A todos, Namastê!

NÃO SE DEIXE ENGANAR SOBRE O SAMSARA!

ste ano de 2012 é do tipo que dá trabalho a quem se dedica ao ensino sério de um Caminho… São tantas as interferências de superstições, crendices, previsões e uma infinidade de outras “certezas” ao longo do ano que muita gente já deve estar com medo até de sair de casa!

Não é a primeira vez que um ano assim ocorre. Baseadas na crença de que “o mundo passa de mil, não passa de 2000”, o ano de 1999, até acabar, foi um problema na vida de muita gente. Nada aconteceu e os que juravam que seria o fim da Humanidade, frustrados, acabaram voltando à rotina de um mundo que não acabou…

Nostradamus, o problemático causador de confusões, com suas profecias não cumpridas, acabou caindo na descrença e pouco ainda se ouve falar sobre ele. Acabou substituído pelo tal Calendário Maia, o terrorista psicológico da vez. Soma-se a ele um suposto Tsunami que reduzirá a já populosa parte seca de nosso planeta a poucas ilhotas onde se espremerão os eventuais sobreviventes da catástrofe!

O Irã tira o sono da Europa e América, com seu misterioso Programa Nuclear. A Coréia do Norte talvez ainda esteja chorando a morte de seu ditador, mas já não frequenta os noticiários, até ameaçar de novo o mundo. Os europeus e os japoneses – que nem se recuperaram do acidente nuclear – morrem debaixo de toneladas de neve como nunca vista antes, sendo a Europa um continente à beira do caos econômico que, cedo ou tarde, deve respingar em países emergentes como o nosso…

Como se não fosse bastante o surto de Dengue, a América do Sul parece viver também um surto de CÂNCER em suas autoridades e presidentes! Violência, doenças, ameaças nucleares, previsões de tragédias… Enfim… O Samsara (nome dado ao mundo onde renascemos sucessivamente) continua exatamente do jeito que o Buddha o definiu, quase 3000 anos atrás, mas, apesar disto, as pessoas preferem crer nos Maias! Aliás, esse povo, tal como todas as chamadas civilizações précolombianas, era desenvolvido em muitos aspectos, porém, no quesito compaixão e cultivo de virtudes, deixou muito a desejar! Atacavam e escravizavam outros povos, faziam sacrifícios humanos aos deuses e todo tipo de barbaridades, nada dignas de serem respeitadas, muito menos seguidas como exemplo! Apesar disto, as pessoas ouvem mais aos Maias que ao Buddha…

Há também pessoas que sofrem de algo que eu chamaria de “síndrome do avestruz”! Enfiam as cabeças na areia e, em vez de Tsunamis ou fim do planeta, pregam o início de uma Nova Era de Paz e harmonia, quando todas as evidências mostram que nada vai melhorar no Samsara! Não importa o que possam dizer os astros ou os números, sinceramente falando, não há indício algum que este ano, especificamente, seja o início de qualquer melhoria na situação da Humanidade!

Curiosamente, para a alegria das vítimas da “síndrome do avestruz”, tenho notado a grande tendência ao fortalecimento da “Tradição Poliana de Buddhismo”. Para quem não sabe, Poliana é a personagem de um romance antigo. A tal menina sofria mais que jegue de beduíno! Todos a maltratavam, e, apesar disso, tinha um otimismo em relação à vida que, de tão utópico, chegava a irritar os leitores! Acabou se tornando um rótulo para quem exagera na dose de otimismo… Pois bem, o que eu chamo de Buddhismo Poliânico parece ter esse tipo de visão em relação ao Samsara.

Pregar que o mundo vai se tornar um lugar melhor, que tudo vai mudar através da prática do Buddhismo, é uma boa estratégia de marketing para atrair seguidores. Também há a possibilidade de quem ensina tais coisas REALMENTE acreditar nelas, por alguma distorção dos Ensinamentos do Buddha. Na verdade, quero crer que não é com má intenção que determinados monges e monjas dizem a seus seguidores que somos capazes de acabar com o Samsara, transformando-o num mundo ideal!

À luz do que o Buddha realmente nos ensinou, o Samsara é IRREMEDIAVELMENTE do jeito que é! Aliás, ninguém melhor do que o Buddha para falar sobre o assunto!

Devemos nos lembrar que Siddharttha Gáutam nasceu e cresceu cercado de “profissionais em fantasiar o Samsara”. Tinha a seu dispor todo tipo de prazeres materiais e sensuais, todo tipo de truques para que pensasse no mundo como um lugar perfeito para se viver! Mesmo assim, a tristeza e inquietação profundas dentro de seu peito, não permitiram que se deixasse enganar sobre o Samsara e, graças a isso, hoje temos o Buddhismo, afinal, foi motivado pela CERTEZA de que o mundo nunca mudará que Siddharttha deixou o palácio de seu pai, na busca de um modo de se livrar de uma vez por todas da vida no Samsara. Foi esse Ensinamento que ele tanto se empenhou em nos transmitir!

Diante disso, não é realmente correto, em nome do Buddha, divulgar algo utópico e ilusório de que vivemos neste mundo com o OBJETIVO de mudá-lo até que se torne perfeito e bom para vivermos nele! Claro que devemos, sim, praticar o bem constantemente. Devemos nos esforçar ao máximo para conviver em harmonia com as pessoas e todos os outros seres do planeta. Temos que ser tolerantes, pacíficos, éticos, educados e constantemente desenvolver as virtudes da nossa mente. Mas não por causa do Calendário Maia nem de qualquer tipo de profecia que venha a ser descoberta quando 2012 passar. O cultivo mental deve ser praticado simplesmente como algo natural e inerente, já que cada um de nós já é um buddha em potencial e tem em si as condições necessárias para atingirmos a Iluminação.

O Samsara existe para ser superado. Seus obstáculos não surgem diante de nós para serem transformados “num mar de rosas”, mas sim para NOS tornarmos fortes e experientes, capazes de ver nossas dificuldades como realmente são, sem fantasias nem ilusões e, somente assim, somos capazes de superá-los, seguindo adiante, até o fim de nossa jornada rumo à Iluminação.

Não importa quantas distorções tenham surgido após a morte do Buddha, mas o fato é que ele nunca nos instruiu a transformarmos o mundo para que todas as criaturas vivam nele. Não é esse o papel de um seguidor do Buddhismo!

O Buddha nos disse que devemos mudar A NÓS MESMOS. Apenas! Ao fazermos isso, sem tentativas de convencer, converter ou salvar outras pessoas, mas sim servindo de EXEMPLO para elas, não fazemos com que o Samsara se transforme, mas conseguimos nos livrar dele, nunca mais renascendo nele, atingindo a Paz Eterna e inabalável do Nirváña, um Estado Mental de absoluta pureza, inimaginável para seres humanos comuns, mas que é possível de ser atingido aqui e agora, exatamente como aconteceu com o Buddha e muitos dos monges TOTALMENTE ILUMINADOS que o acompanharam, os chamados ARAHÁNTS, que estavam aguardando somente a morte física para nunca mais renascerem no Samsara. Isto é Buddhismo claro e simples, do modo como o Mestre Shakya Múni – O Buddha – nos ensinou. Distorcer isso é criar falsas expectativas que, quando não atingidas, levarão o praticante do Buddhismo a se afastar, decepcionado, o que realmente é lamentável. Enquanto imaginarmos que seremos capazes de salvar todos os seres do planeta e, pior que isso – acreditarmos que essa é nossa missão no mundo, estaremos atrasando nosso real objetivo, em função de algo utópico e impossível. Assim, não estaremos nem efetivamente salvando os outros nem seguindo o verdadeiro Ensinamento do Buddha: Conhecer a si próprio, praticar a compaixão, o amor incondicional, a generosidade e o desapego aos conceitos e bens materiais, cultivar as virtudes do Nobre Caminho Óctuplo e, uma vez iluminado, unicamente através do nosso exemplo, outras pessoas – SE ASSIM QUISEREM – seguirão o mesmo Caminho! Quanto ao Samsara, é e sempre será o enorme palco de infinitos momentos de alegria e felicidade, intercalados com todo tipo de descontentamento, decepção, catástrofes e inquietação mental, protagonizados por nós humanos e todos os demais seres vivos. Fiquem todos em Paz e protegidos!

 Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ