A todos, Namastê!

A PALAVRA MAIS IMPORTANTE DA LÍNGUA PÁLI

magino que as pessoas sem contato mais aprofundado com o Buddhismo não saibam o que é Páli. Trata-se de uma espécie de dialeto do Sânscrito, certamente menos desconhecido, graças ao Hinduísmo. Podemos dizer que o Sânscrito é a língua dos sacerdotes, dos generais e reis, ou seja, da elite aculturada, enquanto que o Páli era a língua do povão, das massas, da classe operária, sem acesso a um nível cultural mais elevado… Na verdade, o nome da língua não é Páli, que significa “texto”, mas sim MAGÁDHI, a língua oficial do Reino de Magádha, o maior e mais poderoso daquela época.

Graças à Tradição Theravada, a língua Páli, adotada pelo Buddha, exatamente por ser do “povão”, sobreviveu aos tempos e, ao contrário de ser uma língua extinta, tem passado por um incrível movimento de revitalização, em vários países, a ponto de vermos universitários americanos e europeus trocando e-mails em Páli!

As outras formas de Buddhismo, chamadas de Mahayana, adotaram o Sânscrito e, posteriormente, línguas como o Chinês, Coreano, Japonês e Tibetano.

Há muitas palavras bonitas e de profundo significado em Páli que, para as pessoas que praticam o Buddhismo, são até bastante conhecidas, tais como: Karuná, que significa “compaixão verdadeira”, Mettá – “amor altruísta e incondicional por todos os seres do Universo”, Dána – “generosidade que conduz ao desapego” e muitas outras. Todas são bonitas e devem ser entendidas e praticadas como expedientes para atingirmos a Iluminação.

Há, porém, uma palavra desconhecida até mesmo da maioria dos buddhistas e é justamente a minha favorita, pelo caráter divisor de águas no Buddhismo! Quem começa a estudar Buddhismo, inevitavelmente se depara com as “Quatro Nobres Verdades” (há matérias no Blog sobre este tema), o coração do Ensinamento do Buddha. Com total Sabedoria, o Iluminado nos fala sobre Dukkha, toda e qualquer forma de inquietação mental. Nos prova “por A + B” que todas as coisas do Universo são, com certeza, fontes de desilusão e inquietação e não devemos nos apegar a elas. Continuando, o Buddha nos prova que estamos em total estado de decadência, inevitavelmente caminhando para a velhice, doença e morte – fatos que vêm se repetindo há uma infinidade de séculos!

O Buddha nos fala, ainda, que somos cultivadores em potencial do apego, ignorância e raiva! Terrível, não é? É como se estivéssemos todos perdidos, sem esperança, sem sinal de luz no fim do túnel! Se tudo no mundo resulta em inquietação mental, se somos ignorantes, apegados e raivosos, não há nada que dê jeito!

Parece até esses filmes onde o herói e seus amigos estão totalmente cercados por centenas de inimigos cruéis e o fim parece inevitável! É justamente nesse ponto que surge a palavra mais significativa (e menos valorizada!) do Buddhismo: NIRÔDHA! Este é o nome da Terceira Nobre Verdade. Nirôdha, vem sendo traduzido com “extinção”, “cessação”, “aniquilação”… No sentido mais profundo em Páli, é como se pegássemos uma planta daninha e venenosa pelo caule, com força, a arrancássemos da terra e a deixássemos de cabeça para baixo, com as raízes expostas ao Sol, para secarem sem chance de voltarem à vida.

Nirôdha é a BOA NOTÍCIA, é mais que uma esperança – uma certeza de luz no fim do túnel! Quando o Buddha nos anunciou apenas: “Nirôdha!” como a Terceira Nobre Verdade, ele nos deu uma garantia (que só um Iluminado poderia dar!) de que não precisamos nos desesperar, muito menos desistir! Há uma certeza de que podemos nos libertar do constante ciclo de mortes e renascimentos (Samsara). Após anunciar “Nirôdha”, o Buddha nos indicou o Caminho a percorrer (a Quarta e última Nobre Verdade). Mas, se não houvesse “Nirôdha”, não chegaríamos ao Caminho. Estaríamos irremediavelmente mergulhados nas inquietações mentais que o mundo nos causa.

Quando nos sentirmos desanimados, sem incentivo para seguirmos adiante, podemos, na quietude de nossa mente, repetir: “Nirôdha”, como um mantra, como um remédio que, gota a gota, cura nossa ansiedade, nos tranquiliza, nos dá força para continuarmos a caminhada rumo à Iluminação.

Uma palavra tão curta e simples, quase desconhecida no imenso vocabulário buddhista, é um divisor de águas, como a palavra da certeza da Iluminação! Fiquem todos em Paz e protegidos!

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ