A todos, Namastê!

esde outubro de 2011 estou em “São Chico” e, até agora, realmente só tenho a agradecer a esta cidade pela recepção e respeito que venho recebendo! A cidade, embora pequena, é confortável, prática – pode-se ir a qualquer lugar a pé, bastante hospitaleira e, guardadas as restrições de que muita gente ainda se assusta ao ver um monge buddhista andando na rua, nunca fui desrespeitado ou ridicularizado por ninguém, muito pelo contrário!

Minha missão, porém, ainda está longe de se concretizar… O tempo vai passando e ainda estou morando na modesta casinha que alugaram para mim sob a condição de que seria PROVISÓRIA. Aos poucos, o provisório está se alongando mais do que devia e isto não é bom. Principalmente porque estou usando para pagar aluguel, o dinheiro destinado à construção do meu templo e andamento de meu Projeto, voltado para ação social em benefício da cidade e seus moradores, portanto, é como a areia de uma ampulheta que, sem parar, está escorrendo, rumo ao fim.

Para reverter tal situação, o único modo é aumentar o número de doações financeiras e este é um ponto crucial e bastante delicado! Infelizmente, a grande maioria das pessoas no ocidente e, principalmente, no Brasil, não vê razão alguma para fazer doações a um monge. Pior que isto, acham que alguém que “não trabalha” é vagabundo e deveria se mexer e achar um emprego… Não passa na cabeça das pessoas que faço meu trabalho diariamente: estudo, faço pesquisa, oriento pessoas, traduzo Escrituras buddhistas, livros, mando mensagens e transmito Ensinamentos poderosos o bastante para mudar a vida de quem os acolhe. Junto com isso, faço todo o serviço de “dono de casa”, incluindo pagamento de contas, limpeza da casa, supermercado e cozinhar… Aliás, às vezes as pessoas reclamam que me procuraram em casa, buscando aconselhamento e Ensinamentos e, por mais de uma vez, não me encontraram em casa. É exatamente porque estou na rua, fazendo compras ou esperando numa fila para pagar contas. Agora, imaginem se eu tivesse também, que passar algumas horas do meu dia num  emprego convencional? Onde acharia tempo para atender as pessoas e fazer todas as tarefas de monge, para as quais dediquei 6 anos de treinamento na Ásia?

Não trabalhar, longe de ser vagabundagem, é algo muito mais sério do que as pessoas imaginam. Viver EXCLUSIVAMENTE de doações, significa depender inteiramente da generosidade das pessoas, num país onde elas não tem por hábito ser generosas! Significa não saber se o dinheiro será suficiente para pagar as contas ou comprar comida e, ainda assim, não se deixar amedrontar ou desanimar por isso.

Quem vive da generosidade alheia, tem responsabilidade dobrada sobre onde usar cada centavo recebido, porque cada centavo é fruto do trabalho árduo de alguém que, confiante na minha missão como monge, doou dinheiro para me manter. Me manter, não significa ficar em casa, de pés pra cima, olhando TV. Ser mantido pelas outras pessoas, significa ter obrigações para com elas, tais como estudar cada vez mais o Buddhismo, estar sempre pronto e BEM DISPOSTO a orientar qualquer pessoa que bata palmas diante da casa onde estou alojado, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre com o mesmo sorriso SINCERO!

Outra coisa que ninguém sabe é que, a menos que alguém me ofereça ou pergunte se preciso de algo, por Preceito Monástico, eu NÃO TENHO O DIREITO de chegar para quem quer que seja e pedir algo, portanto, acho que fica claro o quanto é complicado não trabalhar e viver de doações.

O terreno que me foi doado, no loteamento Alpes de São Francisco, ainda está lá, do jeito que o recebi… Precisa ser limpo, devidamente cercado com alambrado e, após a Cerimônia Buddhista para purificar a terra, nele construirei uma casa onde iniciarei as atividades buddhistas – meditação, palestras, Ensinamentos e rituais. Para que isso comece a se tornar realidade, necessito de muitas, muitas doações mesmo e, até agora, não consigo visualizar de onde virão…

O inverno se aproxima e, logo, São Chico se tornará uma geladeira! A casa onde estou não tem lareira e o aquecedor que tive que comprar não será suficiente para aquecê-la. Meu objetivo é limpar o terreno e, correndo – contra o tempo e o frio, me mudar para o local definitivo. Muitos serão os obstáculos com a mudança. Sem carro, distante da cidade, sem ônibus regulares para chegar ao centro de “São Chico”, ficarei ainda mais solitário e isolado, mais dependente de tudo e de todos para me manter na cidade. Enfim, é o que tenho e, como monge, não cabe a mim ficar me lamentando, mas sim criar condições para me adaptar a qualquer situação que a vida me apresentar.

Com esta mensagem, já um tanto longa, espero sensibilizar os corações das pessoas para uma situação que, com a ajuda de todos, pode se tornar benéfica para a cidade como um todo. Um Templo Buddhista não é partidário, não é elitista, não seleciona a quem ajudar, não verifica a crença de cada um antes de ajudar. Portanto, não há como achar que um Templo Buddhista não é importante para São Francisco de Paula e arredores. Se ele se tornará realidade ou não, fica a cargo da consciência e mobilização (ou não) dos moradores da cidade. Aos que decidirem abraçar essa ideia e colaborar com doações, fica aqui meu agradecimento antecipado!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

Reverendo SUNANTHÔ BHIKSHÚ

Monge Theravada

Representante do Brasil na

Conferência Buddhista Mundial