२५५४ ०७ २९ Sukrabár 2554-07-29 

A todos, Namaste!


  Buddha, conseguiu estabelecer um Ensinamento que há quase 3.000 anos permanece entre nós, vivo e atuante, aliviando as ansiedades e inquietações de milhões de pessoas no mundo todo e, não há dúvida de que o Buddhismo e sua mensagem salvadora ainda permanecerão entre nós durante muito tempo.

Uma coisa, no entanto, o Buddha tentou mas não conseguiu mudar: O Sistema de Castas! Tão fortemente enraizado na cultura daquela região do planeta, mesmo proibido pelas leis modernas e com governos cientes de que dividir pessoas, desde o nascimento, em diferenças sociais imutáveis e hereditárias é uma vergonha para qualquer nação que queira fazer parte do cenário mundial, o Sistema de Castas consegue se esquivar da legislação, se disfarça, se camufla e continua vivo!

“Papagaio come milho, periquito leva a fama!” Diz o ditado. Assim, a Índia leva a fama negativa de país onde sobrevive esse sistema injusto e infundado. O que a maioria das pessoas não sabe é que ele está presente em outros países, como Bangladesh, Nepal e até mesmo no SRI LANKA, país que tanto se orgulha em ter acolhido o Buddhismo como Ensinamento da grande maioria de sua população. Sim… Infelizmente, o Sri Lanka também tem, velado e escondido debaixo do Dharma do Buddha, um forte ranço do Sistema de Castas e isto é tão claro que chega a afetar até mesmo o Monasticismo daquele país. Saibam que há TIPOS ESPECÍFICOS e separados de Templos Buddhistas onde as pessoas da classe dos “sem casta”, os chamados DÁLIT, podem receber ordenação monástica sem precisarem “se misturar” com colegas monges considerados “normais”, por não serem Dálit!

O Sistema de Castas, que já foi mencionado anteriormente neste Blog, determina, simplesmente baseado em crença religiosa e, obviamente, sem nenhuma sustentação genética ou de qualquer outro tipo de ciência, que as pessoas nasceram de diferentes partes do corpo do deus Brahmá. Assim, Da boca de deus saíram os Reis e Brahmins – os Sacerdotes, detentores da cultura religiosa, versados nos Vêdas, as Escrituras Sagradas do Hinduísmo e também a sofisticada casta dos Generais e outros Militares, com a privilegiada função de proteger o país e invadir outros reinos.

Dos braços de deus saíram todos os comerciantes, trabalhadores e homens de negócio em geral, que tem a nobre função de manter a economia funcionando e, obviamente, geram riqueza para as castas superiores.

Dos pés de deus nasceram os escravos, os trabalhadores braçais, que fazem todo tipo de serviço necessário, mas que ninguém quer pegar… Varredores de rua, limpadores de banheiros públicos, todos os serviçais. Formam a classe inferior da sociedade.

Para quem pensa que este é o nível mais baixo desse sistema tão discriminador, está enganado! Só aí chegam os DÁLIT, que, segundo a tradição, nasceram DA POEIRA ABAIXO DOS PÉS de deus e, portanto, são totalmente SEM CASTA, não fazem parte da sociedade. São tão desprezíveis e repugnantes que, se APENAS A SOMBRA de um Dálit passar sobre a comida de alguém de uma das castas, a comida deve ser jogada fora, porque está contaminada!

Felizmente, para alívio da espécie humana, várias frentes de batalha têm combatido esse preconceito primitivo e cruel. “Bollywood”, a indústria cinematográfica indiana de Mumbai, muito mais poderosa que Hollywood, de onde satirizou o nome, vem produzindo muitos filmes que, aos poucos, vão minando a resistência preconceituosa de muitos aspectos da sociedade indiana. Filmes que mostram casamentos por amor, entre jovens modernos, em vez dos famosos casamentos arranjados, onde a noiva e o noivo só se conheciam no momento da cerimônia. Filmes onde mulheres usando jeans podem trabalhar em empregos normais e não precisam passar o dia carregando água do poço, trabalhando duro e se embelezando para receberem seus maridos no final do dia. E, principalmente, filmes sabiamente elaborados onde, aqui e ali, um Dálit se une a pessoas de outras classes sociais e interage com eles, normalmente em situações que favorecem o interesse nacional contra algum especulador estrangeiro.

No segundo país mais populoso do planeta, com espectadores na casa dos milhões por dia (o cinema é a grande mania nacional), os cinemas na Índia abrem as portas às SEIS DA MANHÃ, para que o público (exclusivamente masculino, porque não é apropriado para mulheres) possa assistir os filmes ANTES de ir trabalhar, pois começam o expediente às nove da manhã… Assim, em doses homeopáticas, Bollywood vai influenciando a sociedade indiana, fazendo com que ela repense seus valores, se abra para a mentalidade mundial, sem que perca o orgulho de ser indiana, já que é a maior indústria cinematográfica do mundo.

Também o Buddhismo tem desempenhado um papel muito importante na mudança dos valores e contribuído em muito para acabar com a vergonha do Sistema de Castas. O método usado tem sido bastante simples: Ordenação Monástica!

Agindo como missioários entre as classes mais baixas e, sem medo de se aproximar dos Dálit, os monges Theravada e tamém os Lamás Tibetanos têm, com muita coragem, divulgado o Dharma e transformado em monges os sem-casta! Na sociedade indiana, ser monge buddhista, mesmo que o Buddhismo ainda seja minoritário e não muito expressivo, é sinal de que a pessoa pertence a um grupo digno de respeito.

O Buddha, na cultura indiana, é considerado como o NONO AVATÁR do Deus Vishnú, portanto, um monge que segue o Buddha é um devoto de Vishnú, portanto, merece respeito e uma posição social! É com base nisto que, pouco a pouco, milhares de Dálits tem,anualmente, recebido ordenação e, finalmente, atingido um patamar social que, sem a ajuda do Buddhismo, seria inconcebível! É um trabalho longo, “de formiguinha” e que, certamente, nunca poderá abolir por si só o Sistema de Castas, mas, pouco a pouco, unindo esforços e usando de truques eficazes, há esperança de que um dia todo esse horror preconceituoso acabe. No Sutra a seguir, uma das muitas tentativas do Buddha de mostrar à sociedade de sua época o quanto o Sistema de Castas é infundado. Vamos ao Sutra!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

VASSÁLA SUTRA

(O Sutra Sobre os Sem Casta)

Traduzido em linguagem simples

pelo Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

Assim me foi transmitido oralmente. Certa ocasião, o Bhagaván estava passando um tempo em Shrávasthi, no parque de Jetavaná, no monastério que lhe foi doado pelo milionário Anathapindíka.Então, antes do meio-dia, o Bhagaván vestiu seu sanghatí (manto superior), pegou sua tigela de mendigar alimentos e entrou na cidade para buscar comida. Naquele momento, um fogo estava queimando e uma oferenda para o deus Brahmá estava sendo preparada na casa de um Brahmin (da casta dos Sacerdotes Hindús) chamado Agguikabháradvádja. Então, o Bhagaván, enquanto mendigando alimento, entrou na propriedade do Brahmin. O sacerdote hindú, vendo o Bhagaván se aproximar, irritado, tratou de mandá-lo embora: “Fique aí, monge, não se aproxime, monge miserável, saia daqui, sem casta!

Ao ouvir isto, o Bhagaván (com toda a calma e voz baixa) disse ao Brahmin: “Você sabe, Oh Brahmin, quem é um sem casta e que condições tornam alguém um sem casta?”

– Não, na verdade, não sei. (O Brahmin ficou envergonhado ao ver que tinha se referido ao Buddha daquele modo grosseiro e resolveu mudar seu discurso). Diga-me Venerável Gáutam, que explicação do Dharma tem para me dar para que eu possa saber quem é e que condições fazem de alguém um sem casta.

– “Ouça, então, Brahmin e preste atenção. Eu vou falar.

– Sim, Vantê (Venerável Senhor), respondeu o Brahmin.

– Quem quer que se irrite, acolha no coração o ódio e tenha dificuldade em falar coisas boas aos outros. Tenha pontos de vista pervertidos, enganosos – saiba que é um sem casta.

Quem quer que, neste mundo, mate seres vivos, nascidos uma ou duas vezes, nele não há compaixão pelos seres vivos, saiba que é um sem casta.

Quem quer que destrói e invade aldeias e lugarejos e se torne um conhecido opressor, saiba que é um sem casta.

Esteja na aldeia ou na floresta, quem quer que pegue o que não lhe pertence e não lhe tenha sido dado pelo legítimo dono, saiba que é um sem casta. (O Buddha aqui se refere à quebra do Segundo Preceito de todo leigo buddhista – não pegar para si o que não lhe foi oficialmente dado.)

Quem quer que, de fato tenha feito uma dívida e fuja quando cobrado, dizendo “Eu não devo nada a você!”, saiba que é um sem casta.

Quem quer que se oculte e mate uma pessoa de emboscada numa estrada, para pegar e roubar o que quer que ela tenha, saiba que é um sem casta.

Aquele que, para seu próprio bem, ou para o bem dos outros ou para conseguir fortuna, pronuncia mentiras quando chamado para testemunhar, saiba que é um sem casta.

Quem quer que, forçado ou com consentimento, se associa às esposas dos parentes ou dos amigos, saiba que é um sem casta.

Quem quer que possua bens e não sustente o pai e a mãe quando já estão idosos, saiba que é um sem casta.

Quem quer que maltrate ou perturbe, mesmo que seja com palavras ofensivas, o pai, a mãe, o irmão, a irmã, a sogra ou o sogro, saiba que é um sem casta.

Quem quer que, quando perguntado sobre o que é bom, diz o que é pernissioso e responde de modo evasivo, saiba que é um sem casta.

Quem quer que tenha cometido uma maldade, deseja que ninguém saiba disso e comete outra maldade em segredo, saiba que é um sem casta.

Quem quer que tenha ido para outra casa, convidado para uma refeição e não convide o anfitrião para uma refeição em retribuição, saiba que é um sem casta.

Quem quer que pronuncie palavras para mentir para um Brahmin ou outro alguém que esteja no Caminho da Purificação Mental, saiba que é um sem casta.

Quem quer que, quando um Brahmin ou outro alguém que esteja no Caminho da Purificação Mental chega na hora da refeição, mendigando comida e o maltrate e expulse com palavras agressivas e não ofereça algo para comer, saiba que é um sem casta.

Quem quer que, neste mundo, movido pela ignorância, fale palavras agressivas ou use da falsidade, esperando ganhar algo, saiba que é um sem casta.

Quem quer que, levado pelo orgulho, exalte a si próprio e menospreze os outros, saiba que é um sem casta.

Quem quer que tenha tendência a se irritar, é miserável, tem desejos pelas coisas do mundo, é egoísta, desavergonhado e não tenha medo de praticar o mal, saiba que é um sem casta.

Quem quer que ofenda o Buddha ou um discípulo do Buddha, seja ele um monge ou leigo, saiba que é um sem casta.

Quem quer que ainda não tenha atingido o Estado Mental da Iluminação, não seja um Iluminado, finja que já se iluminou, é um ladrão em qualquer ponto do Universo, é o mais baixo dos sem casta.

Não é através do nascimento que alguém se torna um sem casta; também não é através do nascimento que alguém se torna um Brahmin. Através de seus atos alguém é um sem casta. Por seus atos alguém se torna um Brahmin.

Saiba você, pelo exemplo que agora vou dar, o fato de que não é pelo nascimento que alguém se torna sem casta. Havia o filho de um sem casta, Sôpaka, que se tornou conhecido como Matanga.

Esse Matanga alcançou a fama mais difícil de se obter. Muitos foram os Kshatriyas (a casta dos guerreiros e militares) e Brahmins que vinham procurá-lo.

No alto da Carruagem Celestial (figurativo para O Nobre Caminho Óctuplo), correndo livre das paixões do mundo, pela estrada, Sôpaka, agora um monge, atingiu o Reino de Brahmá, ao desistir de todo apego pelos prazeres do mundo.

Seu nascimento inferior não o impediu de renascer num plano mais elevado. Há Brahmins que nascem na família de preceptores dos Hinos dos Vêdas (as Escrituras Sagradas do Hinduísmo)

Muitas vezes são vistos cometendo más ações. Mesmo nesta vida são desprezados, na próxima vida vão renascer nos maus estados da existência. Um bom nascimento não evita que alguém caia nos estados malignos nem livre da censura.

Não é pelo nascimento que alguém se torna um sem casta; não é por nascimento que alguém se torna um Brahmin. É através de suas ações que alguém se torna um sem casta. É através de suas ações que alguém se torna um Brahmin.

Quando ouviu estas palavras do Buddha, o Brahmin Agguikabháradvádja disse:

Excelente, Nobre Gáutam, excelente é o seu Ensinamento! Como se um homem tivesse desvirado algo que estava de cabeça para baixo, revelado o que estava oculto, apontado a direção para quem estava perdido, trazido uma lamparina a óleo para um local escuro, para que aqueles que têm olhos pudessem ver os objetos. Deste modo, foi o Dharma tão bem declarado de tantas formas pelo Venerável Gáutam!

Hoje eu tomo Refúgio no Venerável Gáutam, no Dharma e na Sangha (Comunidade Monástica) do Venerável Gáutam. Possa o Venerável me aceitar como seu discípulo leigo que nele tomou Refúgio, a partir de hoje, enquanto durar minha vida.

 

 (Uma favela só para Dálits, na cidade de Patna)