२५५४ ०७ ०५ Mangalvár 2554-07-05

A todos, Namaste!

ecentemente, a Arquiteta Viviane, responsável pelo Projeto Arquitetônico do Universal Dhamma Vihara, mostrou interesse em entender mais sobre o VAZIO DE TODAS AS COISAS que é um dos fundamentos do Ensinamento Buddhista (chamado de Dharma) que costuma confundir muito as pessoas, principalmente ao primeiro contato com o que o Buddha nos ensinou. Estou me referindo ao SHUNIYATA, o VAZIO ABSOLUTO. A palavra SHÚNIYA é, nas línguas indianas, traduzida como ZERO, ausência absoluta e SHUNIYATA, significa ausência total de individualidade, ausência absoluta de um EGO permanente, tanto nas coisas como em todos os seres vivos. É para a Arquiteta Viviane este SHASTRA, explicação sobre um Sutra.

Treinados que somos a acreditar, desde que nascemos, na existência de um Ego, de uma individualidade, fica quase impossível passar a crer no contrário, mas foi exatamente isso que o Buddha nos provou: não existe individualidade, mas sim uma série de fatores e condições de interdependência de tudo o que existe. É isso que tentarei explicar nesta matéria…

Veja, por exemplo, uma mesa ou qualquer peça de sua mobília feita de madeira. Na natureza, você não encontra mesas ou armários no meio da floresta… Então, o que hoje convencionamos chamar disto ou daquilo, é um mero referencial. A madeira que hoje você utiliza como mobília, precisou de um bom marceneiro para que fosse moldada, lixada, envernizada, colada etc. até se tornar a peça que hoje embeleza sua casa. Então, mesmo como mesa, já é formada de uma série de elementos – cola, verniz, talvez tinta… Porém, antes disso foi madeira em estado bruto e indo mais atrás, foi árvore… Se você pensa que a árvore é o estado inicial da sua mesa, está enganado, porque a árvore não teria existido se não fossem uma série de fatos e condições… A árvore não existiria se não fosse por causa da água, sol, terra, nutrientes, sombra, ar e muitos outros fatores. Para se tornar árvore foi necessário que a semente chegasse ao solo, conduzida pelo vento, com a queda da fruta no solo ou até transportada no cocô de algum animal ou passarinho! Portanto, não foi à toa que surgiu, do nada, uma árvore… Ela teve que contar com uma série de causas e condições que, após se combinarem, permitiram sua existência como árvore. Muito bem… Mas uma árvore é composta de celulose, fibras, clorofila e sei lá quais outros elementos – não sou botânico nem biólogo – mas sei que uma árvore não é composta de um único elemento, invariável e imutável… Também sei que, se UM e apenas um desses tantos elementos for retirado da árvore, ela vai morrer ou nem chegaria a existir. Portanto, muito antes de ser mobília, a árvore já era totalmente dependente de milhares de coisas para existir, assim sendo, sua mesa só existe por causa do sol, do cocô do animal, dos nutrientes da terra, da quantidade de chuva, sombra, vermes que fertilizaram o solo e coisas a se perderem na conta! Onde está, então, a individualidade de sua linda mobília se ela não existiria sem tantas coisas?

O mesmo ocorre com tudo o que existe na natureza, no Universo! Um copo não foi sempre do jeito que você o vê… Já foi areia e a areia já foi montanha que se dissolveu através de milhares de anos, condicionada às condições da erosão – vento, ar, umidade, água etc. Qualquer coisa que você encontrar a seu redor estará sujeita às mesmas leis das causas e condições! Nada, absolutamente nada existe isoladamente, independente e imutavelmente… Tudo está sujeito à interdependência, à mutabilidade e, em última análise, tudo é vazio, porque depende da combinação constante de elementos para existir e, a qualquer momento que um desses elementos formadores se desassociarem, a coisa deixa de existir!

Indo mais além, vamos agora falar de VOCÊ... Não é só a mesa ou o copo que estão sujeitos a todas essas combinações de causas e condições para existir. VOCÊ, eu e todos os seres vivos também seguimos as mesmas regras. Somos formados por uma infinidade de elementos que, se não forem combinados EXATAMENTE na quantidade certa, causará uma desarmonia que pode nos levar ao desaparecimento, à dissolução de nosso corpo, o que convencionamos chamar de MORTE… Portanto, morrer – algo que apavora a maioria das pessoas – é simplesmente a realidade da desassociação dos elementos que, quando estavam em perfeita harmonia e união, nos mantinham funcionando – ou “vivos”, se preferirem.

Se não há nada de individual, nada que não seja interdependente e nada que permaneça existindo após a desassociação, então, como podemos achar que existe um EU, permanente e imutável??? Se não existe, e, me parece que isso ficou bem claro, então, somos UM VAZIO ABSOLUTO, somos SHÚNIYA, conforme o Buddha descobriu e sempre nos alertou.

Continuamos e sempre continuaremos dependendo da harmonia entre todas as coisas que nos cercam – condições ambientais favoráveis, quantidade certa de nutrientes, manutenção de nossos elementos vitais e tantas coisas mais. É essa total interdependência, que quando alterada, abalada ou excluída nos faz deixar de existir, que o Buddhismo chama de AUSÊNCIA DE EGO e, quando analisada com profundidade, é totalmente lógica e compreensível. Analisada desta forma, se nada existe de permanente, individual e imutável, nada existe que realmente seja digno de APEGO e é justamente esse DESAPEGO a todos e a tudo o que existe que o Buddha nos orientou a seguirmos, como o único Caminho para a Iluminação! Enquanto não formos capazes de entender a profundidade deste Ensinamento e nos iludirmos, nos apegando a coisas desprovidas de individualidade, totalmente condicionadas a uniões instáveis e passageiras, tomando-as como se fossem eternas e imutáveis, estaremos condenados a constantes estados de inquietação mental (Dukkha) porque nos manteremos enganados de que as coisas que amamos são eternas quando na verdade estão nos deixando, fugindo de nós a cada segundo, assim como nós mesmos estamos nos separando de tudo aquilo que nos quer bem, porque estamos em constante estado de desassociação, decadência, desaparecimento. Só quando somos capazes de entender a NATURALIDADE deste fato e encontrarmos nele o verdadeiro CONTENTAMENTO, estamos prontos para viver em harmonia neste mundo tão interdependente.

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Bhantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ