A todos, Namastê!

 Prajnaparamita Hrdaya Sutra é provavelmente o mais popular dos textos do Buddhismo Mahayana. Na verdade, não é exatamente um SUTRA, por algumas razões, a saber: Não foi pronunciado pelo Buddha, mas sim escrito por autor desconhecido, muitos e muitos anos após a morte do Mestre. Assim, não pertence ao chamado Cânone Páli, a coletânea de Escrituras que reportam os discursos reconhecidamente proferidos pelo Buddha, com alguns acréscimos de textos atribuídos aos Veneráveis Shariputra e Maudgalyalyána, ambos iluminados e líderes da Comunidade Monástica (Sangha), à época do Buddha.

Embora seja considerado o mais longo Sutra do Cânone Mahayana, na verdade é parte de uma coletânea de 600 textos, todos sobre a Perfeição da Sabedoria (a sexta das chamadas Perfeições, ou Páramitás), que totalizam 120 volumes, traduzidos do Sânscrito para o Chinês. O texto que motivou esta matéria, vem a ser apenas um resumo da ideia central dessa coletânea, daí ser tão curto.

Não pertencendo à Tradição Theraváda e não sendo de autoria do Buddha, por quê então deveria despertar minha atenção? Por ser verdadeiro! O texto, seja lá de que autor for, é absolutamente verdadeiro e o Buddha o teria dito, porque, em vários Sutras da Tradição Theravada, explicou exatamente o que está descrito nele.

O Prajnaparamita Hrdaya Sutra menciona o Bodhissatta Olokitissarô (Bodhissattva Avalokiteshvára, em Sânscrito). Cabe aqui ressaltar que a figura do bodhissattva não é cultuada na Tradição Theraváda e é fundamental no Buddhismo Mahayana, onde assume proporções às vezes exageradas a nível de adoração. Porém, o Buddhismo Theraváda Brasileiro, por mim fundado, admite – unicamente como SÍMBOLOS de compaixão absoluta e Sabedoria Plena, as figuras de Olokitissarô Bodhissátta e Manjushri Bodhissátta, respectivamente Nesta linha de pensamento, a título de simbolismo e didática, podemos aceitar Olokitissarô Bodhissátta como explicador da vacuidade que caracteriza todas as coisas e, sem radicalismos tradicionalistas, abrir a mente e reconhecer a nobreza do Ensinamento do texto. Quem quer que o tenha redigido, certamente tinha conhecimento profundo sobre o Dharma (Ensinamento) do Buddha e, indiscutivelmente, é digno de respeito!

Abaixo, segue a tradução, de minha autoria, do Prajnaparamita Hrdaya Sutra (ou Paññaparamitá Haraya Sutta, em Páli) e, depois, uma raríssima versão do texto em Língua Páli!

Espero que esta matéria estimule a curiosidade de pelo menos um leitor e que perguntas e/ou comentários sejam feitos, para que todos se beneficiem ainda mais de um Ensinamento tão profundo e importante! Fiquem todos em Paz e protegidos!

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

O PRAJNÁPÁRAMITÁ HRDÁYA SUTRA

(Traduzido em linguagem simples por Vantê Sunanthô Bhikshú)

 

Quando o Bodhisattva Olokitissarô (Avalokiteshvára) completou a prática da Perfeição da Sabedoria Plena, a ser atingida pela Mente, ele contemplou os Cinco Agregados da Existência (ver matéria no Blog) e observou que todos têm o Vazio Absoluto como essência natural.

Assim sendo, Shariputra, a forma é o vazio absoluto e o vazio absoluto é por si só a forma; o vazio absoluto não difere da forma, a forma não difere do vazio absoluto; o que é chamado de forma, é o vazio absoluto, e o que é chamado de vazio absoluto é forma.

O mesmo acontece, Shariputra, com a Percepção, Conceituação, Volição e Consciência.

Porque todas as coisas têm como característica o vazio absoluto; elas nem surgem nem desaparecem; não são desobstruídas nem puras, não são deficientes nem completas.

Portanto, Shariputra, dentro do vazio absoluto, não há forma, nem Percepção, nem Conceituação, nem Volição, nem Consciência.

Também não há olho, orelha, nariz, língua, corpo nem mente.

Tampouco há forma, som, odor, paladar, tato ou conceitos.

Também não há Reino da Visão, Reino da Audição, Reino do Olfato, Reino do Paladar, Reino do Tato, até que atingimos a não-existência do Reino da Consciência.

Tampouco há Sabedoria, ou ignorância, nem extinção da Sabedoria, nem extinção da ignorância, até que atingimos a não-existência da velhice e da morte e a não-extinção da velhice e da morte. Não há nem Dukkha, nem a causa de Dukkha, nem a extinção de Dukkha, nem o Caminho que conduz à extinção de Dukkha. Tampouco há Sabedoria ou aquisição, porque não há cobiça.

Dependendo do Bodhissattva ter atingido a Perfeição da Sabedoria, permanece sem obstáculo mental algum. Por causa da ausência de obstáculos mentais, torna-se destemido, livre de pensamentos ilusórios, alcança assim o (Estado Mental do) Nirváña.

Todos os buddhas, dos três períodos de tempo, atingiram a mais alta, mais perfeita Iluminação, após alcançarem a Completa Perfeição da Sabedoria.

Por esta razão, saiba que o Grande Mantra da Completa Perfeição da Sabedoria, é o Grande Mantra da Sabedoria, o Mantra Insuperável, o Mantra Inigualável. Ele extingue Dukkha por completo e é verdadeiro e real, porque não é falso. É o Mantra proclamado na Perfeição da Sabedoria Plena.

Que é: “Adiante, adiante, mais adiante, ainda mais adiante, rumo à outra margem, assim seja!”

(Gatê, gatê, paragatê, parassangatê, bôdhi swahá!)

Assim termina o Sutra da Perfeição da Sabedoria Plena, atingida pela mente!

A seguir, a rara versão em Língua Páli, para ser recitada em funerais e outras ocasiões em que se ressalta a impermanência e vacuidade de todas as coisas do Universo:

पण्णापारमिता हदयसुत्तं।।

Paññāpāramitā-hadayasuttam|

|namo sabbaññāya||

Evaṁ me sutam| Ekam samayam bhagavā rājagahe viharati gijjhakūṭe pabbate mahatā bhikkhusaṁghena saddhiṁ mahatā ca bodhisattasaṁghena| Tena kho pana samayena bhagavā gambhīrāvasambodhaṁ nāma samādhiṁ samāpanno| Tena ca samayena ariyo Olokitissaro bodhisatto mahāsatto gambhīraṁ paññāpāramitaṁ cariyaṁ caramānā evaṁ voloketi| pañcakkhandhā. Tañca sabhāvasuññaṁ voloketi||

Atha kho ayasmā Sāriputto ariyam Olokitissaraṁ bodhisattam etadavoca: yo hi koci kulaputto vā kuladhitā vā ayaṁ gambhīraṁ paññāpāramitaṁ cariyaṁ caritukāmo, kathaṁ sikkhitabbam? Evam vutte ariyo Olokitissaro bodhisatto mahāsatto āyasmantaṁ Sāriputtam etad avoca- Yo koci Sāriputta kulaputto va kuladhitā vā gambhīraṁ paññāpāramitaṁ cariyaṁ caritukāmo, tena hidaṁ voloketabbam: – pañcakkhandhā -tañca sabhāvasuññam samanupassitum| rūpaṁ sūññatā, sūññatā hiva rūpam| rūpam na aññam suññatā, suññatāya na aññam rūpam| yam rūpaṁ sā suññatā, yā sūnyatā tam rūpam| evaṁ vedanāsaññāsaṁkhāraviññānañca suññyatā |

Evaṁ Sāriputta sabbe dhammā suññatālakkhaṇā. Anuppannā aniruddhā amalā vimalā anūnā asampunnā| Tasmātiha Sāriputta suññatāyaṁ na rūpam, na vedanā, na saññā, na saṁkhārā, na viññānam, na cakkhum na sotaṁ na ghaṇaṁ na jihvā na kāyo na mano na rūpaṁ na saddo na gandho na raso na potthabbam na dhammo| na cakkhudhātu na manodhātu na dhammadhātu na manoviññānadhātu| na vijjā na avijjā na khayo na jarāmaraṇaṁ na jarāmaraṇakhayo, na dukkhasamudayanirodhamaggā na ñānaṁ na patti na-apatti|

Tasmā Sāriputta apattiyā bodhisatto paññāpāramitanissitā viharati acittāvaraṇam| cittāvaraṇa-natthitā-anutrasto viparilāsātikkamānto niṭṭhitanibbānam| tividhavaṭṭhānā sabbe buddhā paññāpāramitānissitā anuttaraṁ sammāsaṁbodhimabhisaṁbuddhā| tasmā ñātabbam: paññāpāramitā mahā-manto anuttara-manto asamasama-manto sabbadukkhapasamana-manto saccam-amiccatā paññāpāramitā-vutto. manto tam yathā- “gate gate pāragate pārasaṁgate bodhi svāhā”| evaṁ Sāriputta gambhīrāyaṁ paññāpāramitāyaṁ cariyāyāṁ sikkhitabbaṁ bodhisattena||

atha kho bhagavā tasmā samādhim uṭṭhāya ariyo Olokitissarassa bodhisattassa sādhukam adāsi- “sādhu sādhu kulaputta| evametam kulaputta, evametam gambhīrāyaṁ paññāpāramitāyaṁ cariyaṁ caritabbaṁ yathā tayā vidiṭṭham| anumodayate tathāgate arahate||

idam avoca bhagavā| attamano āyasmā sāriputto ariyo Olokitissaro ca bodhisatto sā ca sabbāva parisā devamānussāsuragandhabbaca loko bhagavato bhasitam abhinandunti||

iti paññāpāramitāhadayasuttaṁ samatittham|