A todos, Namaste!

CÉLIA SHASTRA – a Explicação para Célia

os meus tempos de guri, com as Aulas de Religião, Catecismo e Missa, no tradicionalíssimo Colégio Santo Inácio, onde os Jesuítas até hoje ensinam a nata da elite carioca, eu já não tinha fé cega… Aquela fé que as pessoas acham tão necessária para seguir uma Religião, sempre me faltou!

Meu caráter muito questionador e investigador, nunca permitiu que eu acreditasse simplesmente por acreditar e, por mais que padres, professores e palestrantes tentassem me convencer de certas verdades dentro da Religião, elas sempre permaneceram questionáveis e dignas da minha desconfiança! Claro que isso, nos meios religiosos, sempre me causou diversas situações difíceis e, muitas vezes fui até hostilizado por duvidar do que, para todos, é absolutamente induvidável e inquestionavelmente verdadeiro!

Minhas incursões por tantas outras Religiões: a tentativa de me tornar muçulmano, os anos que segui rigorosamente o Judaismo, minhas tentativas de abraçar o Kardecismo e minha posição radical em relação ao Hinduismo (“Um Ser Humano não pode ser adorador de Vacas e Macacos!” – era minha opinião), me levaram a um afastamento, um recuo estratégico, às margens do ateismo, para pegar fôlego! Foi a fase “sexo, drogas e rock´n´roll”, durante os anos em que morei pela segunda vez em Israel, já totalmente livre dos laços que me prendiam ao Judaismo.

Voltei para o Brasil em 1996 e foi só então que, ainda totalmente perdido nas tolices e prazeres fúteis, tive meu primeiro contato com o Dharma, a Mensagem do Buddha. Foi o que se pode chamar de “love at first sight” (amor à primeira vista!). Como se alguém que estivesse vagando há dias pelo deserto, encontrasse um oásis, cheio de água fresca, muita sombra e alimento em fartura e, podem crer nesse exemplo, porque sobre vagar no deserto, literalmente, eu entendo…rs

O Buddhismo me trouxe respostas a perguntas que o piá, o guri, o soldado no exército de Israel, o punk e todas as outras fases de minha vida, vinham carregando! De repente, como se tudo tivesse sido escrito especialmente para mim, todas as minhas dúvidas e questionamentos foram resolvidos.

Lembro bem que, uma de minhas perguntas inicias ao primeiro mestre de Buddhismo (já falecido) que tive, foi exatamente sobre CRENÇA. Afinal, se o Buddha não é deus, como ele já havia me explicado, então, cremos em que??? – EM NADA! Foi a resposta dele! Vivemos com a autoconfiança, a certeza de que somos capazes de percorrer o Caminho. O mesmo percorrido com total sucesso pelo homem, comum e ao mesmo tempo tão especial que foi Siddharth Gáutam. Se ele conseguiu, também nós somos capazes!

Tal raciocínio me convenceu, mas, ao mesmo tempo, depois de tanta busca, tanta gente tentando me convencer de que preciso ter FÉ em algo superior a mim, não é tão fácil assim jogar todo esse peso para o alto e sair, leve e faceiro pelos Caminhos do Buddha! Vez ou outra, mesmo este ex-soldado israelense que agora é um velho monge, tende a procurar algo fora de si mesmo, em que confiar…

Meus amigos monges, na Ásia, sempre insistiram: “Confie no Dharma!” – Ora! dizia eu, o Dharma não é uma pessoa, não é uma entidade, não é algo visível! E eles me corrigiam: “Nada é mais visível que o Dharma, tolo Sunanthô! Ele está em toda parte, em cada fenômeno, interno e externo, porque tudo o que existe no Universo, é Dharma! Basta observar com os olhos da Sabedoria! Foi isso que o Buddha nos mostrou, porque foi esta a grande descoberta dele: A constante impermanência e mutação de tudo o que existe – sem exceção!”

Foi só então, que eu comecei a confiar! Mesmo assim, eu precisava de experiências, precisava por a teoria em prática, afinal, foi isso que o Buddha nos aconselhou: “Não acredite em nada! Nem mesmo nas minhas próprias palavras, antes de poder comprová-las como verdadeiras na sua vida diária!”

Assim foi! Certa manhã, ainda morando na gigantesca Bangkok, saí sozinho, logo cedo, descalço e levando minha tigela de mendigar alimentos, como fazia todos os dias. Eu estava preocupado! Tinha que juntar dinheiro para a passagem de trem até a Malásia, onde renovaria meu carimbo de permanênca na Tailândia… O visto estava perto de vencer e eu estava longe de conseguir o dinheiro da passagem!!

Após muito andar, a tigela já estava cheia de comida. Suficiente para duas refeições, mas, teimoso que fui, pensei assim: “Vou continuar andando, talvez, aos pouquinhos, as pessoas doem dinheiro também!” Mas, logo em seguida, me veio à mente: “Que vergonha, Sunanthô! Foi para isso que tu te tornaste monge??? Com a tigela cheia, por Preceito, tens que volta ao Templo, mas estás apegado à ideia de ganhar DINHEIRO! Volta já para o Templo! Confia no Dharma, como teus amigos sempre te dizem para fazeres!”

Imediatamente, peguei uma ruazinha deserta, estreita, com as lojas ainda fechadas, na Bangkok que estava despertando. Era só eu, voltando a passos apressados para o Templo… Foi então que um carro me assustou, buzinando bem atrás de mim! Era um carro de luxo, bem grandão… Abrindo a janela do meu lado, o motorista, esticando a mão, me entregou uma nota de TB$100 (cem bahts tailandeses), cerca de metade do dinheiro que eu precisaria para ir à Malásia!! “Namaskár, Phra Ajahn khrap!” – Algo como “Saudações, senhor grande mestre”.

Ainda confuso, eu peguei o dinheiro, agradeci simplesmente com um leve movimento da cabeça, como manda a Tradição e, com a imagem de meus amigos me dizendo: “Sunanthô… Apenas confie no Dharma!”  Continuei minha caminhada de volta ao Templo.

Quando estamos no Caminho certo, purificando a mente, abandonando nossos apegos e obstáculos, procurando constantemente fazer as coisas certas, sem causar mal a ninguém, dentro da moral e da ética – criamos nós mesmos a combinação de causas e condições, para que tudo saia de modo favorável! Isto é confiar no Dharma, não é fé cega!

Se um agricultor mora numa localidade de bom clima, com as quatro estações bem definidas. lá compra um pedaço de terra de boa qualidade, escolhe sementes selecionadas que ele semeia no solo bem preparado, no período certo… Ele as mantêm irrigadas e bem nutridas. Agindo assim, cria condições para que as causas – uma colheita farta – aconteçam. Da mesma forma, o praticante que segue o Dharma, do modo que o próprio Buddha praticou e nos deixou com todas as instruções, pode CONFIAR EM SI MESMO E NO DHARMA, porque o resultado é infalível – se chama NIRVÁÑA!

Fiquem todos em Paz e protegidos!