२५५४ ०७ २४ Ravibár 2554-07-24

 A todos, Namaste!

 questão da culpa está relacionada a apego e à existência de um ego. Desfazer-se de toda e qualquer forma de apego e negar a existência de um ego são características fundamentais do Buddhismo. Entendo por culpa, um sentimento incômodo, desagradável e até angustiante que alguém carrega por ter feito ou deixado de fazer algo para si próprio ou para outro alguém.

Quando analisamos esse tipo de sentimento, vemos que ele está condicionado a um EU, que fez ou deixou de fazer algo e se sente mal, carregando consigo um peso incômodo que pode atormentar alguém até pela vida toda. Não há nada de útil ou benéfico em sentir culpa! Aliás, quanto menos nos apegarmos à idéia errada de que existe um EU, mais fácil será não sentir culpa, porque se não há um alguém, absoluto e imutável que praticou ou deixou de praticar determinada ação, obviamente não há quem ser culpado por isso! Quanto mais alguém se recrimina e amargura pelo sentimento de culpa, mais forte é nessa pessoa o conceito de um EU que deve ser punido até se livrar da culpa ou carregá-la para sempre, o que também seria uma forma de autopunição!

É preciso ver, com atenção, o que seria o equivalente buddhista para culpa, afinal, se você agir errado em relação a alguém, deve ter consciência disso e, não é pelo simples fato de ser buddhista que, no dia seguinte pode encontrar a pessoa a quem prejudicou ou magoou e simplesmente não dizer nada, como se nada tivesse acontecido! Todos nós temos uma espécie de “alarme” que toca em nossa mente quando praticamos ou deixamos de praticar o que é correto. Ninguém é tão inconsequente a ponto de não saber o que é certo e errado, dentro dos vários conceitos sociais que estabelecem esses valores. No Buddhismo, a palavra HIRÍ significa VERGONHA e AHÍRIKA é o oposto, um “desavergonhado“, mas no bom sentido, significando alguém que NÃO TEM MOTIVO para sentir vergonha, pois sempre age corretamente.

HIRI é justamente esse sentimento quando o tal “alarme” soa, nos avisando de que “pisamos na bola”, falhamos em relação a nós mesmos ou em relação a outra pessoa. Isso não deve se transformar em um sentimento pesado e angustiante, mas sim na análise consciente e sincera de que não deveríamos ter agido dessa forma. Uma vez conscientes disso, é o bastante que procuremos a pessoa magoada ou atingida e, de coração aberto, usando da verdade, nos retratemos e – muito importante: nos comprometamos a evitar ao máximo repetir o ato censurável. Feito isso, com alegria e serenidade, apenas deixamos cair ao longo da estrada o incidente, aprendendo com ele a cultivar ainda mais a Atenção Plena para que não se repita! Tão simples quanto isso!

O mesmo deve ser praticado quando o que fizemos foi em relação a nós mesmos. Muitos de nós carregam culpas capazes de tornar suas vidas totalmente infelizes! É o conceito falso e ilusório de um Ego que praticou ou deixou de praticar algo tão terrível que não são capazes de esquecer… O apego que as leva a carregar tal sentimento é tão forte que obstrui qualquer chance de mudança.

Quando somos capazes de trabalhar isso com serenidade e Sabedoria em nossas mentes, veremos que também podemos deixar isso cair ao longo do Caminho… Afinal, quanto menos peso alguém leva nos ombros, mais fácil a caminhada se torna.  O “segredo” para se livrar do excesso de peso, passa pela Sabedoria em, com Atenção Plena, estar sempre alerta para os falsos conceitos que formamos e dos quais nos é tão difícil de nos separarmos. A constante lembrança de que nada é permanente e imutável – a começar por nós mesmos – portanto nada é digno de que acumulemos em nossas vidas através do apego facilita em muito o processo de “deixar cair”, se possível sem nem olhar para trás, evitando a vontade traiçoeira de voltar e pegar de volta! Uma dica para cultivar a mente alerta é substituir as nossas tradicionais expressões: “DESCULPA!” e “ME DESCULPE!” que, literalmente significam “tire de mim a culpa que carrego comigo!” por outras mais significativas, como “SINTO MUITO!” ou “LAMENTO O QUE EU FIZ!” Praticando esse tipo de pequenas mudanças no modo de falar, estaremos lembrando a nós mesmos que não temos culpa alguma a carregar, apenas a confiança de que não mais faremos aquilo que magoou ou prejudicou a nós mesmos e aos outros.

Entendendo que não existe culpa, nossa vida se torna mais leve, mais confiante e, com certeza muito mais alegre!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ