A todos, Namaste!

 

um destes dias, olhando TV, achei muito engraçado que, durante um debate, as pessoas estavam fascinadas com o modo como perfumes, música e sabores nos transportam a lugares, momentos e pessoas do passado… Se tivessem algum conhecimento de Buddhismo, saberiam claramente que, mais de 3000 anos atrás, o Buddha já tinha percebido e explicado isso com clareza e nos alertado sobre os perigos que correm as pessoas desavisadas sobre como lidar com tais viagens mentais.

O Buddha chamou de Portas dos Sentidos ao que conhecemos como Cinco Sentidos, só que acrescentou A MENTE, como a Sexta Porta, já que é ela quem administra suas cinco companheiras. Assim, na ótica buddhista, temos: tato, olfato, paladar, visão, audição e mente como Portas dos Sentidos e seus respectivos objetos, a saber: objetos palpáveis em contato com nosso corpo, aromas e odores, sabores degustáveis, imagens perceptíveis a olho nu, sons e barulhos de todo tipo e nossas memórias, conceitos, opiniões e experiências – sempre administradas pela mente.

São estas experiências de contato entre Portas e Objetos, que formam o KARMA o qual nos mantém presos a este mundo, renascimento após renascimento, por zilhões e zilhões de existências!

O que a maioria das pessoas pensa, no entanto, é em termos de morrer e renascer (o termo é mais correto que “reencarnar”, usado pelo Hinduísmo e Kardecismo) e não do modo muito mais profundo e relevante que o Buddha explicou, que vem a ser a quantidade de “renascimentos instantâneos” que podem chegar a mais de 1000, aos quais estamos sujeitos em UM ÚNICO DIA!

Imagino que, até então, o que eu já disse acima, não está claro para quem não tem noção sobre Buddhismo, mesmo para os que têm conhecimento sobre o Buddhismo como realidade relativa e não REALIDADE ABSOLUTA. Portanto, é hora de usarmos de alguns exemplos, na tentativa de deixar claro o Ensinamento mais profundo e absoluto do Buddha que, em linguagem técnica, tem o difícil nome de PRATITYASSAMYUTPÁDA, ou A Lei da Originação Dependente – nome, por sinal, igualmente complicado!

Enquanto Realidade Relativa, o Buddhismo afirma que nós, nesta existência, renascidos como Seres Humanos, estamos perambulando como prisioneiros na chamada Roda da Vida, onde temos as seguintes escolhas de renascimentos, sempre movidos pela força de nossas boas e más ações: Reino dos Infernos, Reinos dos Fantasmas Famintos, Reino dos Animais, Reino dos Ashuras (ou Semi-deuses Guerreiros), Reino dos Devas (Seres Celestiais dedicados aos prazeres sensuais) e Reino dos Humanos.

Eu poderia passar horas descrevendo cada um desses tipos de renascimento, mas isso é figurinha fácil em qualquer site de Buddhismo e, portanto, não vou me estender muito sobre o tema, optando por usá-los como exemplos já inseridos no que realmente me interessa explicar nesta matéria – o Buddhismo como Realidade Absoluta, o ponto mais profundo, o coração do Ensinamento do Buddha, que é justamente a tal palavra difícil – Pratityassamyutpáda.

O Buddhismo relativo, nos diz basicamente o que as Religiões ensinam… Se alguém comete um assassinato, APÓS A MORTE, vai para o inferno… Quem for bom e justo, merece – também APÓS A MORTE, uma vida melhor, um prêmio, um “certificado de bom comportamento”… Até aí, nada de novo!

O Buddha nos mostrou, porém, que a coisa não é tão simples, não é tão 2 + 2 = 4… Vejamos por exemplo, um homem. Ele é um ser humano normal, que está apaixonado por uma mulher. Ela está viajando e ele, em determinado momento, pega uma camisa usada e sente nela o perfume de sua amada, ainda bem forte. Ele agarra a camisa, a leva até o nariz e, de olhos fechados, se recorda de todos os momentos que passaram juntos. As carícias, os toques, os beijos e palavras de amor que trocaram! Naquele momento, ele não está mais presente, não é mais o homem que pegou a camisa! Sem estar consciente, sem ter usado de Atenção Plena, ele se deixou transportar para uma outra forma de existência! Agora está no Reino dos Devas, seres que têm como principal ocupação na vida os prazeres sensuais, as sensações físicas prazerosas!

O homem pode sentir um infinito prazer ou um enorme vazio, ao lembrar que sua amada ainda vai demorar a voltar! De qualquer modo, o ponto de onde partiu ao sentir o perfume, sua viagem de emoções sensuais e seu retorno à realidade, foram um RENASCIMENTO INSTANTÂNEO em outro Reino da Existência e, ao “voltar a ser humano” sua experiência causou INQUIETAÇÃO MENTAL (ou Dukkha, no termo técnico usado pelo Buddha). Ter renascido como Dêva e voltado a ser humano causou nele a sensação de vazio, de ausência, de saudade.

Continuemos com o exemplo do homem segurando a camisa com o perfume da mulher amada… Só que, desta vez, a mulher o traiu, abandonou e fugiu com seu melhor amigo! Ao sentir o perfume na camisa ele sente crescer em si uma grande raiva! Furioso, pensa: “Aqueles dois ordinários! Devem estar juntos, na cama, rindo de minha infelicidade! Se eu os vir na minha frente, acabo com os dois!”

Nesse momento, o contato da Porta do Sentido do Olfato, com o Objeto Aroma dos Sentidos, fez com que o homem sofresse um renascimento instantâneo no Reino dos Infernos, onde os demônios são capazes de planejar a morte de alguém! Até que ele se acalme e volte “ao mundo humano”, terá passado por uma experiência amarga de inquietação mental. Seu karma negativo, ainda que somente mental, causou nele Dukkha.

Vamos ver outro exemplo, desta vez com um guri que está com a namorada numa casa noturna. Numa mesa próxima, um grupo de rapazes está conversando, rindo e bebendo… O guri que está com a namorada, cisma que um dos rapazes está olhando para a guria dele! Furioso, se levanta e vai até o grupo, tomar satisfações…

Mesmo evitando brigar com o guri, o grupo não consegue acalmá-lo! Está com tanta raiva e descontrolado, que a briga é inevitável.

Mesas derrubadas, cacos de vidro por toda parte, gente sangrando e uma noite estragada que termina na Delegacia de Polícia, para onde os pais de todos são chamados no meio da noite! No momento que se levanta, já decidido a brigar, o guri já tinha deixado de ser humano. Sem a Atenção Plena, que deveria ter sido usada como defesa própria, ele sofreu um RENASCIMENTO INSTANTÂNEO no Reino dos Ashuras, semi-deuses guerreiros, que passam a vida toda se ocupando em procurar encrencas, brigas e guerras. Quando não têm motivo algum, não há problema: eles inventam um!

Em sua trajetória, de quando renasceu como Ashura, até o momento que se acalmou e voltou à forma humana, seu mau karma lhe causou uma terrível experiência de inquietação mental, DUKKHA!

No exemplo a seguir, temos um guri na escola, no horário do lanche. Ele está sentado no pátio, com fome, aguando a boca só de olhar o belo sanduíche que a mãe preparou para ele! De repente, ele vê um coleguinha se aproximando… Eles se conhecem e o guri sabe que o outro não trouxe nada de casa, nem tem dinheiro para comprar algo na cantina da escola.

Com medo que o colega lhe peça um pedaço do lanche, o guri mete todo o sanduíche na boca e, com as bochechas estufadas, tenta engolir tudo o mais depressa possível. Pessoas incapazes de compartilhar, que estão sempre preocupadas em acumular pequenas coisas, com medo de que algo lhes falte, estão sempre sujeitas a um “renascimento instantâneo” no Reino dos Fantasmas Famintos. São criaturas miseráveis e desprezíveis, que vagam durante milhões de anos num ambiente hostil, escuro e desértico, onde brigam pelas migalhas  e restos de alimento que conseguem encontrar. Ao devorar seu sanduíche, sem nem apreciar o gosto da comida, o guri renasceu como uma dessas criaturas infelizes. Também ele passou por uma experiência de DUKKHA, inquietação mental!

 

Como último exemplo, vamos ver dois guris que, no pátio da escola observam uma linda guria passando… Ela é a mais bonita da escola e ambos a desejam muito! Ela sabe disso e, diminuindo o passo, usa de todo o seu charme para despertar ainda mais a atenção dos dois!

Não demora muito para que a discussão dos dois se transforme numa briga. Caídos no chão, atracados e se esmurrando, só param quando os colegas e supervisores da escola os agarram e os mantém separados. Do momento que começam a discutir, até o final do incidente, quando recobram a calma, os dois guris, que não souberam usar da Atenção Plena para ver com clareza os fatos, sofreram um renascimento instantâneo, desta vez, no Reino dos Animais, nossos companheiros constantes neste mundo. Passaram a agir exatamente como os machos que brigam por uma fêmea, no período de reprodução.

Agiram como os cães, correndo pelas ruas atrás da fêmea no cio… Tal experiência, lhes causou inquietação mental. Até recuperarem suas formas humanas, passaram por DUKKHA.

Conforme o Buddha explicou, é assim que produzimos KARMA. Sem estarmos treinados, sem estarmos atentos ao que se passa dentro de nós e à nossa volta, caímos constantemente nas armadilhas que os objetos dos sentidos nos preparam!

Sempre que deixamos o EMOCIONAL falar mais alto que o RACIONAL, toda vez que, sem disciplina nem cultivo mental, permitimos que a mente faça o que quer, o resultado é o renascimento em um dos Reinos da Existência e o processo de recuperar nosso renascimento humano é, muitas vezes, perigoso e extremamente doloroso, chegando a ser até irrecuperável!

PRATITYASSAMYUTPÁDA não é algo distante, subjetivo ou pós-morte! Toda vez que salivamos ao sentir o aroma de um bolo, arregalamos os olhos quando algum corpo bonito cruza nosso caminho, invejamos o belo carro novo do vizinho, nos enchemos de raiva do cachorro que late perturbando nosso sono… Tudo isso nos expõe a renascimentos instantâneos e, todos nós sabemos que isso ocorre o tempo todo em nossas vidas.

É assim que, na REALIDADE ABSOLUTA do Buddhismo, somos constantes produtores de mau karma (para nossa sorte, também somos capazes de produzir BOM karma!) e continuamos prisioneiros do ciclo de existências sucessivas, distantes da libertação final que  é o Estado Mental de NIRVÁÑA. Quanto menos apegados aos nossos desejos, vontades, devaneios, opiniões e conceitos, mais próximos estaremos de evitar essa fonte contínua de karma e, consequentemente, mais chances teremos de alcançar a Iluminação!

Lembrem-se sempre: todo apego é um obstáculo em potencial para a Iluminação!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ