२५५४ ०८ ०७ Ravibár 2554-08-07

A todos, Jwajalapá!

uaisquer que sejam seus hábitos, tanto os BONS quanto os RUINS – diminua-os! É um conselho buddhista que muita gente não entende. Afinal, se estou fazendo algo bom, por quê devo diminuir? A maioria das pessoas acha que devemos cortar apenas os maus hábitos. O que pouca gente se lembra é que também os bons hábitos geram apegos, conceitos, raízes, enfim – tudo aquilo que é obstáculo para a Iluminação.

O Buddha nos alertou de que qualquer apego, mesmo que seja ao IDEAL DE NOS ILUMINARMOS é, em potencial, um obstáculo para a Iluminação. Assim, o treinamento verdadeiro para a Purificação Mental consiste de, gradativamente, nos apegarmos de toda e qualquer forma de DUALIDADE. Tarefa difícil, com certeza! Desde que nascemos, somos condicionados a pensar com dualidade… Bebês do sexo feminino são vestidas de cor de rosa (ou “pink” como insistem algumas pessoas atualmente…) enquanto que meninos só podem usar roupas azuis ou, na pior das hipóteses amarelo, para não desperdiçar as roupas dadas na incerteza de que sexo seria o bebê!

A partir daí, nossas vidas são um verdadeiro festival de conceitos dualísticos – uns socialmente impostos, outros adquiridos por vontade própria. Bom X ruim, caro X barato, bonito X feio, gostoso X ruim, doce X amargo e uma infinidade de opiniões, idéias, conceitos e PRÉ- conceitos que formam nossa mentalidade e comandam nossas decisões.

Quanto menos conceitos tivermos a respeito das coisas, mais próximos estaremos da Iluminação! Não pensem com isto que todos devemos nos tornar “Maria vai com as outras”, sem opiniões próprias! Estou me referindo a não nos apegarmos tanto às nossas idéias, tornando-as imutáveis, inflexíveis e motivo de briga e discórdia por causa das coisas que acreditamos. Vivemos num mundo onde exércitos inteiros invadem outro país, pelo simples fato de impor determinada cultura, considerada correta. Isso é baseado no conceito de que sua cultura é superior, melhor, correta, a única aceitável e, se outro país ou povo não pensa assim, você tem o direito de impor sua opinião, à força!

O mesmo se refere a pontos igualmente sensíveis, como sexualidade, comportamento social, hábitos alimentares e tantas outras coisas. Na Europa atual, começa a se espalhar a lei que proíbe as mulheres muçulmanas de usar a BURKA (aquela roupa escura que cobre o corpo todo, deixando visíveis apenas os olhos) nas ruas e locais públicos, sob pena de pagamento de severas multas! Mesmo que sejam cidadãs do país e não estrangeiras, as muçulmanas francesas e agora também da Bélgica, têm que se submeter a essa lei! Longe de ser conservadorista ou puritano, vejo aqui um caso de violação da individualidade, um desrespeito a uma crença e não vem ao caso se algumas muçulmanas estão “agradecendo a Allah” porque querem vestir jeans e camiseta em vez da Burka! O fato é que grande parte das mulheres vê nesse traje, para nós primitivo e torturante, uma vestimenta normal, que as mantém dignas e puras aos olhos de deus, de acordo com a religião que seguem. Obrigá-las a andar sem a Burka é como obrigar alguém, por lei, a andar nú na rua, obrigar homens a andar vestidos de mulher, obrigar mulheres a andar com os seios expostos ou qualquer absurdo parecido.

No mundo atual, em vez de nos desfazermos de tantos conceitos, cada vez mais estamos impondo à força nossas idéias sobre os mais frágeis. O desrespeito às minorias aumenta à medida que nos apegamos ás nossas próprias idéias e, cada vez mais beligerantes, nos vemos no direito de impor aos mais fracos o que achamos correto.

A mente iluminada só é atingida quando somos capazes de nos desapegar de todo e qualquer conceito. Ao contrário do que muita gente pensa, a mente do Buddha não JULGAVA o certo e o errado! Para o Buddha, nada dessas coisas tinha importância. A mente de um buddha está constantemente em PAZ ABSOLUTA exatamente por ter se libertado de conceitos – os mesmos que, para nós, ainda são tão importantes e queridos, a ponto de matarmos em nome deles!

A vida se torna mais leve, mais fácil, mais SÁBIA quando não somos tão ferrenhos em defesa das coisas que acreditamos e vemos com naturalidade as diferenças, a diversidade, a pluralidade de idéias… O Buddha era capaz de analisar, baseado na COMPAIXÃO TOTAL E VERDADEIRA (Karuná, em Páli) e AMOR TOTALMENTE ALTRUÍSTA (Mettá, em Páli) o comportamento de todos os seres vivos. O fato de ser capaz de entender o quanto cada pessoa ainda era limitada e, desta forma, ser capaz de aconselhar e ensinar, não significa que o Buddha ainda fosse apegado a conceitos dualistas – muito pelo contrário! Na Sabedoria Plena de sua mente Iluminada, ele era capaz de ver com clareza a limitação da mente das outras pessoas e identificar precisamente que tipo de obstáculo cada um ainda tinha. Ele não agia com dualidade conceitual, mas sim com Sabedoria Total, a característica da mente de um buddha.

Portanto, para quem busca a Iluminação, a eliminação gradual do apego aos nossos conceitos e preconceitos é um treinamento constante e dedicado, condição essencial para o sucesso de nossa prática. Quanto mais desapego, maior a Sabedoria e Sabedoria Plena é sinônimo de Iluminação, origem da palavra BUDDHA – ser totalmente Iluminado!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ