CAPÍTULO 7

 A MEMÓRIA

1 – “De quantos modos,  Venerável Nágassena, surge a memória?”

“De dezessete modos, Oh Rei. Quero dizer; por experiência pessoal, como quando o Venerável Ánanda se lembrou de suas vidas anteriores (através de desenvolvimento mental superior); por ajuda externa, como quando outros lembram algo a alguém esquecido; pela grandeza de alguma ocasião, como quando o rei se lembra de sua coroação ou quando alguém atinge o estágio de “entrar na correnteza”; pela impressão que um benefício causou, como quando alguém se lembra de algo que lhe proporcionou prazer; pela impressão causada pelo detrimento, como quando alguém se lembra de algo que lhe causou dor; pela similaridade da aparência, como quando alguém se lembra da mãe ou pai, ou irmão ou irmã ao ver alguém que se pareça com eles; pela falta de similaridade na aparência, como quando alguém se lembra de alguém ao ver outra pessoa que não se parece com eles; pelo conhecimento através da fala, quando alguém é lembrado pelos outros; por um sinal, como quando alguém reconhece algo através de alguma marca; pelo esforço em se lembrar, como quando alguém tenta repetidas vezes; pelo conhecimento da escrita, como quando alguém que saiba escrever, se lembra como as letras se ligam umas às outras; pela aritmética, quando os contadores fazem
grandes somas por suas habilidades com números; pelo aprendizado decorado, como os recitadores das escrituras em sua habilidade de recitar; pela meditação, como quando um monge se lembra de suas vidas passadas; pela referência a um livro, como quando os reis trazem à mente uma regulamentação feita anteriormente através de um livro; por um pedido, como quando um homem se lembra pela visão de bens depositados e as circunstâncias sob as quais foram pedidos; pela associação, como quando ao ver ou ouvir algo, alguém se lembra de outras coisas a isto associadas.”

2 – “O Venerável Nágassena diz que um homem que vive uma vida maléfica por cem anos pode, ao pensar no Buddha no momento da morte, renascer entre os Dêvas; e que um bom homem pode, através de uma má ação, renascer nos infernos. Em ambas estas
coisas eu não acredito.”

“O que o Grande Rei acha. Uma pedrinha pode flutuar sobre a água sem que esteja em um barco?”

“Não.”

“Mas mesmo um carregamento de pedras pode flutuar, quando está em um barco. O Grande Rei deve pensar nas boas ações como se fossem um barco.”

3 – “Vocês monges se esforçam em remover Dukkha do passado, presente e futuro?”

“Não. Nos esforçamos para que Dukkha cesse e não mais cresça.”

4 – “Mas, há agora, Venerável Nágassena, algo como Dukkha futuro?”

“Não.”

“Então, o Venerável é extremamente inteligente ao se esforçar para remover isto!”

“Reis rivais já tentaram fazer oposição ao Grande Rei?”

“Sim, já.”

“Foi só então que o Grande Rei se preparou para uma batalha?”

“De forma alguma. Tudo é feito com antecedência, para evitar um perigo futuro.”

“Mas, existe agora, Oh Rei, essa coisa de perigo futuro?”

“Não, Venerável Ser.”

“Então, o Grande Rei é extremamente sábio em se esforçar para remover isto!”

“Bem respondido, Venerável Nágassena, o Venerável é hábil nas respostas.”

4 – “A que distância fica o reino de Brahmá?”

“Muito distante, Oh Rei; uma pedra levaria quatro meses para alcançar a terra se viesse do Reino de Brahmá, mesmo que caísse 48.000 léguas por dia.”

“Então, como pode um monge viajar até lá tão depressa mesmo que usando poder sobrenatural?”

“Onde nasceu o Grande Rei?”

“Há uma ilha chamada Alassanda; foi lá que nasci.”

“A que distância fica daqui?”

“Cerca de duzentas léguas.”

“O Grande Rei se recorda de algum negócio feito lá?”

“Sim, lembro.”

“Como viajou depressa as duzentas léguas! Também é assim que um monge alcança o Reino de Brahmá de uma só vez, pelo poder sobrenatural.”

5 – O rei perguntou: “Se um homem morresse e renascesse no Reino de Brahmá e, ao mesmo tempo outro homem morresse para renascer em Kashmir, qual chegaria primeiro?”

“A que distância fica a cidade natal do Grande Rei?”

“Duzentas léguas.”

“E a que distância fica Kashmir?”

“Doze léguas.”

“De qual das duas o Grande Rei se lembra mais facilmente?”

“De ambas com igual facilidade, Venerável Ser.”

“Da mesma forma, Oh Rei, os homens que morreram no mesmo momento, renascerão ao mesmo tempo.”

6 – “Quantos fatores da Iluminação há?”

“Sete, Oh Rei.”

“Através de quantos destes fatores alguém desperta para a verdade?”

“De apenas um, investigação da verdade, porque nada pode ser entendido se não for assim.”

“Então, por que se diz que há sete?”

“Poderia a espada que está em sua bainha cortar algo se não fosse desembainhada?”

“Não, Venerável Ser.”

“Da mesma forma, Oh Rei, sem os outros fatores da Iluminação, a investigação da verdade não despertaria para a verdade.”

7 – “Qual o maior, mérito ou demérito?”

“Mérito, Oh Rei. Quem faz o mal sente remorso e percebe seu erro, portanto o demérito não aumenta. Entretanto, quem faz o bem não sente remorso; e felicidade e alegria surgem e, ao se regozijar, estará em paz, estando relaxado, sentirá o contentamento, tendo o contentamento mental, facilmente se concentrará, estando concentrado verá as coisas como realmente são. Deste modo,
o mérito aumenta. Portanto, o mérito é muito maior. O demérito é relativamente insignificante.

8 – “Qual é o maior demérito, o consciente ou inconscientemente cometido?”

“Inconscientemente cometido, Oh Rei.”

“Então, devemos punir quem faz algo errado inconscientemente.”

“O que pensa o Grande Rei, um homem se queimaria com maior gravidade se pegasse uma bola de ferro ardendo em braza se não soubesse que ela está quente ou sabendo o quanto está quente?”

“Ele se queimaria com maior gravidade se não soubesse que está quente.”

“Da mesma forma, Oh Rei, ocorre com o homem que faz algo errado inconscientemente.”

9 – “Há alguém que possa ir fisicamente ao Reino de Brahmá ou para outro continente?”

“Sim, Oh Rei, há. Tão facilmente quanto o Grande Rei pode pular uma distância curta, somente pela determinação da mente, “Vou cair ali”, assim também alguém que tenha desenvolvido a absorção (Jhána) pode ir ao Reino de Brahmá.”

10 – “Há ossos com 100 léguas de comprimento?”

“Sim, há peixes no oceano com 500 léguas de comprimento (cerca de 3.500 milhas!) que têm esses ossos.”

11 – “É possível suprimir a respiração?”

“Sim, é. Como é possível fazer parar o ronco de alguém com a mente desenvolvida, curvando seu corpo, também é possível para uma mente bem desenvolvida suprimir a respiração.”

12 – “Por que o oceano se chama assim?”

“Porque é uma igual mistura de sal e água.” (Samá = igual, Udda = água – Samudda = Oceano)

13 – “Por que o oceano todo tem um só sabor?”

“Porque ele existe há muito tempo.”

14 – “É possível dissecar até mesmo a coisa mais sutil?”

“Sim, Oh Rei. A Sabedoria é capaz de dissecar até a coisa mais sutil.”

“O que quer dizer com a coisa mais sutil?”

“O Dharma é a coisa mais sutil. Entretanto, nem todo dharma é sutil, alguns são grosseiros. Sutil e grosseiro são conceitos. O que quer que seja divisível pode ser dividido pela sabedoria. Não há nada mais que possa dissecar a Sabedoria.”

15 – “Estes três, Venerável Nágassena, consciência (vijnána ou viññána, em Páli), Sabedoria (prajna ou pañña, em Páli) e a alma (bhútasmim djívô); são diferentes em essência ou somente pelos nomes?”

“O saber, Oh Rei, é o marco da consciência e a discriminação é o marco da Sabedoria. A alma não pode ser encontrada (por não existir).”

16 – O Venerável disse, “Algo difícil foi feito pelo Abençoado; a distinção de todas as condições mentais que dependem dos órgãos dos sentidos, mostrando tais e tais como contato, tais como sentimento, tais como percepção, tais como sendo intenção e o que é mente (tchítta).”

“Dê-me um exemplo.”

“Se um homem fosse pegar com a mão um pouco de água do oceano para prová-la, poderia dizer, “Esta água veio do Ganges, ou do Jumna, ou do Gandák, esta do Sarabhu e esta do Mahi.” Ainda mais difícil é distinguir os estados mentais que acompanham cada um dos sentidos.” Como já era meia-noite, o rei fez oferendas ao Venerável Nágassena e disse “Como um leão em uma jaula de ouro só anseia por liberdade, assim eu anseio pela vida de monge, mas não vou viver muito, porque muitos são meus inimigos.”

Então Venerável Nágassena, tendo resolvido as perguntas feitas pelo Rei Milinda, levantou-se e retornou ao seu hermitário. Não muito depois da saída do Venerável, o Rei Milinda refletiou sobre as perguntas e respostas e concluiu, “Tudo foi corretamente perguntado por mim e foi respondido devidamente pelo Venerável Nágassena.” De volta ao hermitário, o Venerável Nágassena refletiu e concluiu a mesma coisa.