fevereiro 2012


A todos, Namastê!

 o Sutra (Ensinamento do Buddha) abaixo, nos é explicado um treinamento, dirigido aos monges, porém totalmente válido para praticantes leigos. Trata-se de um exercício de Atenção Plena nas atitudes capazes de purificar a mente, o que, conforme o Buddha sempre nos orientou, conduz à Iluminação. Vamos ao Sutra…

 A N VIII.39

Abhissanda Sutra

O Ensinamento sobre Recompensas

Traduzido para o Português em Linguagem Simples

e com explicações entre parênteses

Por Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 Assim me foi transmitido oralmente. Certa ocasião, o Bhagaván disse aos monges de sua Comunidade: “Bhikshús, há essas oito recompensas do mérito, recompensas da habilidade, alimento para a felicidade, de nobre pureza, que resultam na felicidade, conduzem a um estado mental semelhante a um paraíso, conduzem ao que é desejável, prazeroso e atraente, para o bem-estar e a felicidade. Quais oito?

“É o caso em que um nobre discípulo buscou refúgio no Buddha. Essa é a primeira recompensa do mérito, recompensas da habilidade, alimento para a felicidade, de nobre pureza, que resultam na felicidade, conduzem a um estado mental semelhante a um paraíso, conduzem ao que é desejável, prazeroso e atraente, para o bem-estar e a felicidade.

“Além disso, o nobre discípulo buscou refúgio no Dharma (Ensinamento do Buddha). Essa é a segunda recompensa do mérito, recompensas da habilidade, alimento para a felicidade, de nobre pureza, que resultam na felicidade, conduzem a um estado mental semelhante a um paraíso, conduzem ao que é desejável, prazeroso e atraente, para o bem-estar e a felicidade.

“Além disso, o nobre discípulo buscou refúgio na Mahá Sangha (Comunidade de Monges Buddhistas). Essa é a terceira recompensa do mérito, recompensas da habilidade, alimento para a felicidade, de nobre pureza, que resultam na felicidade, conduzem a um estado mental semelhante a um paraíso, conduzem ao que é desejável, prazeroso e atraente, para o bem-estar e a felicidade.

“Agora, há essas cinco dádivas, cinco grandes dádivas – originais, que existem há muito tempo, tradicionais, antigas, sem que tenham sido alteradas, não adulteradas desde o princípio – que não estão sujeitas à suspeita, nunca estarão sujeitas à suspeita, e não são criticáveis pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin (sacerdotes hindús). Quais cinco?

“É o caso em que um nobre discípulo, abandonando o hábito de matar outros seres, se abstém de tirar a vida. Agindo assim, ele se liberta do perigo, se liberta da animosidade,  liberta da opressão um incontável número de seres. Se libertando do perigo, se libertando da animosidade, libertando da opressão um incontável número de seres, ele ganha uma parcela na ilimitada liberdade do perigo, liberdade da animosidade e liberdade da opressão. Essa é a primeira dádiva, a primeira grande dádiva – original, que existe há muito tempo, tradicional, antiga, sem que tenha sido alterada, não adulterada desde o princípio – que não está sujeita à suspeita, nunca estará sujeita à suspeita, e não é criticável pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin (sacerdotes hindús).

“Além disso, abandonando o hábito de tomar o que não lhe foi dado pelo dono, o nobre discípulo se abstém de tomar o que não é dado. Agindo assim, ele se liberta do perigo, se liberta da animosidade, liberta da opressão um incontável número de seres. Libertando do perigo, libertando da animosidade, libertando da opressão um incontável número de seres, ele ganha uma parcela na ilimitada liberdade do perigo, liberdade da animosidade e liberdade da opressão. Essa é a segunda dádiva , a segunda grande dádiva – original, que existe há muito tempo, tradicional, antiga, sem que tenha sido alterada, não adulterada desde o princípio – que não está sujeita à suspeita, nunca estará sujeita à suspeita, e não é criticável pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin.

“Além disso, abandonando a conduta sexual desleal à pessoa com quem se tem um compromisso (no caso de buddhistas leigos), o nobre discípulo se abstém de todo tipo de conduta sexual (monges não podem praticar nenhum tipo de sexo!). Agindo assim, ele se liberta do perigo, se liberta da animosidade, liberta da opressão um incontável número de seres. Libertando do perigo, libertando da animosidade, libertando da opressão um incontável número de seres, ele ganha uma parcela na ilimitada liberdade do perigo, liberdade da animosidade e liberdade da opressão. Essa é a terceira dádiva, a terceira grande dádiva – original, que existe há muito tempo, tradicional, antiga, sem que tenha sido alterada, não adulterada desde o princípio – que não está sujeita à suspeita, nunca estará sujeita à suspeita, e não é criticável pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin.

“Além disso, abandonando a mentira, as palavras sujas e vulgares, a linguagem falsa  que causa discórdia e ilusão, o nobre discípulo se abstém de usar incorretamente as palavras . Agindo assim, ele liberta do perigo, liberta da animosidade, liberta da opressão um incontável número de seres. Libertando do perigo, libertando da animosidade, libertando da opressão para um incontável número de seres, ele ganha uma parcela na ilimitada liberdade do perigo, liberdade da animosidade, e liberdade da opressão. Essa é a quarta dádiva, a quarta grande dádiva – original, que existe há muito tempo, tradicional, antiga, sem que tenha sido alterada, não adulterada desde o princípio – que não está sujeita à suspeita, nunca estará sujeita à suspeita, e não é criticável pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin.

“Além disso, abandonando o uso de qualquer substância que altere o estado puro da mente, o nobre discípulo se abstém de todo tipo de substância que possa causar vício. Agindo assim, ele liberta do perigo, liberta da animosidade, liberta da opressão um incontável número de seres. Libertando do perigo, libertando da animosidade, libertando da opressão um incontável número de seres, ele ganha uma parcela na ilimitada liberdade do perigo, liberdade da animosidade, e liberdade da opressão. Essa é a quinta dádiva, a quinta grande dádiva – original, que existe há muito tempo, tradicional, antiga, sem que tenha sido alterada, não adulterada desde o princípio – que não está sujeita à suspeita, nunca estará sujeita à suspeita, e não é criticável pelos Sábios praticantes do cultivo mental e Brahmin. E essa é a quinta recompensa de mérito, recompensa da habilidade, alimento da felicidade, celestial, resultando na felicidade, que conduz ao paraíso, conduz ao que é desejável, prazeroso e atraente; para o bem estar e a felicidade.”

(Estas cinco dádivas, mencionadas pelo Buddha, são exatamente os Cinco Preceitos – “Pañtcha Shila” – sobre os quais há matéria no Blog. Seguir estes Cinco Preceitos, entregues em Cerimônia especial por nós monges, é a condição para que alguém se torne “oficialmente” um buddhista)

 

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 

Anúncios

A todos, Namastê!

 

costumadas às Religiões cristãs, na maioria encumbidas da árdua missão de converter pessoas às suas doutrinas, transformando-as em novos seguidores, muitas pessoas não conseguem entender como isso não ocorre no Buddhismo. O fato é que o Buddha NUNCA teve a intenção de “fazer a cabeça” de ninguém. Aliás, nem ao menos queria estar sempre acompanhado por uma multidão de seguidores – muito pelo contrário!

Às pessoas que, com sinceridade e confiança absoluta que queriam ser ensinadas, o Mestre, com toda paciência e compaixão, transmitia Ensinamentos. Se, em algum momento, o ouvinte mudasse de ideia ou, após algum tempo, se desviasse do Caminho e não buscasse ajuda, o Buddha simplesmente o ignorava, jamais foi atrás de alguém, pedindo para a pessoa voltar a segui-lo…

O Sutra abaixo mostra claramente esse posicionamento que é a postura correta de nós monges, como herdeiros diretos do Ensinamento do Buddha e protetores da mensagem dele. O texto deixa claro que não temos a missão, muito menos obrigação de sair por aí, tentando salvar pessoas a qualquer custo! No Buddhismo, nossa tarefa é de cuidar bem de nós mesmos, dando o melhor exemplo que pudermos. Se, com isto, atrairmos outras pessoas, interessadas em nos ouvir e serem orientadas por nós – EXCELENTE! Nada tem que ser feito além disso. Vamos ao Sutra…

 

AN 4.111

Kessí Sutra

O Ensinamento para Kessí,

o Domador de Cavalos

Traduzido para o Português em Linguagem Simples

e com explicações entre parênteses

Por Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

Assim me foi transmitido oralmente. Certa ocasião, Kessí, o domador de cavalos, foi até o Bhagaván e, ao encontrá-lo, fez três prostrações em respeito e sentou-se na posição respeitosa. O Bhagaván então disse a ele: “Você, Kessí, é um domador de cavalos, um homem treinado, capaz de domar cavalos que podem ser treinados. Então, como você treina um cavalo que pode ser treinado?”

 “Vantê, eu treino um cavalo que pode ser treinado, às vezes com gentileza, às vezes com rigidez, às vezes com ambos – gentileza e rigidez.”

 “E se um cavalo que pode ser treinado não se submete nem a um treinamento gentil nem a um treinamento rígido, nem a um treinamento gentil e rígido ao mesmo tempo, Kessí, o que você faz?”

 “Se um cavalo que pode ser treinado não se submete nem a um treinamento gentil nem a um treinamento rígido, nem a um treinamento gentil e rígido ao mesmo tempo, Vantê, eu o mato. Por quê faço isso? Eu, penso assim: “Não deixarei que isso se torne uma desgraça para minha linhagem de treinadores.” Mas o Bhagaván, Vantê, é um excelente treinador de pessoas que podem ser treinadas. Como Vantê treina uma pessoa que pode ser treinada?”

“Kesi, eu treino uma pessoa que pode ser treinada, às vezes com gentileza, às vezes com rigidez, às vezes com ambos – gentileza e rigidez.”

“Kessí, ao usar a gentileza, eu ensino: “Assim é a boa conduta do corpo. Assim é o resultado da boa conduta do corpo. Assim é a boa conduta verbal. Assim é o resultado da boa conduta verbal. Assim é a boa conduta da mente. Assim é o resultado da boa conduta da mente. Assim são os Dêvas (seres renascidos em dimensões paralelas à nossa). Assim são os seres humanos.”

 “Ao usar a rigidez, eu ensino: “Assim é a má conduta do corpo. Assim é o resultado da má conduta do corpo. Assim é a má conduta verbal. Assim é o resultado da má conduta verbal. Assim é a má conduta da mente. Assim é o resultado da má conduta da mente. Assim é o inferno. Assim é o renascimento no ventre de um animal. Assim é o Reino das Sombras Famintas.”

 “Ao usar a gentileza e a rigidez, eu ensino: “Assim é boa conduta do corpo. Assim é o resultado da boa conduta do corpo. Assim é a má conduta do corpo. Assim é o resultado da má conduta do corpo. Assim é a boa conduta verbal. Assim é o resultado da boa conduta verbal. Assim é a má conduta verbal. Assim é o resultado da má conduta verbal. Assim é a boa conduta da mente. Assim é o resultado da boa conduta da mente. Assim é a má conduta da mente. Assim é o resultado da má conduta da mente. Assim são os Dêvas. Assim são os seres humanos. Assim é o inferno. Assim é o renascimento no ventre de um animal. Assim é o Reino das Sombras Famintas.”

 “E se uma pessoa que pode ser treinada, não se submete nem ao treinamento gentil nem ao treinamento rígido, o que Vantê faz?”

“Se uma pessoa que pode ser treinada, não se submete nem ao treinamento gentil nem ao treinamento rígido, então, EU A MATO, Kessí.”

 “Mas não é permitido ao Bhagaván tirar vidas! E, ainda assim, o Bhagaván diz que mata a pessoa.”

 “É verdade, Kessí, que ao Tathágata (título que o Buddha usava para si mesmo) não é permitido tirar vidas. Mas, se uma pessoa que pode ser treinada, não se submete nem ao treinamento com gentileza, nem ao treinamento com rigidez, então, o Tathágata passa a tratá-la como alguém que não vale a pena que se diga nada, nem repreenda. Este é o significado de totalmente destruir alguém no Dharma (Ensinamento do Buddha) e na Disciplina. Quando o Tathágata considera que alguém não vale a pena nem que se diga algo nem que se repreenda, também os amigos dessa pessoa passam a vê-la desta forma: não vale a pena falar com ela nem repreendê-la.”

 “Sim, Vantê, a pessoa seria totalmente destruída se o Tathágata a considerasse como alguém que não vale a pena falar nem repreender e os amigos e pessoas que a cercam, pensariam do mesmo modo.”

 “Magnífico, Vantê! Magnífico! Como se alguém desvirasse algo que estava de cabeça para baixo, ou revelasse o que estava oculto, mostrasse o caminho para alguém que estava perdido ou carregasse uma lamparina para alguém que estava na escuridão para que os olhos possam ver as formas, do mesmo modo, o Bhagaván – através de muitas linhas de raciocínio – tornou o Dharma claro. Eu vou para o Bhagaván como refúgio, para o Dharma e para a Mahá Sangha (a Comunidade de Monges Buddhistas). Possa o Bhagaván sempre se lembrar de mim como um seguidor que o tem como refúgio, de agora até o fim de minha vida.”

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 

A todos, Namastê!

A PALAVRA MAIS IMPORTANTE DA LÍNGUA PÁLI

magino que as pessoas sem contato mais aprofundado com o Buddhismo não saibam o que é Páli. Trata-se de uma espécie de dialeto do Sânscrito, certamente menos desconhecido, graças ao Hinduísmo. Podemos dizer que o Sânscrito é a língua dos sacerdotes, dos generais e reis, ou seja, da elite aculturada, enquanto que o Páli era a língua do povão, das massas, da classe operária, sem acesso a um nível cultural mais elevado… Na verdade, o nome da língua não é Páli, que significa “texto”, mas sim MAGÁDHI, a língua oficial do Reino de Magádha, o maior e mais poderoso daquela época.

Graças à Tradição Theravada, a língua Páli, adotada pelo Buddha, exatamente por ser do “povão”, sobreviveu aos tempos e, ao contrário de ser uma língua extinta, tem passado por um incrível movimento de revitalização, em vários países, a ponto de vermos universitários americanos e europeus trocando e-mails em Páli!

As outras formas de Buddhismo, chamadas de Mahayana, adotaram o Sânscrito e, posteriormente, línguas como o Chinês, Coreano, Japonês e Tibetano.

Há muitas palavras bonitas e de profundo significado em Páli que, para as pessoas que praticam o Buddhismo, são até bastante conhecidas, tais como: Karuná, que significa “compaixão verdadeira”, Mettá – “amor altruísta e incondicional por todos os seres do Universo”, Dána – “generosidade que conduz ao desapego” e muitas outras. Todas são bonitas e devem ser entendidas e praticadas como expedientes para atingirmos a Iluminação.

Há, porém, uma palavra desconhecida até mesmo da maioria dos buddhistas e é justamente a minha favorita, pelo caráter divisor de águas no Buddhismo! Quem começa a estudar Buddhismo, inevitavelmente se depara com as “Quatro Nobres Verdades” (há matérias no Blog sobre este tema), o coração do Ensinamento do Buddha. Com total Sabedoria, o Iluminado nos fala sobre Dukkha, toda e qualquer forma de inquietação mental. Nos prova “por A + B” que todas as coisas do Universo são, com certeza, fontes de desilusão e inquietação e não devemos nos apegar a elas. Continuando, o Buddha nos prova que estamos em total estado de decadência, inevitavelmente caminhando para a velhice, doença e morte – fatos que vêm se repetindo há uma infinidade de séculos!

O Buddha nos fala, ainda, que somos cultivadores em potencial do apego, ignorância e raiva! Terrível, não é? É como se estivéssemos todos perdidos, sem esperança, sem sinal de luz no fim do túnel! Se tudo no mundo resulta em inquietação mental, se somos ignorantes, apegados e raivosos, não há nada que dê jeito!

Parece até esses filmes onde o herói e seus amigos estão totalmente cercados por centenas de inimigos cruéis e o fim parece inevitável! É justamente nesse ponto que surge a palavra mais significativa (e menos valorizada!) do Buddhismo: NIRÔDHA! Este é o nome da Terceira Nobre Verdade. Nirôdha, vem sendo traduzido com “extinção”, “cessação”, “aniquilação”… No sentido mais profundo em Páli, é como se pegássemos uma planta daninha e venenosa pelo caule, com força, a arrancássemos da terra e a deixássemos de cabeça para baixo, com as raízes expostas ao Sol, para secarem sem chance de voltarem à vida.

Nirôdha é a BOA NOTÍCIA, é mais que uma esperança – uma certeza de luz no fim do túnel! Quando o Buddha nos anunciou apenas: “Nirôdha!” como a Terceira Nobre Verdade, ele nos deu uma garantia (que só um Iluminado poderia dar!) de que não precisamos nos desesperar, muito menos desistir! Há uma certeza de que podemos nos libertar do constante ciclo de mortes e renascimentos (Samsara). Após anunciar “Nirôdha”, o Buddha nos indicou o Caminho a percorrer (a Quarta e última Nobre Verdade). Mas, se não houvesse “Nirôdha”, não chegaríamos ao Caminho. Estaríamos irremediavelmente mergulhados nas inquietações mentais que o mundo nos causa.

Quando nos sentirmos desanimados, sem incentivo para seguirmos adiante, podemos, na quietude de nossa mente, repetir: “Nirôdha”, como um mantra, como um remédio que, gota a gota, cura nossa ansiedade, nos tranquiliza, nos dá força para continuarmos a caminhada rumo à Iluminação.

Uma palavra tão curta e simples, quase desconhecida no imenso vocabulário buddhista, é um divisor de águas, como a palavra da certeza da Iluminação! Fiquem todos em Paz e protegidos!

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

A todos, Namastê!

 exercício da GENEROSIDADE (chamada DÁNA, no Buddhismo) é de fundamental importância, tanto para o praticante quanto para a sobrevivência de nós monges, especialmente na rígida Tradição Theravada, à qual pertenço, onde os monges não tem permissão de trabalhar e temos nosso sustento inteiramente dependente de doações dos leigos.

Para expressarmos gratidão, sempre que algo nos é doado, nós, monges Theraváda, fazemos no ato do recebimento, uma pequena recitação, na qual transferimos ao doador a energia positiva, criada pelo bom karma. Assim, quem doou recebe em troca a energia positiva do monge beneficiado.

Ontem, o jovem Daniel Macan, através de meu filho Kauan, fez uma generosa doação de vários alimentos. Kauan chegou em casa com muitas sacolas de supermercado!

Sem ter conhecimento da prática buddhista da “Transferência de Méritos”, conforme expliquei acima, Daniel, que deixou meu filho em casa, sem ter saído do carro, acabou indo embora sem que eu lhe transmitisse meu bom karma! Assim, tornando público meu agradecimento por mais esse bom ato do incansável Macan, segue abaixo o texto da recitação em Língua Páli, com a garantia de que fiz a Transferência!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

YATHÁ WARIWAHÁ PURÁ PARIPURÊNTI SÁAGUERÃN. ÊWA MÊWA ITÔ T´HINÁN PÊÊTANÃN UPEKAPATÍ ITCHIT´HÁN PATIT´HÁN TUIHÁN KIPAMÊWA SAMIDJETÙ SÁABE PURÊNTU DJITESÃNKHAPÁ, DJ´HANTÔ PANERASSÔ YAT´HÁ MANI DJÔ TIRASSÔ YAT´HÁ. SAPPITIYÔ WIWÁ DJ´HANTÙ SÁABBE RÔGO WINÁ DJET´HÚ MÁATÊ BHAWAT´TWANTERÁYU SUGGIDIGÁYU GOB´HAWÊ. BHAWANTU SABBE MANGALAM RAKKHANTU SABBE DEWATÁ, SABBE BUDDHÁNU BHAWENA SADDHA SOTTHI BHAWANTU TÊ, BHAWANTU SABBE MANGALAM RAKKHANTU SABBE DEWATÁ, SABBE DHAMMÁNU BHAWENA SADDHA SOTTHI BHAWANTU TÊ, BHAWANTU SABBE MANGALAM RAKKHANTU SABBE DEWATÁ, SABBE SANGHÁNU BHAWENA SADDHA SOTTHI BHAWANTU TÊ,

 Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

A todos, Namastê!

A MATEMÁTICA DA GENEROSIDADE

a ótica Buddhista, o que nos prende às sucessivas vidas neste mundo, renascendo como prisioneiros de um ciclo contínuo, é principalmente o APEGO às coisas materiais. O Buddha sempre enfatizou a necessidade de não nos apegarmos tanto àquilo que conseguimos ter, pois tudo, absolutamente tudo o que temos é passageiro, impermanente e sujeito a desaparecer.

A prática da GENEROSIDADE é um contínuo exercício do desapego, portanto, um meio hábil de nos conduzir à Iluminação. Há diversas formas de sermos generosos, porém, o próprio Buddha sempre afirmou que quem doa algo a um monge buddhista, é como se doasse ao próprio Buddha, sendo assim a maior das doações, já que nós monges somos a garantia de preservação do Ensinamento do Buddha, a ser transmitido para benefício de todos os seres.

Um dos principais obstáculos para a divulgação do Buddhismo no Brasil é, com certeza, a falta de conscientização das pessoas sobre a necessidade de doações financeiras.

Não vejo como má vontade ou desinteresse o fato das pessoas não doarem. Ao contrário dos asiáticos que, há centenas de anos, desenvolveram a mentalidade de que é NORMAL manterem os Templos Buddhistas com apoio incondicional, nós ocidentais somos condicionados a só pagar por bens de consumo, normalmente com o dinheiro adquirido através de nosso trabalho. Portanto, o ocidental padrão, nem ao menos se lembra que um Templo ou Grupo de Buddhismo necessita de doações constantes para sobreviver. Na verdade, as pessoas não doam nem mesmo para a Igreja Católica e só recentemente vêm desenvolvendo o hábito de fazer doações para as Igrejas Evangélicas, um fenômeno relativamente novo em nossa sociedade.

O fato é que nós monges temos as mesmas necessidades que qualquer outro ser humano… Qualquer que seja o local onde nos instalemos, há contas e taxas a serem pagas e, inevitavelmente, se não houver generosas doações, não há como continuar divulgando o Buddhismo no país.

É compreensível que as pessoas pensem: “Eu já tenho minha família, minha casa e muitas despesas! Não tenho condições de sustentar sozinho um Templo Buddhista!” É exatamente aí que cabe uma explicação. Não se trata de apenas uma ou duas pessoas arcarem sozinhas com as despesas do Templo! Obviamente isso é inviável e por demais oneroso! Porém, se conseguíssemos, gradativamente, conscientizar todas as pessoas a doarem, mensalmente, uma PEQUENA QUANTIA, como R$20 ou R$30, sem que isso ficasse pesado para ninguém, teríamos todas as despesas do Templo pagas. Isso é matematicamente provável, não é demagogia nem milagre!

Melhor ainda seria se, cada pessoa que vem se beneficiando do Ensinamento do Buddha, divulgasse as mensagens para mais e mais pessoas, sempre acrescentando uma explicação sobre a necessidade de doações financeiras, por menores que sejam! Assim, num efeito multiplicador, o Templo estaria, não só devidamente provido, mas também em condições de manter em crescimento um caixa emergencial. Desta forma, o Projeto Dhamma Vihara, que tem como objetivo ajudar pessoas carentes, poderia finalmente ser iniciado. Na situação atual, mal tenho como me manter, portanto, é totalmente inviável pensar em atuar na área social.

Os que se sentirem motivados a fazer doações de alimentos e/ou financeiras, podem ir diretamente à casa onde estou instalado – Rua Alziro Torres Filho – 255, a rua de acesso ao Lago São Bernardo. Para doações à distância, o Blog tem um sistema próprio (Paypal) para doações de qualquer valor. Sua generosidade é fundamental e qualquer valor doado é igualmente importante!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ


A todos, Namastê!

ARAHANT? ARHAT? BODHISSATTVA? BODHISSATTA?

 

RAHAN SAMMASAMBUDDHÔ BHAGAWÁ BUDDHAM, BHAGAWANTAM, ABHIWATÊMI

– É assim que começa todo Púja (ritual ou cerimônia) na Tradição Theravada. A tradução é: “Esse Homem totalmente Iluminado, o que se tornou um buddha sem auxílio de ninguém, totalmente preenchido pela energia do bom karma, ao Buddha eu faço prostrações em respeitoso agradecimento.”

Arahant, a primeira palavra da Recitação, portanto, significa – em língua Páli, usada pelo próprio Buddha – uma pessoa que atingiu o Estado Mental do Nirváña, a Iluminação completa, um BUDDHA. A palavra “Arhat” é o equivalente em Sânscrito, a língua indiana usada no Hinduísmo e também no Buddhismo Mahayana, que surgiu muitos anos após a morte do Buddha. Portanto, um “Arahant” é uma pessoa que, após praticar virtudes e cultivar a Purificação Mental, finalmente atingiu a Iluminação completa, total e irreversível, tornando-se um buddha, tal como aconteceu com o Príncipe Siddhartth Gáutam.

Podemos dizer, então, que um Arahant tem a mente do Nirváña, mas tal mente iluminada ainda está “presa” a um corpo físico, que, como toda matéria, está sujeita a dores, doenças, frio, calor, fome, sede, envelhecimento e todo tipo de dificuldades, desconforto etc. Porém, a grande diferença e que, para um Arahant, nada disso causa inquietação mental. Por já ser um iluminado, o Arahant, embora vivendo entre nós, neste mundo, não mais se altera com coisa alguma: nem boa nem ruim, porque a mente iluminada é livre e desprovida de qualquer conceito!

Na época do Buddha, muitos dos monges que conviveram com ele eram Arahants, totalmente iluminados e com mentes capazes de entender plenamente todos os fenômenos do Universo, sem que isso causasse neles qualquer tipo de alteração, qualquer tipo de inquietação mental! Para nós, que ainda temos um longo caminho a percorrer, isso parece quase impossível, quase inacreditável, mas é assim o fenômeno da Iluminação, ou seja, atingir o Estado Mental de Nirváña.

Mas, então, o que vem a ser o tal BÔDHISSATTVA? A palavra BÔDHI (o “o” é sempre fechado e longo!!), vem do radical “bôdh”, o mesmo de “buddha”, significando “Sabedoria”. “Sattva” é a palavra para “ser vivo”, pessoa ou criatura. Portanto, Bôdhissattva é uma pessoa que tem Sabedoria. O termo “Bôdhissatta” é exatamente a mesma coisa, porém em Língua Páli, usada na Tradição Theravada.

Assim, qualquer pessoa que pratique o cultivo mental, que desenvolva as virtudes nobres de um ser humano digno, é, em maior ou menor grau de desenvolvimento, um Bôdhissattva! Vocês leitores, são Bôdhissattvas, eu sou Bôdhissattva, a Venerável Monja Coen e S.S. o Dalai Lamá são Bôdhissattvas e o mendigo da esquina, se realmente cultivar virtudes, também está no time dos Bôdhissattvas!

Acho que até aqui, está tudo bem definido e esclarecido, não é? Muito bem! Só que, para complicar as coisas, o Buddhismo Mahayana (todas as Tradições que não são Theravada) interpretou errado isso tudo e inverteu o nome das coisas… No Mahayana se ensina que Arahant é alguém que não está iluminado, sendo, portanto, “menos” que Bôdhissattva. Para complicar ainda mais a situação, criaram vários seres imaginários: Bôdhissattva da Compaixão, da Sabedoria, da Luz Infinita e tantos outros, num panteão de Bôdhissattvas quase igual aos santos da Igreja Católica ou as divindades do Hinduísmo!

Para o ser humano, que já vive à procura de figuras superiores às quais adorar, transferir a culpa por seus fracassos e encher de pedidos, isso é uma invenção perfeita e bastante conveniente, porém, nada tem a ver com o que o Buddha realmente nos ensinou: “Tudo depende unicamente de nosso próprio esforço e de nenhuma força superior externa!”

Quanto aos Veneráveis Arahants – Ven. Shariputra, Ven. Maudgalyalyana, Ven. Mahá Kashyapa e tantos outros monges totalmente Iluminados que conviveram com o Buddha e eram líderes da Comunidade Monástica (Mahá Sangha), o Buddhismo Mahayana os trata como se fossem pessoas normais, na busca da Iluminação, inferiores aos Bôdhissattvas, do modo como esse tipo de Buddhismo os conceitua.

O objetivo de um buddhista seguidor do Ensinamento Original do Buddha, ou seja, da Tradição Theravada, é se tornar um ARAHANT, um Iluminado em vida, aguardando apenas a morte física, para nunca mais renascer de forma alguma. Já o ensinamento Mahayana, prega que devemos nos tornar Bôdhissattvas e, uma vez atingido este objetivo, teremos que “atrasar” nossa própria Iluminação, em função de salvar todos os seres e, só então, alcançarmos o Estado Mental do Nirváña. Eu, através de tantos anos de estudo e vivência do Buddhismo em suas várias formas, continuo certo de que a Tradição Theravada é o Caminho que o Buddha nos deixou explicado e claro. Cabe a cada um investigar e decidir o que acha correto.

Fiquem todos em Paz e protegidos!

 भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 

A todos, Namastê!

 m resposta à pergunta: “Na ótica do Buddhismo, como é encarado o Sofrimento?” vem sendo veiculada num poderoso canal de TV a seguinte resposta: “No Buddhismo, o sofrimento é chamado de Duhka, é A FELICIDADE CÍCLICA…”

“DUHKA” em Sânscrito, ou DUKKHA, o equivalente em língua Páli, falada pelo Buddha, NUNCA foi felicidade, nem cíclica nem de outro modo qualquer! Tampouco devemos traduzir o termo como “sofrimento”, porque Dukkha é muito mais amplo e profundo do que sofrimento (vejam matéria de minha autoria, no Blog).

Dukkha é a primeira das Quatro Nobres Verdades, o coração, o alicerce do Ensinamento Buddhista (também no Blog). Portanto, quando o Buddha declarou que “Tudo no Universo foi, é ou será DUKKHA”, ele não estava se referindo à “felicidade cíclica”, mas sim à INQUIETAÇÃO MENTAL, o que é exatamente o oposto!

Chama-se SUKHA os momentos de felicidade, a trégua, a alegria momentânea que vai e vem, intercalada com Dukkha. Quando nossa mente está calma, despreocupada, aproveitando belos momentos em família, apreciando a natureza ou aproveitando a alegria de receber uma boa notícia, estar recuperado de uma doença grave… Enfim, tudo isso é SUKHA. A isto, sim, podemos chamar de “felicidade cíclica”, porque sabemos que tal sentimento é temporário, não é permanente e, logo logo teremos Dukkha de volta em nossas vidas. Considerando que Dukkha vai desde uma simples dor de barriga durante a madrugada até a morte súbita de uma pessoa amada, podemos constatar que há mais Dukkha do que Sukha em nossa rotina, portanto, chamar Dukkha de “felicidade cíclica”, demonstra falta de conhecimento em língua Páli, do Ensinamento verdadeiro deixado pelo Buddha ou, pior ainda: dos dois.

Espero que esteja clara a diferença entre Dukkha e Sukha. Caso contrário, estou à disposição para maiores explicações! Fiquem todos em Paz e protegidos!

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

 

Próxima Página »