२५५४ ०७ १ Sukravár 2554-07-01

A todos, Jwajalapá!

esde que nascemos, antes mesmo de aprendermos a falar, começamos a demonstrar nossas vontades… O bebê chora, berra e mexe as perninhas freneticamente até que a mãe – desesperada – descubra o que ele quer e o atenda. Sem entender a linguagem do bebê, ela tem que esgotar todas as possibilidades: hora de mamar? fralda molhada? dor de ouvido? Só quando acerta, aliviada, vê o filhinho parar de chorar. Nossas opiniões e conceitos vão ficando cada vez mais fortalecidos à medida que crescemos e a própria sociedade nos estimula a sermos assim! Uma pessoa sem opinião própria é fraca, uma “Maria vai com as outras!”

No convívio familiar e social, vamos absorvendo o que nos é passado como certo, errado, aceitável, inaceitável, ético, anti-ético etc. e nos apegamos a milhares de conceitos como sendo parte de nossas vidas e, muitas vezes achamos que são O ÚNICO CAMINHO CORRETO, todo o resto é estranho, errado, ridículo, imoral, escandaloso, feio e diversos outros rótulos. Soma-se a isto, um forte conceito ILUSÓRIO de que existe um EU, um ego, uma individualidade, detentora e PROTETORA de todos esses conceitos: EU penso assim, EU sou assim, esta é a MINHA opinião…

Assim, toda vez que algo aparece diante de nós de forma diferente do que conhecemos e fugindo aos nossos padrões conceituais, isso nos assombra, nos desagrada ou desconcerta e a reação imediata é de auto-defesa, procurando direto nossos padrões comportamentais para nos proteger do inusitado. Se o “incompreensível” se aproximar e tentar contato, nos armamos numa situação defensiva, sempre baseada em nossos próprios conceitos e valores adquiridos.

É bastante fácil saber quais são os temas que não devemos abordar, porque são óbvios demais que conduzem a discussões inúteis ou até à violência física – tentar provar que seu time de futebol é melhor que o time de outra pessoa, por exemplo, é uma grande perda de tempo! Convencer um fanático religioso de que deus não existe também é motivo certo de conflito, assim como tantos outros temas, inclusive as tolas e vazias discussões sobre partidarismo político…

Qualquer pessoa cheia de conceitos imutáveis e iludida com a existência de um EU IMUTÁVEL sempre estará disposta a se aborrecer e irritar com um discussão! Na maioria das vezes, são pessoas que sabem superficialmente uma série de coisas e nenhuma delas a fundo! O Buddha sempre nos incentivou a investigarmos profunda e detalhadamente qualquer matéria que seja realmente válida e merecedora de estudo. Após o estudo, devemos verificar se o que analisamos se aplica às nossas vidas e, somente quando comprovado, aceitar como válido. Mas, infelizmente, as pessoas que seguem esse Ensinamento são poucas e, mesmo os buddhistas “de workshop de fim de semana” se pegam discutindo tolices com a autoridade de quem sabe tudo!

Discutir é tentar, à força, fazer com que alguém passe a aceitar nossos conceitos e a sensação de vitória ao sair de uma discussão é causada pela ilusão do ego: “EU venci a discussão! Consegui convencer fulano sobre meu ponto de vista!” A pessoa fica realizada, se sente feliz, certa de que ganhou alguma coisa ao impor suas idéias.

Como monge, já faz algum tempo que aprendi a não discutir, mesmo que eu esteja absolutamente certo sobre meu ponto de vista! Simplesmente, NÃO VALE A PENA discutir! Não leva a absolutamente nada! Daí você pode perguntar: “Como eu faço então para evitar uma discussão?” Bem… Primeiramente, é necessário estar totalmente consciente de que não existe um EGO que vai sair vencedor da discussão. Depois, é preciso saber que a pessoa, pronta a se confrontar, está cheia de conceitos e opiniões que, já sabemos, divergem das nossas e não vão ser mudadas… Cientes disso, podemos ouvir a pessoa, suas razões, seu universo sócio-cultural e seus valores… Podemos até mesmo ir até um certo ponto, a título de conversa ou aprendizado… Quando a conversa chega a um grau de divergência provocativa, intencional e convidativa para um bate-boca, então é hora de encerrar! Como fazer? Basta dizer: “Fulano, eu não vou discutir com você!” A esse ponto, a pessoa já estará inflamada o suficiente para provocar, se exaltar, se irritar… O correto é continuar calmo, repetindo a mesma frase – EU NÃO VOU DISCUTIR COM VOCÊ! Não importa o que a pessoa diga para nos atingir, é fundamental manter a calma e repetir unicamente a mesma frase…

Após algum tempo de alteração e raiva, a tendência é que a pessoa se acalme e veja o papel ridículo que está fazendo, tão exaltada diante de alguém que permanece calmo e sem disposição para bater boca! Na pior das hipóteses, iludida com a existência de um EGO VITORIOSO, a pessoa vai pensar: “Esse tolo sabe que estou certo e não tem argumento para me vencer, por isso não quer discutir!” Sentindo-se “vitoriosa” a pessoa vai encarar nosso silêncio como nossa derrota e a discussão vai se esvaziar… Não tem problema que ela se sinta assim – é problema dela! Para nós, que sabemos que não existe um EU – não há vitória em brigar e bater boca… A verdadeira vitória está em silenciar e não se exaltar! Todo o resto, é apenas desgaste, risco de perder amigos, alimentar a ilusão de um Ego e um grande apego a conceitos e idéias que são efêmeras e totalmente relativas!

Discutir nunca vai fazer bem a ninguém, a começar por nós mesmos! Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Bhantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ