२५५४ ०७ ०८ Sukravár 2554-07-08

A todos, Jwajalapá!

ma das mais místicas partes dentro da Tradição Theraváda lida com a existência de diversos SUPOSTOS’ buddhas, anteriores a SHAKYA MUNI, ou SIDDHARTTH GÁUTAM, conhecido e historicamente comprovado como O BUDDHA. Ainda segundo a crendice tradicional Theravada, há uma lista de 28 buddhas que são reverenciados em um festival nos templos. Tal lista se refere até mesmo a TRINTA buddhas, tendo como critério a inclusão do próprio O BUDDHA e de seu futuro sucessor, hipoteticamente, “o buddha do futuro”, chamado de MAITREYA. Tentar esclarecer esta grande confusão e explicar a razão de eu NÃO INCLUIR TAL CRENÇA no Buddhismo Theravada Brasileiro que criei é a intenção desta matéria. Vamos ver. Hà uma ênfase especial para um certo buddha chamado DÍPANKARA (em Páli e Sânscrito)  “Aquele que carrega a lamparina”, em Chinês 燃燈佛 (Rándēng Fo); em Tibetano  མར་མེ་མཛད། mar me mdzad; e no Nepal दिपंखा Dīpankhá. Não me perguntem o porquê de ele nem ao menos ser o primeiro da tal linhagem sucessória de buddhas (há quatro anteriores a ele), mas, segundo a Tradição, teria havido um encontro entre esse buddha e um antigo renascimento daquele que se tornou O BUDDHA que reconhecemos como o Fundador do Buddhismo. No suposto encontro, um homem chamado SUMÊDHA teria se prostrado aos pés de Dipankhá que revelou a ele seu futuro, afirmando que ele, num futuroa se perder de vista, se tornaria o Príncipe Siddhartth Gáutam e, posteriormente, O Buddha. Teria até mesmo revelado detalhes do futuro renascimento, mencionando o pai do Buddha, seu Clã e até o nome de seus principais monges – Shariputra e Maudgalyána…

O buddha Dipankhá é venerado por muitos buddhistas na Ásia e, como não poderia deixar de ser, a superstição o transformou numa espécie de “santo protetor” de vendedores e comerciantes em geral no Nepal, Taiwan e Tailândia. Geralmente mostrado de pé nas imagens, vem acompanhado dos Bodhisattvas MANJUSHRI*(representação convencional da Sabedoria Plena) e OLOKITISSARÔ* (em Páli, ou Avalokiteshvára, a personificação da Compaixão Plena). Um detalhe interessante é que uma das estátuas gigantes, explodidas pelos radicais Talibãs em 2001, chocando o mundo todo, era do buddha Dipankhá.

Quanto ao supostamente “buddha do futuro”, acredita-se que ele esteja numa das dimensões paralelas à nossa, chamada de TUSHÍTA onde está completando a purificação de sua mente para, finalmente ter seu último renascimento entre nós como buddha. Ainda segundo a Tradição – compartilhada por todas as formas de Buddhismo, esse renascimento acontecerá quando o Buddhismo estiver totalmente enfraquecido e prestes a desaparecer no mundo. O buddha Maitreya virá para reestabelecer o DHARMA (Ensinamento Buddhista) no mundo…

Agora vejamos qual a minha opinião: Um “festival de crendices totalmente desnecessárias”! Apenas fruto da imaginação fértil da Ásia antiga e totalmente sem fundamento histórico ou arqueológico, essa contagem de buddhas como se fosse uma linhagem de reis, não tem nada de verdadeiro, muito menos de produtivo em termos de PRÁTICA e PURIFICAÇÃO MENTAL que conduza ao Nirváña! Além disso, a própria Tradição se contradiz ao afirmar que, ENTRE UM BUDDHA E OUTRO, se passa  o período de tempo de PELO MENOS UM KALPA, uma unidade de tempo equivalente a QUATRO BILHÕES, TREZENTOS E VINTE MILHÕES de anos, o que significaria “o tempo que o Universo todo leva para se auto-destruir e se reconstruir”, dentro da Tradição da antiga Índia! Portanto, mesmo que fôssemos procurar algo de científico ou matemático nessa confusão dos 28 buddhas, a estória toda seria desmentida de imediato, porque nosso planetinha insignificante em relação ao Universo não tem todo esse tempo de existência… Se algo não pode ser comprovado na prática e não traz benefício algum para nosso CULTIVO MENTAL, o conselho do próprio Buddha é de que seja descartado, não seguido, desacreditado. Portanto, no Buddhismo Theravada Brasileiro, seguindo a instrução do Mestre, eu rejeito a crendice nesses buddhas – tanto os “anteriores” quanto o “futuro buddha”. Há coisas muito mais urgentes e imediatas a fazer no Buddhismo do que perder tempo contando buddhas imaginários ou esperando a suposta vinda de um buddha salvador do Dharma! O Buddhismo está forte e em expansão no Ocidente e, embora cheio de tolices na Ásia, graças a bons monges que mantêm centros de meditação e templos onde o verdadeiro DHARMA está seguro e protegido, não há razão para temer o fim do Buddhismo naquele continente.

Perder tempo venerando buddhas que nem podemos afirmar que realmente existiram não é Sábio. Menos inteligente ainda é santificar o mero fruto da imaginação dos antigos. Praticar o Buddhismo verdadeiro é ser capaz de INVESTIGAR profundamente os Sutras (escrituras) com a lucidez suficiente para peneirar a areia da fantasia e o cascalho da crendice e descobrir o ouro do DHARMA, a verdade imortal e poderosa que o Buddha tanto se empenhou em nos deixar como herança. No Ocidente, onde somos cada vez mais condicionados a crer em fatos reais e rejeitar qualquer tipo de perda de tempo, em prol de um capitalismo voraz, se sairmos por aí dizendo que cremos em buddhas que viveram há bilhões de anos, estaremos nos expondo ao ridículo numa Sociedade onde já somos minoritários e, de certa forma, “exóticos”. Temos que nos esforçar para conhecer a fundo a mensagem do Buddha e a praticarmos… Novamente estudar a fundo e, uma vez verificar se ela se enquadra em nossas vidas e é salvadora. Assim, estudando, averiguando e pondo em prática, seguimos adiante, sempre à LUZ DA SABEDORIA, sem nos deixarmos poluir nem encobrir a clareza de nossa visão com tolices e coisas desnecessárias. Só assim o Buddhismo continuará forte e os futuros buddhas (incluindo aqui a nós mesmos) não terão que se preocupar com nenhuma “Missão Salvadora do Dharma”.

Fiquem todos em Paz e protegidos!

* Para quem não sabe, a Tradição Theravada não aceita a influência dos chamados Bodhissattvas na prática do Buddhismo e no Buddhismo Theravada Brasileiro eu incluí a presença APENAS desses dois Bodhissatvas – Manjushri e Olokitissarô (Avalokiteshvára) como simples lembretes a nós mesmos de que devemos cultivar a Sabedoria e a Compaixão ilimitadas e incondicionais. Não há veneração nem culto a essas imagens.

(Meramente a título de curiosidade, segue abaixo a Lista dos 30 Buddhas, de acordo com a crendice asiática)

1 – Tañhánkara 2 – Medhánkara – 3 – Sarañánkara  4 – Dipánkara 5 – Kondañña 6 – Mángala 7 – Sumána 8 – Rêvata 9 – Sobhita 10 – Anomadássi -11 – Páduma  12 – Nárada 13 – Padumúttara 14 – Sumêdha 15 – Sujáta – 16 – Piyadássi 17 – Átthadassi 18 – Dharmadassi 19 – Siddhartth (não é O Buddha) 20 – Tíssa 21 – Phússa 22 – Vipássi – 23 – Sikhi  24 – Vessabhú  25 – Kakussándha 26 – Koñágamana 27 – Káshyapa 28 – SHAKYA MUNI (SIDDHARTTH GÁUTAM – O BUDDHA) 29 – Maitreya (“o buddha do futuro”)