२५५४ ०७ २७ Budhabár 2554-07-27

A todos, Jwajalapá!

AKSHA é uma das formas de existência na Roda dos Renascimentos (Samsára) na qual somos prisioneiros. Também conhecidos como Semi-Deuses, na imagem da imaginação tradicional buddhista, são figuras gigantescas, monstruosas e que passam a vida toda brigando e procurando motivo para fazer guerras. Não só combatem outros seres como vivem brigando entre si. Alguns deles, entretanto, são capazes de ouvir o Dharma e tornarem-se protetores do Buddhismo. Por esta razão, é comum ver estátuas de Yakshas protegendo a entrada dos templos asiáticos. Quem sabe um dia poderemos ter uma dessas representações guardando os portões do Universal Dhamma Vihara?

No Sutra a seguir, o Buddha vai pernoitar numa caverna que já era habitada por um Yaksha. O encontro dos dois e a conversa que se segue, é um exemplo da paciência e humildade do Buddha (mas, ser paciente e humilde não torna alguém submisso e tolo!) e mais uma grande exposição do Dharma! Vamos ao Sutra!

ÁLAVAKA SUTRA

(O Sutra para Álavaka)

Traduzido do Inglês em linguagem simples e explicado entre parênteses

pelo Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

Assim me foi transmitido oralmente. Certa ocasião o Bhagaván foi pernoitar numa caverna habitada por um Yaksha de nome Álavaka em Alaví. Então, percebendo a chegada do Bhagaván, o Yaksha aproximou-se e disse:

– Caia fora, shrámana (praticante da Purificação Mental)!

– Pois não, amigo! Disse o Bhagaván, dirigindo-se para a saída da caverna.

– Volte para dentro, shrámana!

– Pois não, amigo! Disse o Bhagaván, voltando para dentro.

– Caia fora, shrámana! Mandou o Yaksha pela segunda vez.

– Pois não, amigo! Foi a resposta do Bhagaván, indo em direção à boca da caverna.

– Volte aqui, shrámana! Tornou a ordenar o Yaksha Álavaka.

– Pois não, amigo! Concordou o Bhagaván, ao entrar novamente na caverna.

– Caia fora, shrámana! Pela terceira vez Álavaka ordenou que o Buddha saísse.

– Pois não, amigo! Com paciência o Bhagaván se encaminhou para a saída.

– Vem aqui, shrámana! Mandou o Yaksha.

– Pois não, amigo! Concordou o Bhagaván, novamente entrando na caverna.

Ainda uma quarta vez, Álavaka o Yaksha mandou:

– Caia fora, shrámana!

Mas, desta vez o Buddha disse:

– Não! Não vou sair, Yaksha. Tente fazer comigo o que bem quiser, mas não vou sair!

O Yaksha então disse:

– Vou lhe fazer uma pergunta, shrámana e, se não for capaz de me responder, vou confundir sua mente, rasgar seu coração, pegá-lo pelos pés, de cabeça para baixo e arremessá-lo ao mais distante “oceano”. (A palavra usada no texto é “ánnavam”, onde oceano é usado no sentido metafórico, referindo-se ao “oceano dos renascimentos”, o Samsára. O Yaksha achou que seria capaz de retroceder o Buddha de volta ao ciclo dos renascimentos)

–  Bem, amigo, eu não consigo ver alguém, nem no mundo dos Dêvas (deuses) nem Humanos, com seus praticantes da Purificação Mental, que seja capaz de confundir minha mente, rasgar meu coração, nem me pegar pelos pés de cabeça para baixo e me arremessar no distante “oceano”. Mesmo assim, amigo, pergunte o que quiser.

Então, Álavaka o Yaksha perguntou em verso ao Bhagaván:

– Qual a melhor fortuna de um homem?

O quê, quando bem praticado traz a felicidade?

Qual o melhor de todos os sabores?

Qual dos modos de se viver é o melhor?

– A auto-confiança é a melhor fortuna de um homem.

Quando bem praticado, o Dharma traz a felicidade.

A verdade, com certeza é de todos os sabores o melhor.

Com Sabedoria é o melhor modo de se viver.

O Yaksha:

– Como atravessa alguém as correntezas?

Como atravessar o “oceano” da existência?

Como pode ser Dukkha para sempre extinto?

Como purifica alguém a si próprio?

(A palavra “ôgha” em Páli, usada no texto como metáfora para “correnteza”, tem quatro divisões: a correnteza dos prazeres sensuais, a correnteza do voltar a existir, a correnteza dos pontos de vista incorretos e a correnteza da ignorância)

O Bhagaván:

– Através da auto-confiança se atravessa as correntezas.

Com diligência o “oceano” é atravessado.

Com esforço contínuo Dukkha é extinto para sempre,

Através da Sabedoria alguém purifica a si próprio.

Álavaka, o Yaksha:

– Como sai vitoriosa a Sabedoria de alguém?

Como é obtida a riqueza?

Como alguém famoso pode se tornar?

Como pode-se a amizade conquistar?

Como pode alguém sem tristeza viver,

Como pode alguém deste mundo para outro partir?

O Bhagaván:

– Quem tem a Mente Atenta e discernimento,

E no Dharma deposita sua confiança,

Através da vontade real de praticar o Dharma

Com Sabedoria atinge o Nirváña.

Quem tem estratégia e energia,

E, pelo próprio esforço faz riqueza,

Através da verdade torna-se famoso

E da doação faz amizades.

Aquele que confia e é digno de confiança,

Virtuoso, firme e feliz por fazer doações,

Pela virtude destas quatro condições,

Nunca verá lamento na vida seguinte.

Verdade e controle mental,

Generosidade e tolerância,

São os maiores reformadores do Homem,

Se acha que há algo melhor,

Pergunte a outros Purificadores da Própria Mente.

Álavaka o Yaksha:

– Por quê perguntaria eu a mais alguém,

Quando hoje mesmo aprendi,

Sobre o bem-estar do aqui e do porvir?

Foi para meu próprio bem-estar

Que o Buddha hoje veio a Alaví,

Um presente sempre gera bons frutos,

Também isso hoje eu aprendi.

De aldeia em aldeia,

De cidade em cidade, a partir de hoje andarei.

Elogiando o Supremo Buddha

E o Dharma por ele tão bem exposto.

Após dizer estes versos, o Yaksha continuou:

Excelente, Nobre Gáutam, excelente é o seu Ensinamento! Como se um homem tivesse desvirado algo que estava de cabeça para baixo, revelado o que estava oculto, apontado a direção para quem estava perdido, trazido uma lamparina a óleo para um local escuro, para que aqueles que têm olhos pudessem ver os objetos. Deste modo, foi o Dharma tão bem declarado de tantas formas pelo Venerável Gáutam!

Hoje eu tomo Refúgio no Venerável Gáutam, no Dharma e na Sangha (Comunidade Monástica) do Venerável Gáutam. Possa o Venerável me aceitar como seu discípulo leigo que nele tomou Refúgio, a partir de hoje, enquanto durar minha vida.

(Dois Yakshas, em estilo Tailandês, no pátio interno do Wat Phra Keao – Bangkok)