२५५४ ०६ ०९ Guruvár 2554-06-09

A todos, Namaste!

Não é a primeira vez neste Blog que me menciono o nome do Ven. AJAHN SUMEDHÔ, mas, para os que não se lembram, ele foi o primeiro ocidental que se aventurou nas florestas da Tailândia, mais de 30 anos atrás e tornou-se monge na Tradição da Floresta, como discípulo do Venerável Grande Mestre AJAHN CHAH, falecido em 1996. Se, atualmente, o Ven. Sumedhô é famoso, respeitado e o Abade do Mosteiro Amaravati, na Inglaterra, seu começo de carreira não foi tão brilhante e não foram poucos os obstáculos que teve que superar, passando por maus momentos durante o treinamento monástico imposto pelo velho mestre.

Desde seu primeiro contato com Ajahn Chah, ficou bem claro que o jovem e inexperiente americano não teria vida mansa e Ajahn Chah foi bem direto: “Se quiser ficar aqui e ser treinado, é problema seu, mas não terá nenhum tratamento especial só porque é gringo! Se não quiser ficar, pode ir embora!” O então noviço, aceitou ficar!

Certa vez, quando o jovem Sumedhô mal sabia se expressar em Tailandês, o Ven. Ajahn Chah, com o salão do templo lotado de leigos tailandeses, chamou seu discípulo e mandou que ele falasse a todos um DESSANÁ sobre as Quatro Nobres Verdades… O jovem monge ficou gelado e, muito inseguro, ficou catando daqui e dali, palavras em Tailandês, tentando dar sentido ao DESSANÁ… A audiência, movida pela compaixão, bem que tentou ouvir e prestar atenção, mas, aos poucos, todos foram se retirando, deixando o jovem Sumedhô falando para duas ou três velhinhas quase adormecidas pela monotonia da situação!

Naquela noite, o monge Sumedhô foi dormir indignado! Ele estava com muita raiva do Ven. Ajahn Chah por tê-lo exposto àquela situação tão constrangedora e inesperada! Naquele momento, jurou para si mesmo que daria um outro DESSANÁ, mas seria um sucesso absoluto! Dedicou-se então a aumentar seu vocabulário buddhista em Tailandês a fim de preparar antecipadamente o melhor DESSANÁ que um “gringo” pudesse dar.

Com tudo pronto e bem memorizado, aguardou a próxima “armadilha” de seu mestre. O Ven. Ajahn Chah chamou Sumedhô novamente e deixou-o sozinho com a audiência, como na outra vez. Confiante e com tudo preparado, o jovem Sumedhô fez uma verdadeira exibição diante dos tailandeses! Usou as palavras ensaiadas, falou tudo conforme havia decorado e preparado com tanta dedicação! No final, todos estavam surpresos e felizes e, realizado, Sumedhô não pode esperar o dia seguinte e foi bater na cabana de seu mestre, antes de dormir. Para sua surpresa, foi recebido por um Ven. Ajahn Chah bastante  irritado! Ele já sabia do que Sumedhô havia aprontado e foi logo dizendo: “Se você fizer isto de novo, eu mesmo vou mandar você embora de meu templo! Nunca mais faça isso! Não se ensaia um DESSANÁ com antecedência, como se fosse uma peça de teatro! Se o DESSANÁ não sair diretamente do coração, totalmente de improviso, NÃO É DHARMA VERDADEIRO! Portanto, nunca mais prepare com antecedência um DESSANÁ!”

Totalmente constrangido, o jovem Sumedhô entendeu e, humildemente aceitou o Ensinamento de seu mestre. Foi uma lição para a vida dele que também eu decidi seguir! Nas diversas vezes que, na Ásia, fui convidado para dar DESSANÁ para audiências entre 20 e 200 pessoas, sempre me perguntavam: “Venerável, precisamos saber com antecedência o tema de seu DESSANÁ, para prepararmos cartazes convidando a audiência!” As pessoas ficavam surpresas com minha resposta: Não tenho a menor idéia sobre o que vou falar!

No momento exato, antes de começar a falar, eu costumo olhar a audiência, sentada em silêncio diante de mim. Sorrio, cumprimento a todos com um “namaste” e começo a falar. Na hora, o tema surge e flui sem problema algum… Aliás, na maior audiência que já tive – 14 mil pessoas – na Conferência Buddhista Mundial, por ocasião da inauguração do maior templo buddhista do mundo, em Kobe – Japão, isto também aconteceu. Todos os monges presentes haviam preparado seus discursos e os amigos mais chegados estavam comentando sobre o que iriam falar,  poucos minutos antes de ocuparmos nossos lugares no imenso auditório… Daí, os amigos mais chegados me perguntaram: “O venerável representante do Brasil vai falar sobre o quê? E eu: ‘Não sei! Vou decidir na hora….” Meus 20 minutos de discurso saíram com a naturalidade de como se eu estivesse ensaiando num auditório vazio. Ao final, para minha grande surpresa, todos se levantaram e aplaudiram minha fala. Não posso negar que foi uma das maiores experiências de minha vida e fico feliz que tenha sido bem sucedida!

O ensinamento do Venerável Grande Mestre AJAHN CHAH vai continuar guiando minha prática em DESSANÁ: SE NÃO SAIR DIRETO DO CORAÇÃO, É MELHOR NÃO DIZER NADA!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Rev. SUNANTHÔ BHIKSHÚ