CAPÍTULO 8

A SOLUÇÃO DE DILEMAS

 Após ponderar a noite toda sobre as discussões com o Venerável Nágassena, o rei tomou para si oito votos: “Por sete dias não decidirei nenhum caso legal, não vou acumular desejo nem ódio nem ilusão. Serei humilde com todos os servos e dependentes. Observarei cuidadosamente todos os atos do corpo e meus seis sentidos. Encherei meu coração com Amor Incondicional por todos os seres.”

Então, novamente ele quis conversar com o Venerável Nágassena e disse, “Há oito locais a serem evitados por mim, que quero discutir profundamente: terrenos irregulares, onde a conversa see torne dispersiva, inconsistente, difusa e resulte em nada; lugares perigosos onde a mente se perturbe pelo medo e não perceba os significados claramente; locais com muito vento onde a voz não seja ouvida claramente; em locais muito isolados que podem ser arriscados; em locais sagrados onde o assunto discutido possa se desviar por causa da seriedade do local; numa estrada, onde o assunto possa banalizar-se; sobre uma ponte que pode balançar ou ondular; em um banho público onde a conversa pode se tornar comum.

“Novamente, há oito tipos de pessoa, Venerável Nágassena, que são capazes de estragar uma discussão; os luxuriosos, os raivosos, os desiludidos, os orgulhosos, os gananciosos, os indolentes, os homens de uma só idéia e os pobres tolos – estes oito são os que estragam uma discussão.

“Há oito causas, Venerável Nágassena, do desenvolvimento e amadurecimento da inteligência: o avançar dos anos, o crescimento da reputação, o frequente questionamento, a associação com um guia de desenvolvimento mental, a própria razão, a discussão, a associação com os virtuosos e o estabelecimento em um local adequado. Este ponto é for a de objeções para conversar e eu sou um aluno modelo; sou discreto e minha percepção é madura.

“Estes, Venerável Nágassena, são os vinte e cinco deveres de um professor para com seu aluno aplicado: ele tem sempre que proteger o aluno, fazer com que saiba o que cultivar e o que evitar, a que ele deve ser dedicado e a que deve negligenciar. O professor deve instruir sobre como dormir, manter a saúde, que comida aceitar ou rejeitar, a ser moderado ao comer e dividir com o aluno a comida que ele próprio receber. Deve encorajar o aluno quando este estiver desanimado e dar conselhos para que ande em boa companhia, que vilarejos e mosteiros frequentar. O professor nunca deve ser indulgente em piadas e conversas tolas com o aluno. Deve ser diligente, cumpridor dos preceitos, digno de respeito e de coração aberto. Deve considerar o aluno como um filho, se empenhar em levá-lo adiante, torná-lo forte em conhecimento, amá-lo, nunca abandoná-lo nos momentos de necessidade, nunca negligenciar nenhuma obrigação e ajudá-lo a retornar ao bom caminho, quando ele vacilar.”

“Oh Rei, há estas dez qualidades de um discípulo leigo. Ele deve compartilhar alegria e tristeza com a Ordem, ter o Dharma como seu guia, se deliciar em doar o quanto for capaz e se empenhar a revitalizar os Ensinamentos, caso estejam em decadência. Deve manter pontos de vista corretos e ser livre da euforia de celebrar festivais, não deve correr atrás de outros mestres para guiar sua vida. Deve vigiar seus pensamentos, palavras e atos, se deliciar na harmonia e ser equilibrado. Por não ser hipócrita, toma Refúgio no Buddha, Dharma e Sangha. Todas estas qualidades estão presentes no Grande Rei, visto que ao ver a decadência da religião do conquistador, o Grande Rei deseja sua prosperidade. Eu permito que me pergunte o que bem desejar.”

1 – HONRARIAS DEDICADAS AO BUDDHA

Então, quando estava pronto, Milinda homenageou o Venerável e, com as mãos juntas em reverência, começou por perguntar:

“Venerável Nágassena, os líderes de outras crenças dizem: “Se o Buddha aceitava receber honrarias e presentes, então, não estava totalmente livre do mundo. Portanto, qualquer serviço prestado a ele se torna vazio e em vão.” Desembarace este ponto de vista errôneo, resolva este dilema e dê percepção aos futuros filhos do Buddha com algo que possam refutar seus adversários.”

“O Abençoado, Oh Rei, é inteiramente liberto e não tem apego nem aos presentes nem às honrarias a ele dedicadas.”

“Venerável Nágassena, um filho pode enaltecer seu pai, ou um pai pode elogiar seu filho, mas isto não é suficiente para silenciar os críticos.”

“Embora o Abençoado tenha falecido e não possam mais dizer que ele aceita presentes e honrarias, ainda assim, as ações praticadas em nome dele são valiosas e geram grandes frutos. Como um grande e poderoso vento que soprou, também o Abençoado passou sobre o mundo com seu amor, tão gentil e puro. Como os homens atormentados com o calor e febre são aliviados pelo frescor do vento, assim, também, os seres atormentados pelo desejo, ódio e desilusão são apaziguados pelos sublimes Ensiamentos do Abençoado. Embora, Grande Rei, o Abençoado tenha desaparecido completamente, deixou atrás de si a doutrina, seus discípulos e suas preciosas relíquias, cujo valor provém de sua virtude, concentração, Saberoria e liberdade. Os seres aflitos pelas tristezas do tornar a ser podem ainda receber benefícios destas coisas, como os que têm leques podem ainda produzir briza, mesmo que o vento não sopre. Isto foi previsto pelo Abençoado ao dizer, “Pode ser, Ánanda, que alguém pense, “A palavra do Mestre terminou; não temos mais nosso Mestre”, mas você não deve dar importância a isto. O Dharma que foi bem ensinado por mim e as regras que eu estabeleci, deixe que estes sejam seus mestres quando eu me for.”

“Ouça outra razão, Oh Rei. Alguma vez já ouviu que o ogro Nándaka, que ousou atacar o Venerável Shariputra, foi engolido pela terra?”

“Sim, Venerável Ser, é do conhecimento de todos.”

“Isto aconteceu com a aquiescência do Venerável Shariputra?”

“Venerável Shariputra nunca teria concordado em causar dor a outra criatura, porque ele já havia destruído a raíz da raiva.”

“Então, se Shariputra não concordou com isso, por que Nándaka foi engolido pela terra?”

“Foi por causa do poder de seus próprios atos maléficos.”

“Quantos, Oh Rei, são os que foram engolidos pela terra?”

“São cinco, Venerável Ser; Tchiñtcha a mulher brahmin (mentiu que estava grávida e que o filho era do Buddha), Suppabuddha o Shákya (sogro do Buddha, pai da Princesa Yashôdhara), Dêvadatta (primo e cunhado do Buddha), Nándaka o ogro (um Yaksha que atacou o Ven. Shariputra com um bastão) e Nanda o Brahman (violentou a Ven. Monja Upalavanna, que era Iluminada) – estes foram engolidos pela terra.”

“E a quem eles fizeram mal?”

“Ao Abençoado e seus discípulos.”

“Portanto, Oh Rei, um ato praticado em nome do Tathágata (o Buddha), embora ele já tenha falecido, é sempre valioso e gera bons frutos.”

“Tal questão foi muito bem explicada pelo Venerável Nágassena. O Venerável descobriu o que estava escondido, desatou o nó, refutou o que era um falso ponto de vista e os sectaristas foram tirados da escuridão pelo Venerável, o melhor líder das escolas.”

2 – A ONISCIÊNCIA DO BUDDHA

“Venerável Nágassena, o Buddha era onisciente?”

“Sim, Oh Rei, mas a percepção do conhecimento não estava sempre com ele. Dependia da reflexão.”

“Então, Nágassena, o Buddha podia ter onisciência, se seu conhecimento era alcançado através da reflexão.”

“Eu vou explicar a seguir. Há sete classes de habilidade mental. Primeiramente, há as pessoas comuns (puthujjána), que são cheias de desejos, ódio e desilusão; destreinadas em suas ações, fala e pensamento; o pensamento delas age devagar e com dificuldade.

“Em segundo, há os que já venceram a correnteza, que atingiram a visão correta e corretamente captaram o Ensinamento do Mestre. Seu poder de pensamento é rápido e funciona facilmente no que se refere aos três grilhões, mas, além disto, funciona devagar e com dificuldade.

“Em terceiro, há os de apenas-um-retorno, nos quais o desejo e o ódio foram reduzidos. O poder de pensamento deles trabalha rapidamente e com facilidade, no que se refere aos cinco grilhões inferiores, mas é lento e com dificuldade no que for além deles.

“Em quarto, há os sem-retorno, nos quais os desejos e ódio já foram completamente eliminados. O poder de pensamento deles é rápido e fácil no que se refere aos dez grilhões, mas ainda lento e difícil no que for além deles.

“Em quinto lugar temos os Arhat (Arahant, em Páli), nos quais as inundações de desejos sensuais, desejo pelo renascimento, crença na personalidade e ignorância já cessaram definitivamente e vivem a vida pura, já tendo alcançado o objetivo final. O poder de pensamento deles funciona rapidamente no que se refere ao alcance de um discípulo mas lento e com dificuldade no que for além disso.

“Em sexto, temos os Pratyêkabuddhas (Patchekabuddha, em Páli), os Buddhas Solitários, que dependeram de si próprios, sem nunca terem tido orientação de algum mestre para atingir a Iluminação. O poder de pensamento deles é rápido no que se refere ao alcance de sua capacidade exclusivamente, mas, no que se refere a um Ser Perfeitamente Iluminado, ainda é lento e com dificuldade. Como um homem que conseguiria prontamente atravessar um pequeno rio no terreno de sua propriedade, mas hesitaria em atravessar o grande oceano.

“Finalmente, há o Buddha Perfeitamente Iluminado (Sammasambuddha) que tem todo o conhecimento, dotado com os três poderes, os quatro modos de ser destemido e as dezoito características de um Buddha. Seu poder de pensamento é rapidamente exercitado, sem titubear em sua área de conhecimento. Assim como uma lança poderosa atravessaria facilmente um tecido fino, também seu conhecimento não tem impedimento algum. Por ser sua mente tão clara e ágil, um Buddha pode realizar os Milagres Gêmeos (emitir simultaneamente fogo e água de todos os poros do corpo, segundo a Tradição.) Daí, podemos ter uma vaga idéia do quanto a mente de um Buddha é clara, ativa e o quanto é poderosa. Por todas essas maravilhas, não há outra razão senão a reflexão para acioná-la.”

“Não obstante, Venerável Nágassena, a reflexão se dá com o propósito de buscar por algo que ainda não estava claro antes dela ter início.”

“Um homem rico não seria chamado de pobre porque a comida ainda não estava pronta quando um viajante chegou inesperadamente à sua casa; tampouco uma árvore seria chamada de podre quando ainda está cheia de seiva, só porque nenhum fruto ainda caiu de seus galhos. Assim, também o Buddha é realmente onisciente, ainda que seu conhecimento seja obtido através da reflexão.”

3 – A ORDENAÇÃO DE DÊVADATTA

“Se o Buddha era ambos, onisciente e totalmente compassivo, por que admitiu Dêvadatta na Ordem, já que ao causar um sisma (que só um Bhikshu poderia causar) ele se condenou a passar um kalpa (kappa, em Páli, equivalente a 4.320.000.000 de anos) no inferno?  Se o Buddha não sabia que Dêvadatta faria isso, não era onisciente e se sabia, não era totalmente compassivo.”

“O Abençoado era tanto onisciente quanto compassivo. Foi porque ele previu que o sofrimento de Dêvadatta seria limitado que o admitiu na Ordem. Assim como um homem influente pode impedir que um criminoso   se livre da execução mas não pode ser responsabilizado se o criminoso tiver as mãos ou pés amputados, nem pelo sofrimento a ele causado, ou assim como um médico pode reduzir os sintomas de uma doença fatal através do uso de medicamentos poderosos, assim fez o Buddha para reduzir o sofrimento de Dêvadatta ao admití-lo na Ordem. Após ter sofrido por um kalpa nos infernos, Dêvadatta se tornou um Buddha Solitário, chamado Atthíssara. (Segundo narra a Tradição Buddhista.)

“Grandioso foi o presente, Venerável Nágassena, do Buddha para Dêvadatta. O Tathágata indicou o caminho quando ele estava perdido na selva, deu-lhe a salvação, quando ele estava caindo de um precipício. Ainda assim, a razão e significado disto somente poderiam ser indicados por um sábio como o Venerável Nágassena!”

4 – AS CAUSAS DOS TERREMOTOS

“O Buddha disse, Venerável Nágassena, que há oito causas para um grande terremoto.  Mesmo assim, encontramos uma nona causa também mencionada nos textos. Quando o Bodhissáttva Vessántara (Bodhisatta, em Páli) completou a perfeição da generosidade (Dána Paramita) ao dar sua esposa e filhos para serem escravos (segundo a Tradição conta) então, também, a terra tremeu. Se a afirmação anterior do Buddha é verdadeira, então a segunda é falsa.”

“Ambas as afirmativas, Oh Rei, são corretas. O presente de Vessántara não foi mencionado como uma nona causa de um grande terremoto porque é uma ocorrência extremamente rara. Assim como um pequeno riacho que às vezes está seco não pode ser chamado de rio, mas, quando há uma excepcional chuva pode se tornar um, assim também o caso de Vessántara foi uma ocorrência isolada e extraordinária e, por essa razão não incluída nas oito causas de um grande terremoto.

“O Grande Rei já ouviu na história do Buddhismo sobre algum ato de devoção que gerou resultados nesta mesma vida?”

“Sim, Venerável Nágassena, há sete destes casos: Sumána, o artesão de guirlandas, Ekassátaka o brahman, Puñña o empregado da fazenda, Malliká a rainha, a rainha conhecida como a mãe de Gopála, Suppiyá, a mulher dedicada e Puññá a menina escrava.”

“Mas, o Grande Rei já ouviu falar de algum terremoto, ainda que só uma ou duas vezes ocorrido quando um presente foi dado?”

“Não, Venerável Ser, nunca ouvi falar disso.”

“Nem eu, Oh Rei, ouvi falar de tal coisa, embora tenha me dedicado a estudar e pronto a aprender, exceto nesse caso do presente explêndido de Vessántara. Não foi por causa de um esforço comum, Oh Rei, que a terra tremeu. É quando sobrecarregada com o peso de uma ação extremamente correta, pressionada pelo superpoder da bondade de uma ação que ateste absoluta pureza; que, incapaz de aguentar o peso, a terra treme. Quando Vessántara deu o presente, Oh Rei, não estava se desfazendo de algo para o benefício de um renascimento glorioso, nem para futuro bem estar, nem para receber um presente em retorno, nem por bajulação, nem por qualquer outro ganho pessoal, mas apenas para a suprema Sabedoria.”