२५५४ ०८ १२ Sukrabár 2554-08-12

A todos, Namaste!

uando, num mundo conturbado, violento e carente de valores virtuosos, os jovens se interessam em ouvir Ensinamentos de um coroa de 52 anos, careca e “enrolado num lençol vinho” é sinal de que há esperança. Quando esses jovens são sobrinhos do coroa, além de esperança há uma grande alegria!

Ontem, me rendendo à tecnologia do Facebook, tive a grata satisfação de conversar com três dos meus sobrinhos e recebi o pedido de que eu ensinasse mais sobre Buddhismo. Mais do que minha obrigação de monge, vai com grande alegria este SHASTRA (Explicação do Dharma), dirigido ao Alexandre e Daniel (mas também aos outros sobrinhos e todos os jovens que, por ventura, se interessarem!)

XANDE tcha DAN BHÁGUINEYÁA SHASTRA
(O Shastra para os Sobrinhos Xande e Dan)
शांदि च दान भागिनेय्या शास्त्र

Desconhecido por milhões de pessoas, distorcido por outros milhares, mistificado por picaretas e mal-compreendedores, racionalizado em excesso por outros tantos… Assim o Buddhismo vai sobrevivendo ao tempo e ao curso da História. Então, afinal, o que é o Buddhismo?
Bem, para falar de Buddhismo, temos que falar dO BUDDHA, o ex-Príncipe Siddhartth Gáutam, que nasceu no pequeno Reino de Kapilavastthu, na fronteira do Nepal com o norte da Índia e, por esforço próprio, após seis anos de intensa prática de todos os métodos que conseguiu absorver, finalmente atingiu o Estado de Purificação Total da Mente, ao qual chamamos de Iluminação ou, se preferirem o termo técnico – NIRVÁÑA – um estado mental que pode ser atingido aqui e agora, ainda em vida.
O BUDDHA não teve intenção alguma de ser famoso, de criar uma religião ou de acabar com as existentes – que não eram poucas, em sua época. Tudo o que quis foi, com compaixão e muita paciência, tentar mostrar – UNICAMENTE AOS INTERESSADOS e sem intenção alguma de converter e angariar seguidores, o Caminho que ele mesmo percorreu, levando-o ao fim de toda forma de inquietação mental que, como a todos nós, também a ele afligiam. Tão simples quanto isto! A quem estivesse interessado em ouví-lo, ele falava de modo direto e objetivo, usando para cada um a linguagem que o ouvinte era capaz de entender! Isso gerou a enorme quantidade de 84.000 (oitenta e quatro mil) discursos, sobre os mais variados temas, aos mais variados tipos de ouvintes, durante 45 anos de contínuo Ensinamento.
Aos Ensinamentos deixados pelo Buddha, chamamos normalmente de DHARMA (ou Dhamma, em Páli). Dharma é uma palavra com uma grande quantidade de significados, dependendo do contexto. Na ótica Buddhista, pode ser Ensinamento, Lei Universal, Lei que Rege o Universo etc. O sentido de doutrina, por ser um tanto perigoso e desgastado – “fazer a cabeça de alguém, doutrinar alguém”, eu costumo evitar. De fato, as verdades que o Buddha descobriu, sempre existiram e sempre existirão, portanto, ele não CRIOU uma doutrina ou religião, apenas constatou de modo pioneiro, verdades incontestáveis que já existiam, bem debaixo de nossos narizes, mas, como se estivéssemos cegos e iludidos, não éramos capazes de perceber. A essas verdades descobertas pelo Buddha, (nós, e não o Buddha) chamamos de BUDDHISMO.
Vamos ver então o que é o Buddhismo, no que acredita e deixa de crer, o que ensina e o que rejeita…
QUALQUER PESSOA PODE SER BUDDHISTA?
– Teoricamente sim! O Buddhismo é um Ensinamento prático, direto e objetivo que pode ser assimilado por qualquer pessoa, desde que PRÉDISPOSTA a reformular conceitos e posicionamentos em relação à vida e suas crenças pessoais. Também é preciso que haja a aceitação da necessidade de seguir determinados Preceitos, estabelecidos pelo Buddha.
O BUDDHISMO É UMA RELIGIÃO?
– Sim e não! Quero dizer: A nível de crença em Deus, conceito de pecado, castigo, um paraíso após a morte e sacerdotes com poderes especiais e que servem como interlocutor entre o homem e um ser superior, nada disso existe no Buddhismo, portanto, não podemos, a nível convencional, chamar o Buddhismo de Religião. Porém, quando falamos em termos de sociedade e DIÁLOGO INTERRELIGIOSO, temos que chamar o Buddhismo de Religião, para que possa conversar com as outras crenças. Também o aspecto ritualístico do Buddhismo pode, de certa forma, ser chamado de religião, mas isso não é o ideal.
Não devemos esquecer que a palavra RELIGIÃO, vem do Latim – RE + LIGARE, no sentido de reconectar o Homem a Deus, supondo que ele teria se desligado de seu criador. Nada disso é relevante no Buddhismo.
EXISTE DEUS NO BUDDHISMO? QUEM CRIOU A TODOS NÓS, AO MUNDO ETC.?
– Se existe ou não um deus criador, isso não faz diferença alguma no Buddhismo. Várias vezes o Buddha foi perguntado sobre tais questões. Muita gente perguntava se o Buddha era deus, profeta ou mensageiro de alguma divindade. Ele sempre negou e, categoricamente afirmou ser apenas um ser humano, que, por esforço próprio e sem ajuda alguma de um ser superior, conseguiu atingir a Iluminação.
Crer em Deus e seguir o Buddhismo é, até certo ponto, possível, mas, com certeza fica muito mais fácil ser Buddhista sem acreditar ou depender de Deus.
Quem criou ou deixou de criar todas as coisas é uma curiosidade natural do ser humano, porém, na ótica buddhista, é uma perda de tempo precioso quando nos ocupamos de tais especulações. De modo prático, estamos constantemente numa situação de risco e insatisfação! Nosso objetivo deve ser sair de tal situação e, em nada nos ajuda saber como entramos nela!
NO QUE OS BUDDHISTAS ACREDITAM?
– Basicamente, EM NÓS MESMOS! O termo SADHÁ, não significa “fé”, mas sim autoconfiança! Cada um de nós já tem em si o potencial de nos tornarmos buddhas, ou seja, de atingirmos a Iluminação, exatamente como aconteceu com O Buddha. Se ele era humano e foi capaz, também nós podemos! Para tanto, basta que sigamos, rigorosamente, o Treinamento de Disciplina Mental que ele nos deixou como herança.
Não existe “fé cega” no Buddhismo, mas sim estudo, observação e constatação de que o que aprendemos se aplica e é comprovável em nossas vidas diárias.
EM QUE SE BASEIA O ENSINAMENTO DO BUDDHA?
– Ao longo de sua busca, por observação dos fatos da natureza, o então Príncipe Siddhartth Gáutam percebeu a aflição, a ansiedade, a inquietude que afligia não só a nós humanos, mas a todos os seres vivos. Isto serviu para estimulá-lo cada vez mais na procura de um fim para tal estado mental.
Ele já vinha de um constante processo de Purificação Mental, através de muitos renascimentos, de sucessivas vidas em constante processo disciplinar. Seu renascimento como Siddhartth que, em seguida se tornou O Buddha, foi “apenas” o resultado final de todo um processo de milhões de renascimentos dedicados à Purificação Mental. Assim, o Buddhismo ensina que todos devemos nos esforçar em progredir no Cultivo de Virtudes – compaixão, amor universal e desinteressado, paciência, tolerância, equanimidade, desapego, generosidade e tantas outras qualidades positivas a serem desenvolvidas. Assim, vida após vida, vamos progredindo e o resultado final é a Iluminação, que virá quando não mais tivermos obstáculos mentais.
EXISTE UM PONTO CENTRAL OU ESQUEMATIZADO NO ENSINAMENTO DO BUDDHA?
– Sim! Com certeza! O Buddha foi um excelente Mestre, capaz de sintetizar todo o Ensinamento de forma prática, objetiva e clara! O chamado “Coração do Buddhismo” é definido como “As Quatro Nobres Verdades”, a saber:
1a Nobre Verdade – “Tudo no Mundo foi, é ou será DUKKHA!”
No Blog há mais de uma matéria sobre DUKKHA, que não deve ser traduzido, mas sim entendido a fundo, para que sejamos capazes de combatê-lo de modo eficiente. A nível generalizado, DUKKHA é todo e qualquer tipo de inquietação, insatisfação, contrariedade ou situação capaz de alterar o estado puro e natural da nossa mente. Vai desde algo simples e momentâneo, até o mais profundo sofrimento! Tudo é DUKKHA.
2a Nobre Verdade – “A origem de Dukkha é formada por três fatores: ignorância ou desconhecimento da realidade da vida e, portanto, vemos as coisas do modo que pensamos que elas são e não de acordo com a realidade dos fatos. Apego às coisas que temos, aos nossos conceitos, ao modo como vemos os fatos da vida, à vontade de nos livrarmos das coisas que não gostamos e tantas formas de apego que se tornam obstáculos difíceis de superarmos. Todo apego é um obstáculo mental! Raiva, como termo genérico para decepção, desilusão, frustração, inquietação e todo tipo de sentimento negativo que surge em nós quando perdemos algo que amamos, conseguimos algo que queremos ou não podemos nos livrar de algo que nos incomoda.”
Estas três razões, diagnosticadas pelo Buddha, são os fundamentos de DUKKHA.
3a Nobre Verdade – “Cessação!” ou “Extinção Total!”
Após constatar que tudo na vida é DUKKHA e diagnosticar com Sabedoria a origem dele, o Buddha surge com uma verdade animadora e otimista: É possível acabar de vez com todo tipo de DUKKHA!
4a Nobre Verdade – “O Nobre Caminho Óctuplo” (vejam matéria detalhada sobre ele no Blog) – O Buddha é chamado de “O Médico da Mente”. Um bom médico é capaz de identificar a doença do paciente. Ele diagnostica a causa da doença. Com calma e Sabedoria ele alerta o doente para o fato de que precisa se tratar. Ele não é alarmista, não faz terrorismo psicológico, mas acalma o paciente, mostrando que, com os devidos cuidados, há salvação! Por fim, o bom médico prescreve a medicação e a dose correta para que o paciente seja curado. Assim, o Buddha nos deixou um Caminho seguro e confiável, já que ele mesmo o percorreu, chamado de Caminho Óctuplo, porque é dividido em Oito Etapas, interligadas e inalienáveis. Quem for capaz de percorrê-lo até o final, INFALIVELMENTE, chegará à Iluminação, ao Estado Mental de Nirváña!
HÁ MANDAMENTOS NO BUDDHISMO, ASSIM COMO NO CRISTIANISMO?
– A palavra Mandamento, pressupõe algo mandado, algo que temos que obedecer, sob pena de punição, de castigo. No Buddhismo, como já vimos, não há um ser superior, que nos castiga ou recompensa por nossas ações. Portanto, o Buddha estabeleceu PRECEITOS. Um preceito é algo já testado e aprovado por alguém e que, como um conselho, deve ser seguido.
Os Cinco Preceitos (também há matéria no Blog) são Treinamentos de Moralidade que, quando postos em prática, constante e diligente, purificam nossa mente e nos conduzem à Iluminação. Qualquer pessoa que se proponha, com determinação e seriedade a seguir o Buddhismo, a se tornar um leigo buddhista, deve ter o comprometimento de seguir os Cinco Preceitos. Sem eles, não é possível se considerar buddhista de verdade.
Há um ritual de Iniciação ao Buddhismo, no qual o aspirante a buddhista se compromete a:
– Ter unicamente o Buddha como Mestre.
– Seguir unicamente os Ensinamentos (Dharma) do Buddhismo.
– Procurar unicamente os monges buddhistas para orientação.
Chamamos de JÓIA TRÍPLICE DO BUDDHISMO:
O Buddha, o Dharma e a Mahá Sangha – como chamamos a Comunidade Monástica. Chamamos de Sangha Leiga os seguidores que não querem se tornar monges e sustentam materialmente a nós monges e monjas.
O termo JÓIA significa algo raro, precioso, de muito valor e que deve ser preservado para o bem de todos.
O BUDDHISMO ACREDITA EM VÁRIAS REENCARNAÇÃO? DE QUE FORMAS O ESPÍRITO REENCARNA?
– O termo reencarnação não é exatamente correto no Buddhismo. RENASCIMENTO, seria a palavra ideal! Isto porque REENCARNAR, significa, etimologicamente, “Ação de voltar a ser feito de carne” e, segundo o Buddhismo, algumas formas de renascimento não são feitas de “carne e osso”, como nós humanos ou os animais.
Podemos renascer em dimensões paralelas à nossa, onde a matéria é sutil, etérea e até mesmo sem um corpo físico, mas esse assunto é subjetivo demais para esta matéria. O importante é saber que renascimento é o termo correto. Quanto ao “espírito” ou “alma”, são conceitos não sustentados pelo Buddhismo. Não temos um espírito ou alma que passa de uma vida para outra. O Buddha nos deixou claro que não temos “alma”! Também há mais de uma matéria no Blog onde explico a inexistência de qualquer coisa permanente e imutável e isso inclui a alma ou espírito.
POR QUÊ HÁ TANTAS FORMAS DE BUDDHISMO? O BUDDHISMO TIBETANO É O MAIS ANTIGO?
– O Buddha viveu na região onde atualmente estão a Índia, o Nepal, Bangladesh etc. porém, na Índia atual, há muito pouco do Buddhismo, que foi destruído pela invasão muçulmana àquele país. No entanto, após a morte do Buddha seus seguidores, principalmente o Imperador Ashôka, se encarregaram de mandar emissários a várias partes do mundo, divulgando o Dharma (Ensinamento Buddhista).
Por onde quer que se espalhou, o Buddhismo se misturou e adaptou às realidades de cada povo, formando assim o Buddhismo Chinês, Coreano, Japonês etc. Nessa peregrinação pelo mundo, o Buddhismo, por último na cronologia, chegou ao Tibet, onde encontrou uma religião Xamânica que até hoje é praticada pelos tibetanos, mesmo no exílio. Assim, o chamado Buddhismo Tibetano, embora muito popular no ocidente, é “o mais novo” dos tipos de Buddhismo, e, ao mesmo tempo, o mais distante dos Ensinamentos Originais do Buddha, devido à mistura com a religiâo xamânica que mencionei.
O DALAI LAMA É O LÍDER DE TODOS OS BUDDHISTAS DO MUNDO?
– Não… Não é. Na verdade, Sua Santidade o Dalái Lamá é líder de algumas seitas do Buddhismo Tibetano apenas. O Buddhismo Tibetano atual se encontra dividido em, pelo menos, CINCO seitas diferentes e algumas delas não reconhecem a autoridade do Dalái Lamá.
No Buddhismo, não existe uma autoridade suprema, um representante ou porta-voz que unifique todas as formas de Buddhismo. Cada linhagem de Buddhismo tem diversos SUPREMOS PATRIARCAS, como se fosse o ARCEBISPO de cada país, para assuntos de Buddhismo. Assim, temos o Supremo Patriarca da Tailândia, o do Laos, o do Camboja e assim sucessivamente.

Caros Sobrinhos, acho que, em linhas gerais, já respondi o suficiente para aguçar a curiosidade de vocês e aguardar novas perguntas… Confesso, publicamente, minha satisfação em ver vocês interessados pelo Buddhismo! Mesmo que não se tornem buddhistas, é muito bom saber que se interessaram em conhecer mais. Todo conhecimento desfaz a ignorância e, quanto menos ignorância houver no mundo, melhor ele se torna, para todos nós e para as gerações futuras!
Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ