5 – ASSEVERAÇÃO DA VERDADE

“O Rei Sívi deu seus olhos a alguém que os pediu e novos olhos nasceram nele (Isto, segundo a Tradição). Como isto é possível?

“Foi pelo poder da verdade que isto aconteceu. Assim como quando os místicos recitam a verdade a chuva cai, podem fazer retroceder o fogo ou neutralizar um veneno.

“Quando Ashôka, o governante justo levantou-se um dia entre o povo de Pátaliputra e disse aos seus ministros; “Há alguém capaz de fazer o grande Ganges fluir corrente acima?” Então, uma certa cortesã chamada Bindumatí, estava na multidão e praticou um ato de verdade. Naquele exato momento o poderoso Ganges, rugindo e furioso, moveu-se corrente acima, diante dos olhos de todos. O rei, assombrado, procurou pela mulher que havia causado tal fenômeno e perguntou, “Através de que ato de verdade você causou isto?” Ela respondeu, “Quem quer que me pague, seja um brahmin, um nobre, um comerciante ou um servo, é tratado do mesmo modo. Livre de discriminação, eu sirvo igualmente a quem me paga. Esta foi a base do ato de verdade que fez o Ganges fluir corrente acima.”

“Não há uma causa comum para essas coisas acontecerem porque o poder da verdade é, por si próprio, a causa. E não há razão para a percepção das Quatro Nobres Verdades além do próprio poder da verdade.”

6 – O DILEMA SOBRE A CONCEPÇÃO

“O Abençoado disse, Venerável Nágassena, que há concepção no ventre quando três causas coincidem; o coito dos pais, a fertilidade da mãe e um ser gerado que vai nascer. Entretanto, ele também disse que quando o asceta Dukála tocou o umbigo da mulher asceta Páriká com o polegar, o menino Sáma foi concebido. Se a primeira afirmação é verdadeira, então a segunda é falsa.”

“Ambas as afirmações são verdadeiras, Oh Rei, mas não devemos pensar que houve alguma transgressão no segundo caso. Sákka (ou Indra, ou Yama) rei de todos os Dêvas, tendo visto que aqueles virtuosos ascetas se tornariam cegos, providenciou para que tivessem um filho. Entretanto, ele não permitiria a relação sexual, nem mesmo para salvar-lhes as vidas, então, Sákka interveio instruindo Dukála e então Sáma foi concebido.” (Tudo isso, de acordo com o que diz a Tradição.)

7 – A DURAÇÃO DO ENSINAMENTO

“Após a ordenação de mulheres, o Abençoado disse que a doutrina pura duraria apenas por quinhentos anos. Entretanto, para Subaddha  ele diss, “Enquanto o praticante viver a vida pura, então, deste mundo não vão desaparecer os Arahats (Arahants).” Tais afirmações são contraditórias.”

“Oh Rei, o Abençoado fez ambas as afirmações, mas elas são diferentes em intenção e palavras. Uma trata da duração da doutrina pura, enquanto que a outra fala da prática da vida pura, duas coisas amplamente distintas. Ao dizer quinhentos anos ele estava fixando um prazo limite para o Ensinamento mas, ao falar para Subaddha estava declarando do que se consiste o Ensinamento. Se os seguidores do Buddha continuarem a se esforçar e se empenhar nos cinco fatores (Padhána – Confiança, boa saúde, honestidade, energia e Sabedoria), tiverem um sincero desejo dos três treinamentos (Shíla, Samádhi e Prajna – moralidade, concentração e Sabedoria), aperfeiçoando-se na conduta e virtude; então, o glorioso Ensinamento do Conquistador durará e permanecerá ao longo dos anos. O Ensinamento do Mestre, Oh Rei, é a raiz da prática, a prática é a essência e ele dura enquanto a prática não declina.

Há três modos de desaparecimento do Ensinamento. O declínio da obtenção da percepção clara dele, da prática de acordo com ele e o declínio da externalização dele. Quando o interesse pelo intelecto cessa, então, mesmo o homem que se comporta corretamente, não mais tem o claro entendimento. Pelo declínio da prática, promulgação das regras do Vínaya (o Código de Preceitos Monásticos) cessa e apenas a externalização do Ensinamento permanecem. Quando também isto cessa, a transmissão da Tradição é cortada.”

8 – PUREZA DO BUDDHA

“Se o Tathágata destruiu em si mesmo todos os estados impuros quando ganhou a onisciência, como se feriu com um fragmento da rocha que Dêvadatta jogou para atingí-lo? Se ele se feriu, então não poderia estar livre de todo o mal, porque não há sentimento sem karma. Todo sentimento tem origem no karma e é somente por causa do karma que o sentimento surge.”

“Não, Grande Rei, nem todos os sentimentos têm o karma como raiz. Há oito causas para que surjam os sentimentos. Excesso de vento, de bílis ou catarro, a mistura dos três flúidos do corpo, variações de temperatura, estresse circunstancial, agentes externos e karma. Quem quer que diga “é apenas o karma que oprime os seres”, exclui os outros sete fatores e, portanto, a afirmação está errada.

“Quando o vento de alguém é perturbado, isto ocorre por um dos dez meios; pelo frio, pelo calor, pela fome, pela sede, por comer demais, por ficar de pé por muito tempo, pelo esforço exagerado, por correr, por tratamento médico ou como resultado do karma. Quando a bílis é perturbada, isto ocorre por três meios; pelo frio, pelo calor ou por alimentação inadequada. Quando o catarro de alguém é perturbado, isto ocorre isto ocorre por três meios; pelo frio, pelo calor ou por comer e beber. Quando os três flúidos corporais são perturbados e misturados, trazem dores distintas. Então, há dores que surgem pela variação de temperatura, estresse circunstancial e agentes externos. Também há a dor causada pelo karma. Porém, a dor que o karma causa é bem menor que as demais. O ignorante vai longe demais ao afirmar que toda dor experimentada é produzida como fruto do karma. Sem ter a percepção que só um Buddha atinge, ninguém pode dizer com certeza absoluta qual o poder de ação de um karma.

Quando o pé do Abençoado foi ferido pelo fragmento de rocha, a dor foi produzida por agentes externos. Entretanto, o Abençoado nunca sofria de dor causada pelo resultado de seu próprio karma, nem surgida pelo estresse circunstancial. As dores que eventualmente sentiu foram produzidas pelas outras seis causas.

Foi dito, Oh Rei, pelo Abençoado, “Há certas dores, Sívaka (o médico particular do Buddha), que surgem de humores biliares e você tem que saber para que eles são, é uma questão de senso comum. Aqueles ascetas e Brahmans que têm a opinião e proclamam que todos os sentimentos que os homens experimentam vêm de ações prévias, vão além da certeza e do conhecimento e, assim, eu digo que estão errados.”

9 – A PERFEIÇÃO DO BUDDHA

“Se o Tathágata alcançou a plenitude da Iluminação debaixo da Árvore Bôdhi, por que teve que passar três meses em isolamento? Se um homem come até ficar satisfeito, para que mais comida; se um homem é saudável, por que precisaria de tomar remédios?”

“Oh Rei, a meditação solitária traz muitos benefícios. Todos os Tathágatas atingiram a Iluminação por meio dela e a praticaram por causa de seus benefícios para a Humanidade. Há vinte e oito benefícios no isolamento: proteger-se, aumentar a expectativa de vida, vigor físico, diminuir as faltas, remover a má reputação e aumentar a fama, destruir o descontentamento e trazer a satisfação, banir o medo e prover confidência, remover a preguiça e encher a mente com zêlo, remover o desejo, ódio e desilusão, subjugar o orgulho, romper o pensamento discursivo e tornar a mente aguçada, amacia a mente e faz surgir um coração iluminado, traz a seriedade, ganhos materiais, torna o praticante digno de reverência, traz alegria, enche de prazer, mostra a natureza verdadeira de todas as formações, põe fim ao renascimentos e gera os frutos da vida de renúncia. É por ter em mente tais benefícios que o Tathágata seguiu a prática da seclusão.

“Há, no total, quatro razões para o Tathágata ter se dedicado à solidão. Para habitar em tranquilidade, por causa das qualidades irrecrimináveis, porque é o caminho para todas as coisas nobres, sem exceção e porque isto sempre foi elogiado e aconselhado por todos os Buddhas. Não é porque ele ainda tinha algo para ser alcançado ou acrescentado, mas somente por causa das excelentes vantagens da prática em solidão.”

10 – A EQUANIMIDADE DO BUDDHA

“O Buddha disse que, se quisesse, poderia viver pelo resto do ciclo do mundo (um kalpa ou kappa = 4.320.000.000 ou um assankhêya, um período muito maior e incalculável), mas, também disse que poderia morrer no fim de três meses. Como podem ambas as afirmações serem verdadeiras?”

“Kalpa, Oh Rei, neste caso, significa o período de vida de um homem e o que o Buddha disse foi afim de enaltecer as bases do sucesso (iddhipáda). O Abençoado era totalmente livre do desejo por qualquer tipo de vida futura e as condenou dizendo, “Eu não vejo beleza na menor parte da vida futura pois mesmo a menor parte de um excremento tem igual mau cheiro.”

(moeda grega, mostrando o Rei Menandros – Milinda, em Páli)