A todos, Namastê!


mbora muita gente imagine que o treinamento para se tornar monge seja difícil, a grande maioria não faz ideia das grandes dificuldades que passamos… Se para um oriental, nascido e criado num país buddhista já há inúmeros obstáculos a serem superados, é de se supor que tais dificuldades se tornem ainda maiores para quem vem do outro lado do mundo, com hábitos sócio-culturais totalmente diferentes.

O principal obstáculo é o de tentar ser aceito em um Templo, já que, para os demais monges, um ocidental querendo ser ordenado ainda é objeto de curiosidade e grande desconfiança. Muitos monges pensam que nós ocidentais somos todos ricos e queremos nos tornar monges apenas por pouco tempo, como, por exemplo, uma temporada de férias na qual queremos passar por uma experiência diferente, largando o manto após um período curto, para voltarmos à vida leiga em nosso país de origem… Já que muitos monges são forçados pelas condições de pobreza a seguirem a vida monástica e, portanto, não vestem o manto por vocação real, custa a eles acreditar que um ocidental viaje até a Ásia para ser ordenado por vontade própria.

Ainda que consigamos quebrar a barreira da desconfiança, há outra ainda mais difícil – a do idioma. Na Tailândia, por exemplo, apenas 2% dos 70 milhões de tailandeses são capazes de, com grande dificuldade de pronúncia e vocabulário limitadíssimo, se expressarem em Inglês! Essa minoria, obviamente, faz parte de uma “elite cultural” de Bangkok na qual não está incluída a grande quantidade de monges, vindos das isoladas regiões de plantação de arroz, vilarejos e aldeias. Muitos deles sequer visitaram a capital do país! Se nunca estiveram em Bangkok, o que se pode esperar que saibam sobre o Brasil?? Diversas vezes ouvi que nosso país é um “pequeno país na África, onde todos jogam futebol.”

Tendo usado poucas vezes o inglês para me comunicar, passei por longas horas de palestras e ensinamentos, totalmente transmitidos em tailandês, sem que eu fosse capaz de entender uma única frase, sentado, imóvel, entre dezenas de outros monges, com as mãos juntas à altura do peito e o olhar fixo no chão, sem a menor chance de me levantar e sair, embora, é claro, vontade não me faltasse!

Ninguém está interessado em saber se você está entendendo ou não… Ninguém nem pensa em perguntar se está gostando, se está se sentindo à vontade ou se preferia estar em outro lugar. Tudo é problema absolutamente seu!

Acordar de madrugada, dormir no chão, usando o braço como travesseiro e o próprio manto como lençol, sair descalço pelas ruas, todo dia, para mendigar comida, comer sem reclamar todo tipo de comidas exóticas que nem sabemos o que são ou como se chamam… Uma típica refeição, oferecida para nós monges, é servida no chão, onde se desdobram várias folhas de jornal, como toalha de mesa. Ao lado de cada um, uma escarradeira, onde cuspimos os ossos de frango, por exemplo. Os diversos alimentos são servidos embrulhados em “papel de pão” ou jornal e todos se servem com as mãos, usando colher e garfo para comer, sendo que só a colher vai à boca. No meio da “mesa”, ao alcance de todos, um rolo de papel higiênico, usado como guardanapo coletivo… Enquanto saboreiam a comida, é normal que os monges tailandeses peguem nos dedos dos pés, tirem cera do ouvido, cheirem a comida e a devolvam à “mesa” após fazerem uma careta de reprovação e outras peculiaridades de uma etiqueta totalmente oposta à nossa.

Ouvir as pessoas falando sobre você, apontando para você e rindo, sem que você possa fazer nada… Tudo isso e muito, muito mais mesmo, parece vir num “pacote” de treinamento que ninguém imagina que possa ser assim.

O que me motivou a não desistir, a continuar em frente, enfrentando obstáculos e superando dificuldades, o que me deu forças para continuar praticando, estudando, tentando aproveitar cada minuto dos seis anos que passei na Ásia, foi a vontade de, um dia, retornar ao Brasil e, em meu país, divulgar o Dharma, o Ensinamento do Buddha, tão importante e necessário para aliviar as dificuldades de nosso povo.

Incoerentemente, a pior parte de meu treinamento já estava superada! Passei por situações terríveis em Taiwan, onde, além de terremotos e invernos rigorosos com direito a furacões, cheguei a ser mordido por enormes ratazanas em minha própria cama. No Laos, até mesmo corri da polícia do governo comunista, simplesmente por estar ensinando o Dharma ao povo na rua. Quando decidi voltar ao Brasil, já estava há mais de um ano na Malásia, vivendo num bom templo, confortavelmente, com bastante seguidores que me convidavam a dar palestras várias vezes por semana e doando bastante envelopes vermelhos com gordas quantias… Enfim, eu poderia ter ficado lá por muito tempo, talvez até para sempre…

Foi essa situação cômoda e confortável que eu deixei para trás, achando que seria bem sucedido no Brasil. Todo o meu investimento, porém, parece ter sido em vão! Já se passaram três anos desde o meu desembarque, vindo de Kuala Lumpur e vendo todo o meu entusiasmo se deteriorar, começo a cogitar uma retirada estratégica para algum país asiático.

Ao pensar em ir embora, não vejo sinal algum de covardia ou deserção. Afinal, foram inúmeras as tentativas de divulgar o Dharma: palestras para público insignificante, estudos de Sutras sem o menor interesse dos endereçados, datas comemorativas às quais ninguém compareceu e muitas mensagens apelando à sensibilidade das pessoas quanto à necessidade de manter financeiramente minha missão no Brasil… Como confirmação de meu insucesso, as tentativas foram feitas em Leopoldina (MG), Nova Friburgo (RJ) e, agora, em São Chico (RS), o que me leva a crer que realmente é inútil insistir, forçar as pessoas a me ouvirem e, pior ainda: a fazerem doações.

Nos inúmeros apelos que venho fazendo, sempre tento ressaltar a generosidade de meia dúzia de pessoas que, talvez até por compaixão, ou por simples necessidade de honrarem o compromisso assumido quando vim para o sul, continuam me ajudando financeiramente. Utópico, porém, seria imaginar que apenas com elas eu seria capaz de erguer um Templo se, no momento atual, já estou gastando o dinheiro da construção para me manter no Brasil…

Mesmo que o Prefeito fizesse doações regulares de cestas básicas e as taxas fossem pagas mensalmente, isso não seria suficiente e não é difícil de ser comprovado. Toda moradia tem despesas extras, muitas vezes caras. Um cano furado, uma cerca derrubada por uma árvore, uma torneira vazando, são pequenas ou grandes despesas às quais todos nós estamos sujeitos e, quando se vive (da esperança) de doações, a coisa fica complicada! Imaginem, então, se as mesmas despesas e imprevistos fossem num templo?? As despesas seriam dobradas ou até triplicadas! É! É irreal achar que daria certo…

As pessoas gostam do Buddhismo… E do Hinduísmo, do Kardecismo, do Tarot, da Superstição, do Esoterismo e de tantas outras coisas, todas ao mesmo tempo! Mesmo as que se dizem buddhistas, não conseguem deixar de misturar todas as Tradições, adicionando a elas suas próprias crendices, com pitadas de todo tipo de resquício judaico-cristão e se ofendem e se magoam se eu, como monge, as repreendo pelo excesso de mistura no que deveria ser um único Ensinamento, levado a sério e com comprometimento! Se é assim o brasileiro e tão radicalmente se orgulha de ser imutavelmente assim, quem sou eu para forçá-lo a mudar? Por quanto tempo eu conseguiria nadar contra a corrente?

Certo ou errado em meu posicionamento, o fato é que não pretendo desistir do Brasil. Meu plano é de uma retirada estratégica, indo morar em algum país onde haja seguidores buddhistas sérios e conscientes, provavelmente a Malásia e, após me recuperar das dificuldades enfrentadas aqui, começar a juntar e enviar dinheiro para, num futuro distante, finalmente realizar meu sonho de ter um templo em meu país, mesmo que eu continue morando na Ásia e vindo de vez em quando ao Brasil. Portanto, não estou abandonando ou desistindo de coisa alguma, mas sim postergando um sonho, até porque ele vai se tornar um pesadelo muito em breve, caso eu gaste todo o dinheiro que recebi como herança e não consiga nem construir o templo nem retornar à Ásia. Quem então iria me salvar?

Um monge não pode ser fonte de preocupação, ansiedade e sofrimento para outras pessoas. Nossa missão é justamente o oposto disso. Eu estaria totalmente errado, nessa contagem regressiva para trazer a várias pessoas todo tipo de preocupação e gastos financeiros, devido à minha falta de visão e teimosia em continuar no Brasil. Assim sendo, o melhor é realmente me afastar, retornando, se for o caso, com condições reais de me manter no Brasil, com ou sem seguidores locais.

Com um pai bastante debilitado de saúde, uma mãe com 85 anos, ambos necessitados de minha presença no Brasil, tendo vindo para o Brasil acreditando que só voltaria à Ásia para eventuais conferências buddhistas, gostando muito do meu país e certo de que a Ásia não tem muito mais a me acrescentar, estejam certos de que realmente quero muito ficar no Brasil e é com dificuldade que sairei novamente do país. De qualquer forma, meu plano é de deixar um terreno de minha propriedade aqui no Brasil. se possível com uma casinha construída, com o dinheiro que me foi doado. Desta forma, poderei juntar dinheiro na Ásia e mandar para cá, sob administração de alguém de total confiança.

Gostaria muito que algo realmente significativo acontecesse, antes de eu entrar num avião rumo a algum país asiático, porém, como não acredito em milagres, acho muito pouco provável que alguma coisa mude. Então, me resta contar com a compreensão dos que me ajudaram até aqui e garantir a todos que os manterei informados sobre cada passo e decisão que eu tomar.

Fiquem todos em Paz e protegidos!


भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ