aluguel e transporte dos contêineres saía muito caro, além do risco das doações não chegarem ao destino certo, ele decidiu coordenas “in loco” a operação de ajuda a Mianmar.

Com muita dificuldade, conseguiu permissão da Junta Militar (o governo ditatorial daquele país) para ir a Mianmar levando as doações. Além de distribuir pessoalmente as doações, também levou produtos para serem vendidos no comércio local, ajudando os comerciantes a reconstruirem suas vidas. Para o povo, fez uma seleção das necessidades e deu um valor fixo de ajuda financeira.

Há muitas outras atividades no Templo do Sri Lanka em Sentul Timor e, como se pode imaginar, isso mantêm os monges constantemente ocupados, com reuniões de planejamento ou “virando a noite” em mutirões para carregar os contêineres ou arrumando o pátio para os grandes eventos. Há sempre muito o que fazer no local e a recompensa maior é a alegria de um evento bem sucedido, com tantas famílias beneficiadas… Esse foi o último templo onde morei antes de voltar para o Brasil e quando cheguei aqui, estava totalmente motivado e cheio de idéias a serem postas em prática para beneficiar nosso povo. Devo confessar que as inúmeras dificuldades me desmotivaram sensivelmente, mas, a lembrança do início da história do Ven. Saranánkara me motiva a levar adiante o PROJETO UNIVERSAL DHAMMA VIHARA, através do qual poderemos fazer igual ou mais do que vem sendo feito no templo de Sentul. Se é possível fazer tanta coisa num país como a Malásia, onde o Buddhismo também é minoritário, aqui também pode dar certo! É importante seguir o exemplo do Ven. Saranánkara e seu grupo de jovens monges do Sri Lanka.

Temos que mostrar ao mundo que no Brasil também há um Buddhismo moderno, vivo e atuante, que, através da generosidade e ação, beneficia nosso povo, independentemente da crença, classe social ou raça de cada pessoa a quem ajudamos.

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ