२५५४ ०९ १८ Ravibár 2554-09-18

 A todos, Namaste!

 

 mídia aqui no Rio Grande do Sul vem noticiando e promovendo campanhas na tentativa de aumentar o número de doações de órgãos do corpo humano após a morte comprovadamente diagnosticada. Imagino que iguais ou até maiores sejam as dificuldades em outros estados do Brasil. Este é um assunto sério e controverso pois envolve vários aspectos sócio-culturais e religiosos, do qual eu, enquanto monge buddhista, não posso me omitir.

A compaixão (karuná, em Páli) e o Amor Equânime e Indiscriminado (mettá, em Páli) não são monopólio desta ou daquela crença, devendo estar presentes não somente nos ensinamentos, mas, principalmente, no coração e mente do praticante de qualquer crença que vise a purificação e engrandecimento do ser humano. Saber que nosso corpo, após a morte, pode salvar diversas vidas e, ainda assim, deixar que ele se apodreça debaixo da terra ou simplesmente vire cinzas (no caso da cremação), não é uma atitude compassiva nem amorosa, mas sim um ato de egoismo que não condiz com um ensinamento verdadeiro. Mas, antes de radicalizar minha opinião e ferir determinadas visões religiosas, convido o leitor desta matéria a analisar comigo meu ponto de vista.

No Buddhismo, acreditamos em sucessivos renascimentos, que vêm ocorrendo a uma infinidade de tempo e só cessarão quando formos capazes de nos iluminar, alcançando o Estado Mental de Nirváña. Portanto, não é importante para nós a preservação do corpo após a morte física, já que a essência de nossa mente, movida pela energia de nossas boas e más ações, é conduzida a uma nova existência ou ao não mais existir. O corpo que atualmente utilizamos, simples matéria orgânica, após a morte está vazio e em decomposição, pode ser descartado, do mesmo modo que um casulo fica abandonado uma vez que a lagarta já se tornou uma borboleta e voa em liberdade. Sabemos, porém, que nosso país tem uma cultura baseada em valores judáico-cristãos que, com certeza, devem ser considerados e respeitados, mas isso não significa que não possam ser revistos, à luz da Sabedoria, toda vez que forem desnecessariamente radicais. Tal revisão é meu objetivo, visando colaborar com o aumento da doação de órgãos, sem chocar ou atingir a fé dos que seguem outros mestres e não O Buddha.

No aspecto científico, vem sendo cada vez mais comprovado que a cremação de um corpo sem vida é mais higiênico que o enterro tradicional, onde o corpo se decompõe debaixo do solo, mantendo vivas e ativas as bactérias e vírus que causaram a morte da ex-pessoa enterrada. Nesse raciocínio, é lógico pensar que, se a família lamenta que determinada doença tenha causado a morte de um ente querido, não faz sentido permitir que o mesmo vírus continue ativo debaixo da terra, esperando por suas próximas vítimas.

Também no aspecto prático do planejamento das cidades, todos estamos cientes que cada vez mais vivemos o problema da falta de espaço, o que só aumenta as dificuldades de convivência e a especulação imobiliária, mesmo em cidades longe das grandes capitais. O espaço ocupado por cemitérios, muitas vezes gigantescos, uma vez desocupado, poderia servir para áreas de lazer, parques ou diversos outros fins que beneficiassem a todos, isso, é claro, se o consciente coletivo pudesse se desligar do conceito de que, abaixo de nossos pés havia um terreno cheio de mortos… O respeito, o carinho e a reverência às pessoas que já não estão mais conosco devem ser mantidos em nossas mentes e corações, talvez até em um pequeno altar caseiro, desde que isso não crie apego e radicalismo. Não é necessário um túmulo, difícil de ser mantido, caro e em local cada vez menos seguro, já que está sujeito a vandalismo e torna os frequentadores dos cemitérios presas fáceis para bandidos. Tudo isso deve ser pensado e repensado com atenção, mas acho que merece mais consideração e honrarias quem teve o desprendimento de doar, após o fim da vida, as partes do corpo para beneficiar outros seres.

Na ótica das religiões – Judaismo e Cristianismo e Islamismo, principalmente – prevalece o forte conceito de um corpo criado por deus, que a ele deverá retornar no suposto dia de um Juízo Final, no qual os corpos se levantarão de seus túmulos e, gloriosos e perfeitos, retornarão ao criador ou serão conduzidos ao sofrimento eterno no inferno. Com o devido cuidado para não criticar ou julgar tais crenças, suponhamos que seja esta a visão correta sobre o destino da Humanidade… Não seria plausível imaginar, então, que um deus com poder suficiente para levantar do túmulo todas os seres humanos do planeta fosse também capaz de restaurar nelas as eventuais partes do corpo que foram por elas doadas? Afinal, a doação foi feita por generosidade, amor ao próximo, compaixão e desapego – todas estas são virtudes pregadas em todas as religiões e consideradas agradáveis aos olhos de deus, não são?

Se estou correto em meu ponto de vista como buddhista, não há razão para as pessoas se recusarem a doar a matéria orgânica em decomposição que as compunha e, se não compartilhada para beneficiar outros seres, de nada mais vale. Ao mesmo tempo, se também está correta minha análise do ponto de vista judáico-cristão de que existe um Juízo Final no qual o criador, num processo seletivo, vai trazer para perto de si os bons e condenar ao sofrimento eterno os maus seres Humanos, então, não há razão para duvidar do poder restaurador dos corpos dos que forem escolhidos para o Reino dos Céus  Tampouco deveríamos nos preocupar se os corpos dos que vão padecer no inferno deveriam ou não ser igualmente restaurados…

Qualquer que seja a crença de uma pessoa, portanto, não vejo justificativa forte o bastante para evitar a doação não somente de fígado, rins, olhos ou coração, mas de TODAS as partes aproveitáveis do corpo humano! Aliás, aproveito a oportunidade para DECLARAR PUBLICAMENTE, minha vontade real e consciente de que tudo o que puder ser aproveitado de meu corpo quando este ciclo de minha vida estiver concluído, seja usado da maneira que os médicos e a ciência julgarem melhor. Espero ser capaz de que meus olhos façam um cego passar a ver, um coração deficiente possa ser substituído, enfim, quero beneficiar ao maior número de pessoas possível. Quanto ao que restar e for inaproveitável, basta que alguém faça a cremação, numa discreta e simples cerimônia buddhista e, em seguida jogue fora as cinzas do que um dia fui eu…

Se esta matéria for inspiradora para que outras pessoas decidam a doar seus órgãos, terei atingido meu objetivo!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ