A todos, Namaste!

 sar as palavras corretamente é algo que, pelo que vemos, vem sendo cada vez mais negligenciado no mundo atual. Não sou advogado criminalista nem policial, mas, até onde entendi (ou pensei ter entendido e me corrijam se estiver errado), quando uma pessoa é levada à força de sua casa e depois, quem a levou comunica à família que a pessoa só será devolvida mediante o pagamento de um resgate, chamamos a isto “sequestro”. Se a mesma pessoa fosse levada sem intenção de quem a levou receber dinheiro, então isso seria um “rapto”, a pessoa estaria sendo raptada, não sequestrada! Era o que os antigos apaixonados faziam com suas amadas, quando os pais não consentiam no relacionamento – raptavam a mulher amada para viverem felizes para sempre! O  que estou tentando dizer, embora pareça um exemplo tolo, é que as pessoas estão se expressando mal, não dando os nomes corretos às coisas e fatos e isso, com certeza, gera confusão mental. Os chamados “sequestros relâmpago”, na verdade seriam “raptos relâmpagos”, pois os malfeitores usam o carro da vítima para fazer assaltos, fugir da polícia etc. não pedem dinheiro à família do motorista para devolvê-lo a salvo!

Na mesma linha de raciocínio, usando corretamente as palavras, a primeira mulher eleita para presidir nosso país insiste em afirmar que é a “presidentA do Brasil”… Ora, ora… Se assim fosse, teríamos que falar com a gerentA do banco, nomear a assistentA do diretor ou a comandantA da tropa. uma comerciANTA e uma mulher que cometesse um delito se tornaria uma meliANTA!!

Deixando de implicar com a PresidentE do Brasil, vamos ver algo muito mais sério, que é o uso das palavras no Buddhismo, que é muito mais importante, pelo menos para um monge que tenta orientar os que seguem a mensagem do Buddha… No Brasil, ainda não temos uma literatura buddhista realmente expressiva. Fora o caro amigo Dr. Enio Burgos, do qual admiro a coragem em escrever e o brilhantismo de seus livros, poucas pessoas se aventuram num campo onde o risco da obra se tornar um fracasso de vendas é grande.

Assim, quem quer se aprofundar no Buddhismo, depende das eventuais traduções das obras de monges e mestres asiáticos, feitas por ocidentais em idioma inglês que, posteriormente vem a ser retraduzidas para nosso idioma por quem não tem conhecimento algum da língua asiática original, muito menos do idioma Páli! Da mesma forma que a Bíblia é questionada por ter seu original em , Aramáico traduzido para o Grego e depois para o distante Alemão, o mesmo fenômeno -perigoso e indesejado – pode ocorrer com a literatura buddhista!

É importante esclarecer que NÃO sou fluente em Páli, mas apenas um perfeccionista convicto na busca da palavra mais exata possível, especialmente quando se trata da palavra do Mestre Buddha. Sempre busco, portanto, as várias possibilidades de sentido do Páli e, uma vez encontrado, o sentido em Português tem que estar perfeitamente de acordo com o termo original. Vamos ver como isso funciona, usando alguns termos comuns nos textos buddhistas, a partir do original em Páli.

 BRAHMACARIYA (se pronuncia Brah-matchariyá) – Brahmá é uma divindade superior do Hinduismo e o termo significa algo como “uma vida pura e digna, da mesma forma que o deus Brahmá a vive”. A maior parte dos textos em inglês traduz esta expressão como “holy life”, que gerou a tradução em nosso idioma como “vida santa”!

Agora vejamos: num país onde temos o conceito de “santo” inteiramente associado ao Catolicismo, se dissermos para alguém que ele tem que viver uma “vida santa” para ser buddhista, ninguém vai querer nem ouvir o que o Buddha nos deixou como mensagem, afinal, “ninguém é santo”, como as pessoas costumam dizer. Por outro lado, todo mundo gostaria de ter uma mente desenvolvida, capaz, atuante… Portanto, quando “brahmacariya” é traduzido como “vida no cultivo mental” ou da “pureza mental” , as pessoas vêem isso como algo atraente e interessante e então, param o que estão fazendo, sossegam e ouvem.

 NIRVÁÑA ou NIBBÁNA – É um erro traduzir como Paraíso, porque a grande maioria das pessoas nasce e cresce com um conceito judáico-cristão de um céu, para onde irão após a morte, se forem “boazinhas”.

Também os hindus e os muçulmanos aspiram alcançar um paraíso físico, quando terminarem seus ciclos de vida! Portanto, manter viva a idéia do Nirváña como paraíso é um erro grave, que nada tem a ver com tal conceito! Aliás, CONCEITO é quase que um antônimo de NIRVÁÑA. Se formos à origem, em Sânscrito ou Páli, da palavra, veremos que o radical NIB, que forma NIBBÁNA, em Páli, significa ZERO, AUSÊNCIA ABSOLUTA, exatamente no que se refere à ausência total e absoluta de qualquer tipo de CONCEITO! Somente quando conseguirmos atingir um Estado Mental totalmente desprovido de conceito e isso deve ser feito AQUI E AGORA, não após a morte, teremos alcançado o Nirváña, portanto, chamar isso de Paraíso, é mascarar a realidade, distorcer o mais profundo significado original, conceituando-o como algo físico e atingivel no pós-morte! Toda vez que me refiro ao Nirváña, eu insisto na expressão longa, porém verdadeira e não-distorcida: “Estado Mental de Nirváña”. Somente desta forma fica claro o que o Buddha nos disse: “Não um lugalr físico, mas um estado de mente sem conceito algum, capaz de ser alcançado aqui e agora, nesta mesma vida, só dependendo de nosso esforço pessoal!”

BHAGAVÁN –  “Moro num país tropical, abençoado por deus…”, “deus te abençoe, meu filho” etc. etc. Sempre que pensamos em “benção” ou “abençoado”, a tendência é pensarmos em um deus, superior e todo poderoso, que nos concede sua benção. Então, se chamarmos o Buddha de “O Abençoado”, estaríamos presumindo que ele assim se tornou graças à benevolência de um ser divino, superior ao Buddha. Sem que as pessoas recebam uma boa explicação sobre o que é “benção” na ótica buddhista, é melhor deixar o termo “Bhagaván” (que, SIM, significa “abençoado”), em seu original Sânscrito e Páli, como apenas um dos muito títulos usados para nos referirmos ao Mestre Buddha.

Bençãos, no Buddhismo, são o resultado de nosso esforço próprio em produzir bom karma, boas ações, ações puras e meritórias. Sempre que as produzimos, purificamos nossa mente, tornando-a mais desenvolvida em nosso contínuo cultivo mental. Tendo completado todo o processo de eliminar mau karma através da prática de BOM karma e, por fim deixado ambos para trás, o Buddha tornou-se o Bhagaván, o TOTALMENTE ABENÇOADO.

 METTÁ – Traduzido literalmente do Inglês – “loving kindness”, acabou virando “amor bondade” ou “amor bondoso”  que não define coisa alguma!! O que vem a ser “amor bondade”, alguém é capaz de dizer? Duvido! As pessoas se limitam a ler isso nos livros, sem se questionarem, simplesmente porque não são capazes de duvidar iou irem fundo no sentido do que um autor de livro buddhista escreveu…METTÁ é mais nobre dos sentimentos e, portanto, difícil de ser alcançado quanto de ser explicado… Trata-se de um amor incondicional, ilimitado, totalmente altruísta e distribuído de modo equânime por TODOS OS SERES. Limitar algo tão profundo e quase que inconcebível à tradução inexpressiva de “amor bondade”, é como encher uma garrafinha com a água do mar e pensar que prendeu ali todo o oceano! Melhor “deixar quieto”, como dizem os cariocas e não traduzir METTÁ, para não menosprezar um sentimento tão puro e grandioso.

 DUKKHA ou DUHKA (Páli e Sânscrito, respectivamente). É invariavelmente traduzido do Inglês(suffering) como “sofrimento”! Tão inconsequente como tentar traduzir METTÁ, porque, novamente estaríamos caindo no exemplo da garrafinha que usei acima!  Já mencionei em matérias anteriores neste mesmo Blog, que Dukkha pode ser tanto aquela pelezinha no canto da unha que não sossegamos até que a cortemos e pare de nos incomodar, até a perda do pai ou mãe num acidente ou uma catástrofe como um Tsunami ou terremoto! Então, comocomparar a tal pelezinha a algo tão grave e trágico? Exatamente por não haver termo de comparação, não podemos chamar Dukkha de “sofrimento”. A melhor opção é manter o termo original – Dukkha – em textos dirigidos a praticantes do Buddhismo que já são capazes de entender a profundidade do termo ou, no caso da literatura genérica ou para iniciantes, eu uso “todo e qualquer tipo de inquietação mental” – longo, com certeza, mas muito mais esclarecedor e verdadeiro que “sofrimento”.

Indo fundo no significado original em Páli, Dukkha é algo que sempre se encaixou perfeitamente e, sem motivo aparente, de um momento para o outro, não mais consegue se encaixar! Daí a inquietação se forma.

Como  vocês podem ver, são incontáveis os termos buddhistas que não devem ser traduzidos de modo irresponsável, para que não corramos o risco de perder seu sentido original, distorcendo a Verdade eterna do Dharma, a mensagem que o Buddha nos deixou como herança!

Devemos manter claro em nossas mentes que Buddhismo é estudo constante, questionamento, averiguação, prática em nosso dia a dia daquilo que lemos nas Escrituras – os Sutras. Quanto mais buscarmos os termos corretos, como nos foram ditos pelo Buddha, mais real e confiável será a nossa prática e, portanto, menos distantes estaremos do Estado Mental de Nirváña!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

 सुनन्थो भिक्षु