२५५४ ०९ ०३ Shanibár 2554-09-03

 XANDE SHASTRA

(A Explicação para (o sobrinho) Xande)

A todos, Namaste!

 ´ um hábito excelente o do questionamento! O Buddhismo se estabeleceu no mundo graças a ele, porque o Buddha – por si próprio um constante questionador que atingiu a Iluminação, sempre incentivou todos os seus seguidores a nunca acreditar sem questionar, investigar e duvidar (desde que sem cair na escuridão do ceticismo). O Mestre foi mais além, numa atitude única na História, nos garantindo o total direito de o desafiarmos a provar a veracidade de suas palavras e só acreditarmos no que puder ser aplicado em nossa vida diária, rejeitando inteiramente a fé cega e qualquer tipo de dogma (leiam o Kálamá Sutra, em algum lugar deste Blog).

Assim, é digno de incentivo e elogio (além de uma dose de orgulho por ser meu sobrinho) o espírito investigativo e questionador de Xande que vem estudando o Buddhismo, revirando as páginas deste Blog e, sempre que surge qualquer dúvida, enviando perguntas e comentários inteligentes aos quais me apresso em responder para que ele não se sinta desestimulado.

Desta vez, Xande quer saber mais sobre a Quarta Nobre Verdade e é este o assunto deste Shastra. Sugiro que os “catedráticos” sobre o tema façam uso da Perfeição da Paciência e leiam a matéria até o fim, baseado no fato de que, no Buddhismo, sempre encontramos, nem que seja uma única palavra, que pode enriquecer nossa prática e aumentar o cultivo mental.

 Também chamada de Nobre Caminho Óctuplo, a Quarta Nobre Verdade é o “passo a passo” prescrito pelo Buddha, permitindo que alcancemos a Iluminação. Não se trata de algo teórico ou imaginário, mas sim o resultado de sua própria prática, o método que ele mesmo usou e, é claro, foi bem sucedido ou não teria se tornado O Buddha. No entanto, é impossível chamar esse Caminho de fácil ou rápido, aliás, nunca devemos acreditar em propostas de “caminho fácil e rápido” quando se trata de Buddhismo!

O Caminho Óctuplo que, como o nome sugere, é dividido em oito etapas, requer esforço, Atenção Plena, persistência e uma vontade REAL de prosseguir, sem querer dizer com isso que seja sacrificante e triste – muito pelo contrário. Deve ser percorrido com alegria, otimismo realista, certeza de que somos capazes, já que o Buddha é a garantia histórica de que vale a pena irmos até o final! Qual é então esse Caminho?

 A VISÃO CORRETA – Não se trata de oftalmologia, mas sim de vermos com total clareza as três Verdades anteriores: DUKKHA, SAMÚDAYA e NIRÔDHA. Quando entendemos com profundidade o Ensinamento do Buddha sobre “Dukkha” – todo e qualquer tipo de inquietude mental, tudo aquilo que é capaz de alterar o estado búddhico de nossa mente, estamos então prontos para mudar nosso modo de encarar a vida e o mundo ao nosso redor.

Ver as coisas de modo correto, implica em dissecarmos Dukkha como um estudante de Medicina disseca um cadáver para entender cada parte de seu próprio corpo e conhecer a si mesmo. Entender Dukkha, saber de onde vem (Samúdaya) e ter certeza de que o Buddha estava certo ao afirmar que Dukkha pode ser estirpado de nossas vidas (Nirôdha). Isto é ter a visão correta do mundo e de nossas próprias vidas.

 O PENSAMENTO CORRETO. – Quando vemos um objeto que desconhecemos, podemos pensar todo tipo de coisa sobre ele. Não sabemos para que serve, nem como se chama ou como devemos usá-lo. Recentemente, um indiano pegou minha cuia de chimarrão, com a bomba, mexeu a erva dentro da cuia e pensou em comer o chimarrão, usando a bomba como colher!! Engraçado? Não! Nada mais natural, já que se tratava de coisas completamente desconhecidas. A reação foi um pensamento com base em referenciais prévios. Porém, quando conhecemos claramente a visão sobre alguma coisa, pensamos de modo correto, não tentamos mais mexer o chimarrão com a bomba… A clareza de visão nos leva a pensar corretamente, sem enganos, sem desvios!

 A FALA CORRETA – As tolices que dizemos, o tempo que perdemos matraqueando inutilmente, as coisas que prometemos sem intenção alguma de cumprir… Tudo isso é resultado do modo incorreto como vemos nossa sociedade, o mundo, as pessoas e suas futilidades. Quem é capaz de ver as coisas como realmente são, pensar corretamente sobre a realidade do mundo, não fala tolices nem perde tempo como uma “metralhadora verbal”, não bate boca tentando provar seus conceitos pessoais… A visão e o pensamento corretos, sustentados pela Atenção Plena, ajudam a purificar nossa fala e reduzir o excesso de palavras. Passamos assim a falar coisas agradáveis, puras, sem falsidade, no momento certo e para as pessoas certas. Acima de tudo: se não temos nada útil para dizer, sabemos que o melhor é ficar calado!

 A AÇÃO CORRETA – “Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço!” Infelizmente esse tipo de lema acontece com mais frequência do que gostaríamos! Nossas ações, para não serem censuráveis, devem estar de acordo com nossa fala… Pregar o Buddhismo, dizer-se seguidor do Dharma e cometer atitudes censuráveis, como beber, usar drogas, magoar intencionalmente as pessoas, matar animais e tantas outras coisas não coerentes com o discurso buddhista, é muito errado! Nossas ações devem, gradativamente, se tornar mais puras, mais leves, dignas do reconhecimento de que realmente estamos seguindo o Ensinamento de um Grande Mestre. À medida que estamos atentos às etapas anteriores, agir corretamente vai se tornando cada vez mais fácil.

 O MEIO DE VIDA CORRETO – Na Ásia conheci vários buddhistas que pensam da seguinte maneira: “Eu tenho um abatedouro de aves. É de onde vem o sustento de minha família. Estou enriquecendo cada vez mais e vivo muito bem financeiramente! Se estivesse fazendo algo errado, eu estaria pobre, teria perdido tudo, porque O BUDDHA ME CASTIGARIA. Se estou enriquecendo, é porque conto com a proteção e aprovação do Buddha!” Ora, ora, isto é uma visão totalmente distorcida dos fatos e da Lei do Karma! O meio de vida incorreto não necessariamente vai ter um resultado negativo NESTA existência, mas, com certeza, cedo ou tarde, em alguma existência futura, quem pratica más ações será cobrado na medida exata por elas. (Obviamente não pelo Buddha, mas pela Lei do Karma!)

Muitas profissões e atividades altamente lucrativas não estão de acordo com o Ensinamento do Buddha! Outras, ainda que teoricamente inofensivas, são exercidas de modo incorreto, explorando os empregados, pagando pouco, violando direitos humanos e a dignidade dos outros seres! Um buddhista verdadeiro tem que ter a preocupação constante sobre como está ganhando o dinheiro que o mantém e à sua família.

 O ESFORÇO CORRETO – Muitas vezes dedicamos um esforço enorme para alcançarmos coisas totalmente ilusórias, desnecessárias, fúteis e até destrutivas. Vejam, por exemplo os casos cada vez mais comuns de modelos femininos, que vomitam tudo o que comem e perdem a noção da realidade, num esforço absurdo para se manterem “elegantes” nos padrões que pensam que o competitivo mercado da moda exige!

Muita gente perde várias noites estudando, ingerindo cafeína para se manterem acordadas, tudo para passar em um concurso público. O mesmo acontece com caminhoneiros, que têm que fazer entrega da carga em tempos curtíssimos e, por falta de sono, causam acidentes fatais nas estradas… São exemplos de esforço sobrenatural para coisas que nem sempre têm bons resultados. Se nos esforçarmos, na medida certa, com Atenção Plena e sem nos sacrificarmos, seremos capazes de praticar o Buddhismo de modo correto, com persistência, sem sermos severos demais quando cometermos falhas, mas também sem indulgência nos prazeres exagerados. Isso é o esforço correto – diligente, responsável, consciente e, acima de tudo: feliz!

 A ATENÇÃO PLENA CORRETA – Certa vez, um dos “chatos de plantão” perguntou ao Buddha: “Nobre Gáutam, o que é que o Venerável e seus seguidores fazem sempre? Que tipo de prática vocês têm, que tanto diferencia sua doutrina das demais?” E o Buddha: “Nós andamos, sentamos, comemos, dormimos…” O questionador: “Mas isso todo mundo faz!” O Mestre: “Sim, realmente! Mas eu e meus seguidores, quando andamos sabemos que estamos andando, quando sentamos, temos consciência de que estamos sentados, quando comemos, sabemos que estamos comento e quando vamos dormir, estamos conscientes do ato de dormir. E isso, nem todo mundo faz!”

A Atenção Plena é um fator primordial para a prática buddhista! É este estado de consciência plena do que estamos fazendo que nos impulsiona no cultivo mental! É um vigia constante que “pega no pulo” as más ações e, assim, somos capazes de evitá-las. Estar consciente de cada ação é o único método confiável para não pormos nossa prática a perder!

 A CONCENTRAÇÃO CORRETA – Trata-se da Meditação! Pode ser Vipáshyana, Anapanassati ou Meditação Andando, porém é necessária alguma técnica de Meditação como revigoramento, como forma de “recarregar as baterias” e nos fortalecer para as dificuldades do dia a dia. Meditação é um tema longo e complexo, que não caberia ser tratado com detalhes neste Shastra. Porém, é importante saber que é  parte fundamental e inalienável do Caminho Óctuplo e, portanto, merece um estudo mais aprofundado e a prática constante.

 Estas são as etapas do NOBRE Caminho Óctuplo. Sua nobreza está na capacidade de desenvolver virtudes que engrandecem quem o segue. Está no fato de conduzir a uma vida melhor para o praticante individualmente e para toda a sociedade. A nobreza da Quarta Nobre Verdade está no modo como foi elaborado, porque todas as etapas são inseparáveis e, de qualquer uma que tomemos como ponto de partida, inevitavelmente, passaremos por todas as outras! Acima de tudo, a nobreza do Caminho percorrido e ensinado pelo Buddha está no fato de ser um confiável manual de como atingir a Iluminação!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ