२५५४ ०६ १७ Sukravár 2554-06-17

A todos, Namaste!

Neste Sutra, tão longo e ao mesmo tempo fascinante, o Buddha nos explica como realiza, passo a passo, o Treinamento Monástico. Assim como serve de guia perfeito e metódico para nós monges e monjas, também é perfeito para o entendimento do praticante leigo sobre como atingir a Iluminação.

Como se não bastasse, o Buddha, com clareza total, menciona as razões que conduzem monges a se perderem no caminho, tornando-se impostores e charlatães, sem que o Buddhismo em si tenha culpa alguma por isso! Além de tudo, o Sutra é um alerta quanto à tentação que as pessoas têm de atribuir ao Buddha poderes salvadores do tipo: “Que o Buddha te abençoe!” ou “Que o Buddha nos ajude!” No Sutra fica bem claro: “O Buddha apenas indica o Caminho”. Nada além disso pode ser feito por ele – cabe a nós percorrê-lo! Vamos ao Sutra:

 

Gánaka Maudgalyána Sutra

(O Sutra para o Contador Maudgalyána)

Reescrito em linguagem simples e explicado entre parênteses

por Bhantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

1. Assim me foi transmitido oralmente. Em certa ocasião o Bhagaván estava em Shrávatthi no palácio da mãe de Migara, no Parque do Oriente. Então o Brâmane (Sacerdote do Hinduísmo) Maudgalyána – o contador (gánaka, em Páli) foi até o Bhagaván e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa amigável e cortês havia terminado, ele sentou a um lado e disse para o Bhagaván:

2. “ Mestre Gáutam, neste palácio da mãe de Migara pode ser observado um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual até o último lance da escadaria. Entre os brâmanes também pode ser observado um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual relativo ao estudo dos Vêdas (escrituras sagradas do Hinduísmo). Entre os arqueiros também pode ser observado um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual relativo ao uso do arco e flecha. Entre os contadores  como nós, que ganham a vida com a contabilidade, também pode ser observado um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual relativo à contabilidade. Porque quando recebemos um aluno primeiro fazemos com que ele calcule: um um, dois dois, três três, quatro quatro, cinco cinco, seis seis, sete sete, oito oito, nove nove, dez dez, e nós também fazemos com que ele calcule até cem. Agora, Mestre Gáutam, também é possível estabelecer um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual em relação ao Dharma e Disciplina ?”

3. “ É possível Brâmane descrever um treinamento gradual, uma prática gradual, um progresso gradual em relação ao Dharma e Disciplina. Tal como, Brâmane, quando um habilidoso treinador de cavalos obtem um magnífico potro puro sangue, ele primeiro faz com que o potro se acostume a usar o cabresto para em seguida acostumá-lo ao treinamento seguinte  – da mesma forma, Brâmane, quando o Tathágata (título que o Buddha usava para referir-se a si mesmo) recebe um discípulo para ser treinado ele inicialmente o disciplina da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, seja virtuoso, contido pelas regras do Pratimôksha (o Código Disciplinar Monástico), seja perfeito na conduta e na sua esfera de atividades, temendo a menor falha, treine adotando os preceitos de virtude.’

4. “Brâmane, quando o Bhikshú treina adotando os preceitos de virtude, então o Tathágata o disciplina mais da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, ao ver uma forma com o olho, não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do olho descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade do olho, empenhe-se na contenção da faculdade do olho. Ao ouvir um som com o ouvido,  não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do ouvido descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade do ouvido, empenhe-se na contenção da faculdade do ouvido.  Ao cheirar um aroma com o nariz não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do nariz descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade do nariz, empenhe-se na contenção da faculdade do nariz.  Ao saborear um sabor com a língua não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade da língua descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade da língua, empenhe-se na contenção da faculdade da língua.  Ao tocar ou deixar-se tocar no corpo não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade do corpo descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade do corpo, empenhe-se na contenção da faculdade do corpo.  Ao perceber um objeto mental com a mente, não se agarre aos seus sinais ou detalhes. Visto que, se permanecer com a faculdade da mente descuidada, você será tomado pelos estados ruins e prejudiciais de cobiça e tristeza. Pratique a contenção, proteja a faculdade da mente, empenhe-se na contenção da faculdade da mente.

5. “Brâmane, quando o Bhikshú guarda as portas dos meios dos sentidos (As Seis Portas dos Sentidos – tato, olfato, paladar, visão, audição e a própria mente), então o Tathágata o disciplina mais da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, seja moderado na alimentação. Refletindo de maneira sábia, o alimento não deve ser tomado como forma de diversão ou para embriaguez, tampouco com o objetivo de embelezamento e para ser mais atraente, somente com o propósito de manter a resistência e continuidade desse corpo, como forma de dar um fim ao desconforto e para auxiliar a vida da Purificação Mental. Considerando: ‘Dessa forma darei um fim às antigas sensações (de fome) sem despertar novas sensações (de comida em excesso) e serei saudável e sem culpa e viverei em comodidade.’

6. “Brâmane, quando o Bhikshú é moderado na alimentação, então o Tathágata o disciplina mais da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, seja dedicado à vigilância. Durante o dia, enquanto estiver caminhando para lá e para cá e sentado, purifique a sua mente dos estados obstrutivos. Na primeira vigília da noite, enquanto estiver caminhando para lá e para cá e sentado, purifique a sua mente dos estados obstrutivos. Na segunda vigília da noite você deve se deitar para dormir, no seu lado direito, na postura do leão (a postura que o Buddha indicou como correta, de lado, com um braço estendido ao longo do corpo e o outro servindo como travesseiro) com um pé sobre o outro, atento e plenamente consciente, após anotar na sua mente o horário para levantar. Após levantar-se, na terceira vigília da noite, enquanto estiver caminhando para cá e para lá e sentado, purifique a sua mente dos estados obstrutivos.’

7. “Brâmane, quando o Bhikshú é vigilante, então o Tathágata o disciplina mais da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, aja com atenção plena e consciência plena. Aja com plena consciência ao ir para a frente e retornar; aja com plena consciência ao olhar para frente e desviar o olhar; aja com plena consciência ao dobrar e estender os membros; aja com plena consciência ao carregar o manto externo, o manto superior, a tigela; aja com plena consciência ao comer, beber, mastigar e saborear; aja com plena consciência ao urinar e defecar; aja com plena consciência ao caminhar, ficar em pé, sentar, dormir, acordar, falar e permanecer em silêncio.’ (a Atenção Plena deve ser praticada a todo instante, não somente durante a meditação sentada ou andando).

8. “Brâmane, quando o Bhikshú possui Atenção Plena e Plena Consciência, então o Tathágata o disciplina mais da seguinte forma: ‘Venha Bhikshú, procure um local isolado: na floresta, à sombra de uma árvore, uma montanha, uma ravina, uma caverna em uma encosta, um cemitério (até hoje, muitos monges vivem em cemitérios, onde praticam o desapego ao corpo), um matagal, um espaço aberto, uma cabana vazia.’

9. “Ele procura um local isolado: na floresta à sombra de uma árvore, uma montanha, uma ravina, uma caverna em uma encosta, um cemitério, um matagal, um espaço aberto, uma cabana vazia. Depois de esmolar alimentos (na ronda diária pelas ruas), após a refeição, ele senta com as pernas cruzadas, mantém o corpo ereto e estabelece a plena atenção à sua frente. Abandonando a cobiça pelo mundo, ele permanece com a mente livre de cobiça; ele purifica sua mente da cobiça. Abandonando a má vontade, ele permanece com a mente livre de má vontade, compadecido pelo bem-estar de todos seres vivos; ele purifica sua mente da má vontade. Abandonando a preguiça e o torpor, ele permanece livre da preguiça e do torpor, percebendo a luz, e plenamente consciente; ele purifica sua mente da preguiça e do torpor. Abandonando a inquietação e a ansiedade, ele permanece calmo com a mente em paz; ele purifica sua mente da inquietação e da ansiedade. Abandonando a dúvida, ele assim permanece tendo superado a dúvida, sem perplexidade em relação a qualidades mentais hábeis; ele purifica a mente da dúvida.

10. “Tendo assim abandonado esses cinco obstáculos, imperfeições da mente que enfraquecem a Sabedoria, um Bhikshú afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, entra e permanece no primeiro jhana (os quatro “jhanas” são níveis alcançados durante a meditação), que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um Bhikshú entra e permanece no segundo jhana, que é caracterizado pela segurança interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. Abandonando o êxtase, um Bhikshú entra e permanece no terceiro jhana que é caracterizado pela felicidade sem o êxtase, acompanhada pela atenção plena, plena consciência e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: ‘Ele permanece numa estada feliz, equânime e plenamente atento.’ Com o completo desaparecimento da felicidade, um Bhikshú entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a atenção plena e a equanimidade purificadas.

11. “Brâmane, esse é o meu Ensinamento para aqueles Bhikshús que estão no Treinamento Superior da Disciplina Mental, cujas mentes ainda não atingiram o objetivo, que permanecem aspirando pela segurança suprema contra o cativeiro (do apego a este mundo). Para aqueles Bhikshús que são Arahants (já iluminados em vida), com suas impurezas destruídas, que viveram a vida da Purificação Mental, fizeram o que devia ser feito, depuseram o seu fardo, alcançaram o verdadeiro objetivo, destruíram as algemas da existência, e estão completamente libertados através do conhecimento supremo essas coisas conduzem tanto a um refugio prazeroso aqui e agora como também à Atenção Plena e Consciência Plena.”

12. Quando isto foi dito, o Brâmane Gánaka Maudgalyána perguntou ao Bhagaván: “Quando o Mestre Gáutam instrui e aconselha aos seus discípulos dessa maneira, todos eles realizam Nirváña, o objetivo final, ou alguns não realizam? “

“Brâmane, quando eles são assim instruídos e aconselhados por mim, alguns realizam Nirváña, o objetivo final, e alguns não realizam. “

13. “Mestre Gáutam, já que Nirváña existe e o Caminho que leva a Nirváña também existe e o Mestre Gáutam está presente como guia, qual é a causa e a razão pela qual quando seus discípulos são assim instruídos e aconselhados pelo Mestre, alguns realizam Nirváña , o objetivo final, e alguns não realizam? “

14. “Em relação a isso, Brâmane, eu lhe farei uma contra pergunta. Responda como quiser. O que você pensa Brâmane ? Você conhece a estrada que leva a Rajagriha?” (a poderosa capital do Reino de Magádha)

“Sim, Mestre Gáutam, eu conheço a estrada que leva a Rajagriha.”

“O que você pensa Brâmane? Suponha que uma pessoa que quisesse ir a Rajagriha se aproximasse e dissesse : ‘Senhor, eu quero ir a Rajagriha. Mostre-me a estrada para Rajagriha.’ Então você diria: ‘Veja Senhor, essa estrada leva até Rajagriha. Siga a estrada por algum tempo e você verá um certo vilarejo, siga um pouco adiante e você verá uma certa cidade, siga um pouco adiante e você verá Rajagriha com seus belíssimos parques, bosques, jardins e lagos.’ Então tendo sido assim aconselhado e recebido essas instruções de você, ele toma a estrada errada e vai para o Oeste. Suponha que uma segunda pessoa que quisesse ir a Rajagriha se aproximasse e dissesse : ‘ Senhor, eu quero ir a Rajagriha.’ Então você diria: ‘Veja senhor, essa estrada leva até Rajagriha. Siga a estrada por algum tempo e você verá um certo vilarejo, siga um pouco adiante e você verá uma certa cidade, siga um pouco adiante e você verá Rajagriha com seus belíssimos parques, bosques, jardins e lagos.’ Então tendo sido assim aconselhado e recebido essas instruções de você, ele chega com segurança a Rajagriha. Agora Brâmane, já que Rajagriha existe, que o caminho que leva a Rajagriha existe e você está presente como guia, qual é a causa e a razão porque quando essas pessoas tendo sido instruídas e aconselhadas por você, uma delas toma a estrada errada e vai para o Oeste enquanto que a outra chega com segurança a Rajagriha?”

“O que posso fazer a respeito disso Mestre Gáutam ? Eu sou apenas quem mostra o caminho.”

“Da mesma forma Brâmane, Nirváña existe e o Caminho que leva a Nirváña existe e eu estou presente como guia. No entanto quando meus discípulos foram assim instruídos e aconselhados por mim, alguns realizam Nirváña, o objetivo final, e alguns não realizam. O que posso fazer a respeito disso Brâmane? O Tathágata é apenas quem mostra o Caminho.”

15. Quando isto foi dito o Brâmane Gánaka Maudgalyána disse para o Bhagaván: “Existem pessoas que não possuem auto-confiança e que deixaram a vida em família pela vida da Purificação Mental não pela confiança nos Ensinamentos mas em busca de um modo de vida, que são fraudulentas, enganadoras, traidoras, arrogantes, vazias, vaidosas, com a linguagem rude, com a língua solta; descuidadas das faculdades dos sentidos, sem moderação no comer, sem se dedicar à vigilância, que não se interessam pelo isolamento, sem grande respeito pelo Treinamento da Disciplina Mental, luxuriosas, descuidadas, líderes em decair, negligenciam o isolamento, preguiçosas, carentes de energia, sem Atenção Plena, desatentas, sem concentração, com as mentes distraídas, desprovidas de Sabedoria, tolas. Mestre Gáutam não convive com essas pessoas.

“Existem membros de clãs que deixaram a vida em família pela vida da Purificação Mental pela auto-confiança, que não são fraudulentos, enganadores, traidores, arrogantes, vazios, vaidosos, nem com a linguagem rude, nem com a língua solta; cuidam das faculdades dos sentidos, com moderação no comer, se dedicam à vigilância, se interessam pelo isolamento, com grande respeito pelo Treinamento Mental, não são luxuriosos ou descuidados, são perspicazes em evitar decair, lideres no isolamento, energéticos, decididos, com a Atenção Plena estabelecida, plenamente conscientes, concentrados, com as mentes unificadas, com Sabedoria, Sábias. Mestre Gáutam convive com essas pessoas.

16. “Da mesma forma como a raiz da íris negra é considerada como contendo o melhor perfume entre as raízes e o sândalo vermelho é considerado como o melhor perfume entre as madeiras e o jasmim é considerado o melhor perfume entre as flores, da mesma forma os Ensinamentos do Mestre Gáutam são os melhores entre os ensinamentos atuais.

17. “Magnífico, Mestre Gáutam ! Magnífico, Mestre Gáutam ! Mestre Gáutam esclareceu o Dharma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Eu busco Refúgio no Mestre Gáutam no Dharma e na Sangha dos Bhikshús. Que o Mestre Gáutam se recorde de mim como um discípulo leigo que nele buscou Refúgio pelo resto da vida