२५५४ ०६ २३ Guruvár 2554-06-23

A todos, Namaste!

  Laos é um desses países dos quais talvez só ouçamos falar nas aulas de Geografia na escola… Mesmo quando falamos da Ásia, é obscurecido por nomes como Japão, China, Coréia, Cingapura ou Tailândia. Meu primeiro contato foi quando, após 3 meses morando na Tailândia, me vi às voltas com a renovação de minha permanência – teria que sair e regressar com o passaporte carimbado, me assegurando uma nova estadia de três meses. Acabei morando no Laos por seis meses!

Minhas opções de saída eram a distante Malásia ou o Laos que, embora burocraticamente complicado, é mais próximo e, com certeza, mais barato. Assim, após um complicado processo de pedido de visto na Embaixada do Laos em Bangkok, me preparei para a viagem de trem, cortando o nordeste da Tailândia e atravessando a “ponte da amizade” que passa sobre o famoso rio Mekong e leva até Vientianne, a capital do pequeno país.

Quem conhece a Tailândia, se esperar encontrar no Laos o mesmo nível de desenvolvimento, vai se decepcionar! Aliás, a principal razão do turismo no Laos é justamente por NÃO TER os atrativos do país vizinho… Tudo é simples, extremamente simples no Laos! Subjugado há anos por um terrível sistema comunista e vítima de sucessivas guerras e troca de colonizadores, sendo a França o principal deles, o pequeno país perdeu, ao longo da história, várias chances de se desenvolver e talvez até a vontade de progredir!

Vientianne, nome francês da capital, é uma cidade pequena, às margens do Mekong, com características bastante peculiares… Nela se encontra o prédio mais alto DO PAÍS, um hotel recém-construído, com 15 andares… Isso mesmo! O prédio mais alto do Laos e único com essa altura, tem apenas 15 andares. Todas as demais construções na capital não chegam a 4 andares, incluindo os inúmeros hotéizinhos e pensões, sempre lotadas de turistas. Muitas ruas ainda são de terra batida e viram um rio de lama com as fortes tempestades da estação chuvosa.

Ao longo das ruas e nos pequenos becos das transversais, pequenas lojas e quiosques parecem abandonados quando entramos para comprar algo. É preciso olhar por cima do balcão e gritar para acordar os vendedores que costumam por colchonetes atrás dos balcões das lojas e dormir até que alguém entre na loja.

Os templos do Laos não tem nem metade do esplendor de seus vizinhos tailandeses. Na maioria, precisam de reformas, pinturas e incentivo do governo para voltarem a ser bonitos. No principal deles, o chamado TEMPLO DO BUDDHA ESMERALDA, no altar principal falta a imagem que dá nome ao templo, já que há muitos anos foi roubada como troféu de guerra pela Tailândia que mantém a imagem na versão deles do Templo do Buddha Esmeralda, em Bangkok, símbolo nacional da Tailândia.

A vida monástica é bastante difícil no Laos. Viver somente de doações num país tão pobre requer muito desapego e a ajuda constante de alguns leigos mais afortunados que tenham compaixão suficiente para adotar um templo, enviando comida todos os dias e mantendo as contas pagas. Se não for assim, só a tradicional ronda de mendigar alimentos não rende mais que arroz puro e, nos feriados buddhistas, alguns biscoitos postos em nossas tigelas pela população nas ruas.

Não há ônibus urbanos, nem táxis. Todo o sistema de transporte para quem não tem carro ou moto (são centenas) é feito por TUK-TUK, um transporte de massa bastante popular na Ásia e os preços têm que ser previamente barganhados com o motorista que, invariavelmente, engana os estrangeiros.

Nada de McDonald´s nem outros “fast-foods” e, se você pensa que a Coca-Cola é consumida em todos os países do mundo, errou! NÃO EXISTE coca-cola no Laos! Mas a Pepsi sim! Onde quer que você vá, vai ouvir: “Não temos coca-cola, só pepsi!”  Contraditoriamente, na capital se encontra restaurantes dos mais variados tipos – comida mexicana, italiana, francesa, japonesa. É bem verdade que há apenas um pequeno restaurante de cada culinária, mas isso não desmerece a diversidade e são todos limpos e bem decorados.

Se você não gosta de SHOPPING CENTRES, o Laos é perfeito para você, porque não tem nenhum… Tudo o que alguém precisa comprar é encontrado no TALÁT SÁO (Mercado da Manhã) que, apesar do nome, funciona o dia todo. É um enorme galpão com pequenas lojinhas e quiosques onde se compra desde ervas medicinais das mais estranhas até televisores, geladeiras e computadores – todos de origem e qualidade duvidosas. Me lembro que, certa vez, fui com três noviços comprar material de limpeza para o templo. Quando ainda estava barganhando o preço com a moça da loja, a piaçava do esfregão simplesmente se desprendeu do cabo e caiu no chão! Calmamente, a moça olhou e disse: “Você pode usar um preguinho para consertar depois…” Esse é o Laos!

Na única agência de correios na capital, o Correio Central, formam-se longas filas entre meio-dia e uma hora da tarde…É o intervalo do almoço e os funcionários, diante da estupefação dos turistas, tiram seus sapatos e, calmamente, se deitam sobre as mesas para uma sesta básica de uma hora…

Tudo é lento, tudo é burocrático e complicado num país que tem uma população muito sorridente e simpática! O Comunismo controla tudo, nos menores detalhes. Funcionários e espiões do governo estão por toda parte, até mesmo fazendo visitas regulares aos muitos templos buddhistas, onde não se tem nem mesmo o direito de ensinar o Buddhismo!

Vi vários templos que estão “caindo aos pedaços”. Foram trancados, lacrados pelo governo e os monges estão presos simplesmente por “incitarem a população contra o sistema” ou seja: ensinaram o Dharma (Ensinamentos do Buddha) à população. Mesmo se apenas nós monges nos reunirmos para estudar as Escrituras, isso é considerado proibido e, consequentemente, sujeito a repressão e cadeia.

Durante todo o período que morei no Laos, esbarrei em inúmeros obstáculos que foram minando minha motivação para continuar lá. Muitas foram as vezes em que a polícia me parou na rua, pedindo meu passaporte para controle do visto. Eles não conseguem entender que exista monge “com cara de gringo”. Para eles, todo monge buddhista tem que ser asiático e, o tempo todo achavam que eu era um espião, provavelmente americano!

Todas as iniciativas minhas de desenvolver trabalhos sociais foram sabotadas pela burocracia do governo e, até uma simples biblioteca de livros buddhistas que tentei abrir num galpão no pátio do templo foi impedida porque, até para isso, é preciso pedir permissão ao governo, o que demoraria cerca de dois anos, com muita sorte! Acabei doando os mais de 200 livros para uma escola que, com relutância, acabou aceitando a doação.

O Laos é um país lindo, extremamente barato – a moeda KIP é utilizada sempre na casa dos milhares – uma latinha de pepsi-cola custa 5.000 Kip – e tem um dos povos mais simpáticos que conheci na Ásia. A nível de comparação, é como um nordeste brasileiro em versão asiática. Lá, come-se bem, gasta-se muito pouco e ainda existe a possibilidade de relaxar em uma atmosfera simples como já não existe na Tailândia, mantendo o mesmo exotismo que se espera ao ir à Ásia.

Assim é o Laos, um pequeno país buddhista, onde o Buddhismo é reprimido… Um lugar onde a simplicidade forçada pelo Comunismo é propaganda turística e a felicidade é controlada sob pena de prisão.

(Um TUK-TUK típico do Laos e Tailândia)

Fiquem todos em Paz e protegidos

सुनन्थो भिक्षु

Bhantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ