२५५४ ०७ २१ Bihibár 2554-07-21

A todos, Jwajalapá!

ntes de falar sobre o que um buddha é ou deixa de ser, é importante esclarecer, na ótica buddhista, quem somos e que posição ocupamos dentro do mundo em que vivemos. Só assim seremos capazes de entender corretamente o que é um buddha, desfazendo uma série de dúvidas e interpretações erradas, mesmo dentro de algumas linhagens de Buddhismo.

Longe de ser o “dono da verdade” e sem aspiração alguma de passar a ser, minha explicação é de acordo com as Escrituras e a lógica inalterável do Buddhismo. Vamos lá! Um ponto em comum a todas as Tradições Buddhistas afirma que todos os seres vivos do Universo existem há uma infinidade de tempo que se perde no passado como prisioneiros do que chamamos de SAMSARA. Isto nos torna companheiros de uma viagem que não sabemos (e nem vem ao caso!) como começou, já que qualquer tentativa de pesquisa, por mais científica que fosse, resultaria em mera especulação e total perda de tempo.

O Samsara, também chamado de RODA DOS RENASCIMENTOS, nos conduz de uma vida para outra, sempre impulsionados pela Lei do Karma, que é, numa explicação simples, um processo natural e autocomandado (não há nenhum ser superior ou divino que a controle) que contabiliza todas as nossas boas e más ações, desconsidera as neutras e, canalizando a energia resultante de tais atos, nos remete a uma das possibilidades (boas ou ruins) de renascimento. Isto ocasiona que, como únicos responsáveis por nossas ações e seus consequentes resultados, ora renasçamos como seres inferiores – sujeitos a um sofrimento profundo, ora como seres mesquinhos e disformes, ora como um dos milhões de seres animais de nosso planeta, ora como formas mais favoráveis – em dimensões paralelas à nossa, no que chamamos de Dêvas ou seres “celestiais” ou Ashúras (“Semi-deuses”) em constante estado de beligerância… Ocasionalmente e, sempre movidos pela energia kármica (de nossas ações), temos a felicidade de um renascimento HUMANO.

Segundo o Buddhismo, unica e somente na forma HUMANA temos as condições ideais para o Cultivo Mental, a Purificação de nossa mente, fator inalienável da busca da ILUMINAÇÃO. Muito bem… O que é então se ILUMINAR? Se iluminar é a etapa final, a “saída de emergência” que nos tira do Samsara! Se iluminar é romper DEFINITIVAMENTE com o círculo de renascimentos onde todos os seres são companheiros de prisão. E é justamente quando temos a grande oportunidade de renascer na forma Humana que nossa existência tem a medida certa de alegrias e tristezas para discernirmos o que é certo e o que é errado e nos empenharmos no Cultivo Mental. Infelizmente, um animal, por mais amigo, leal e companheiro que seja, não tem cultivo mental suficiente para ouvir um Ensinamento como o Dharma, assimilá-lo e colocá-lo em prática. Somente quando se esgotar o efeito kármico que o levou a renascer como animal e, então, evoluir para um renascimento humano, ele tentará (ou não!) cultivar a mente…

Esperando ter ficado claro que, só com o renascimento HUMANO podemos nos Iluminar, vejamos então o que é um buddha: Num processo contínuo da prática de virtudes – compaixão, amor incondicional, equanimidade em nossos conceitos, paciência, alegria de viver e alegrar-se com o sucesso alheio e energia para não esmorecer na prática, vamos nos aperfeiçoando a ponto de não mais renascermos em outra forma que não a Humana. Uma vez seguros de que não mais decairemos dentro do Samsara, seguimos em frente, vida após vida, sempre tendo a certeza do único renascimento que nos conduz à Iluminação. Assim, o que não nos for possível atingir na vida presente, a energia de nosso bom karma nos levará a reiniciar do ponto onde paramos, no renascimento Humano seguinte e assim sucessivamente.

Vejam bem! Não estou falando aqui de algo instantâneo, simples, rápido, mas sim de um “trabalho de formiguinha”, ao qual devemos nos dedicar, com disciplina e diligência, porém sem mortificação, sem sacrifícios exaustivos e, lembrem-se: nada de obstinação e apego à idéia de Iluminação rápida, pois isto é contrário ao processo de Purificação Mental: TODO APEGO, MESMO QUE SEJA À IDÉIA DE SE ILUMINAR, É UM OBSTÁCULO!

Um buddha, nada mais é que um praticante das virtudes que Purificam a mente que, após milhares e milhares de renascimentos dedicados a se libertar do Samsara, finalmente atingiu seu objetivo – o Estado Mental de Nirváña, ou seja, a Iluminação da própria mente, por esforço próprio, sem qualquer tipo de ajuda superior! Portanto, um buddha alcança o estado mental onde NADA, absolutamente NADA mais altera sua paz infinita.  A mente de um buddha está totalmente livre de qualquer conceito e é exatamente por isso que é iluminada e pode realmente descansar, porque não tem mais nenhum resquício de dualidade.

As pessoas que não entendem isso, pensam que o Buddha pode nos proteger, pode “ouvir nossos apelos” e intervir em nosso favor quando nossa situação está desfavorável. Nada disso é possível! O Buddha já morreu e, mesmo quando em vida, ainda neste mundo, já não tinha esse tipo de atitude porque não é próprio da mente búddhica ter conceitos “não-iluminados”, tais como pena, raiva, paixão, ciúme e todas essas emoções que ainda mantemos em nossas mentes!

Diante do que vimos acima, fica fácil entender a visão errada de quem diz: “Fulano é um buddha reencarnado!” Ora, ora… Se tornar-se um buddha é a libertação total e definitiva do Samsara, da Roda de Renascimentos, como seria possível um buddha renascer??? SE RENASCE, não é buddha, se é buddha, NÃO RENASCE! As duas situações são antagônicas, não podem acontecer! É importante saber destes fatos e tê-los sempre claros em nossa mente, não só para sermos capazes de esclarecer aos não-praticantes do Buddhismo que têm tanta curiosidade (natural) sobre essas questões, mas também para manter lúcida nossa mente de praticantes do Buddhismo, afinal, se a libertação total da Roda de Renascimentos é o objetivo final de todo buddhista, se continuarmos a crer que buddhas renascem, não vale a pena nem começar a prática, afinal, cairíamos de volta no mesmo lugar, então, é melhor nem tentar sair dele!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ