A todos, Namaste!

e vez em quando, surge alguém com a pergunta: “Bhantê, o Sr. acha que Jesus Cristo era um Iluminado? Ele era deus?” Mais do que me perguntarem, também, às vezes deparo com a imagem de Jesus Cristo junto com a do Buddha num altar, ou fotos dos dois caminhando juntos…  Para embaralhar ainda mais as ideias dos já confusos brasileiros, aparecem monges ou monjas buddhistas que, em vez de se limitarem a seguir o Buddha, a quem, no momento em que foram ordenados, juraram seguir como único Mestre, divulgando fotos de Jesus Cristo em igualdade total com o Buddha. Aí a coisa complica e resolvi dar minha opinião sobre a questão!

Antes de mais nada, cabe aqui deixar claro que não sou “Juíz de Iluminação” nem “Medidor de Cultivo Menal Alheio”, portanto, não tenho que saber ou dizer se Jesus Cristo era Iluminado ou não… Também não vou entrar no mérito da questão da divindade ou não dele. Posso dizer que, se eu fosse seguidor de Jesus Cristo, no momento seria Padre ou Pastor e não um monge buddhista, não acham? Agora, em minha humilde opinião, discordo quando Jesus Cristo e o Buddha são comparados, e tenho algumas razões para isto, que são:

O Buddha nasceu e viveu no espaço geográfico que hoje chamamos de Índia. Morreu 600 anos antes do nascimento de Jesus Cristo, numa sociedade e cultura completamente diferentes da Palestina ocupada pelos Romanos, onde Jesus Cristo surgiu. Só isto, já seria suficiente para estabelecer enormes diferenças entre os dois. Mas vou mais além:

Historicamente, podemos comprovar a existência do Buddha e o acompanhamento de toda a sua existência, desde a vida de seus pais, passando por seu nascimento, infância, fase adulta, velhice e morte. Mesmo descartando toda a parte mística e fantasiosa – criadas pela fértil imaginação indiana, temos registros arqueológicos de todos os fatos da vida do Prícipe Siddharth Gáutam, que se tornou conhecido como O Buddha. É, portanto, um personagem humano e uma figura histórica.

Quanto a Jesus Cristo, sem querer negar que tenha existido, sabe-se muito pouco a respeito dele. Os registros históricos e arqueológicos são controversos mesmo entre as diversas correntes cristãs. Ninguém pode afirmar ao certo onde esteve e o que realmente fez, no período entre sua maioridade judáica – aos treze anos e seu ressurgimento, já adulto, para sua rápida passagem pela história da Humanidade, antes de ser morto na cruz. Tal falta de comprovações históricas, dá margem a inúmeras especulações e alterações dos fatos, manipulados pelas diversas fases – nem todas honestas e éticas – pelas quais o Cristianismo passou.

Quanto às características pessoais, o Buddha sempre afirmou ser apenas um ser humano. Nunca disse que era deus, nem mensageiro de deus algum, muito menos filho de um deus único que o enviou à Terra. Ao contrário, Jesus Cristo, não somente afirmou ser Filho de Deus, como o tratava por Meu Pai, referindo-se a um deus criador, que o teria enviado a este mundo com uma missão específica e salvadora.

O Buddha insistia que as pessoas NÃO o seguissem, mas apenas praticassem seu Ensinamento, sem fé cega, sem adoração à figura dele! Nunca se preocupou em operar milagres e nunca disse que tinha missão alguma para salvar quem quer que fosse. Ao contrário! Sempre disse que a salvação é uma tarefa individual, que cada um tem que realizar por si próprio.

O Buddha sempre usou de sua Sabedoria para mostrar a outros mestres de sua época as divergências de ensinamentos, os pontos falhos de suas doutrinas, os erros de visão que cada um tinha, sempre usando de paciência e clareza nas palavras. Com isto, muitas vezes mudou os pontos de vista radicais dos grandes pensadores de sua época, trazendo-os para o Ensinamento Buddhista, transformando-os em monges de sua Comunidade (chamada Sangha).

Jesus Cristo, viveu numa sociedade politicamente conturbada pelo domínio romano, onde a Religião Judaica à qual pertencia, era apenas tolerada e constantemente policiada por Roma. O povo da época esperava que ele fosse um líder que libertasse os judeus de uma situação política opressora e não estavam interessados em ouvir palavras bonitas sobre amor, perdão e igualdade entre os seres. Talvez por ter vivido numa sociedade tão conturbada e hostil, tenha usado de frases de efeito, como: “Meu Reino não é deste mundo!” “Eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vai ao Pai a não ser através de mim…” “Quem não está comigo, está contra mim!” e tantas outras, que o Buddha jamais diria.

A mesma sociedade cética e “cabeça-dura” também pode ter justificado atitudes radicais de Jesus Cristo, como, por exemplo, quando expulsou a golpes com uma corda, os mercadores que faziam comércio na área do Templo de Jerusalém, ao qual chamou de “Casa do Meu Pai”.

Quanto à questão de se tornar seguidor de um, de outro ou de ambos, acho que isto é muito fácil de ser visto, analisando o comportamento do Buddha e de Jesus Cristo em relação aos que os procuravam:

Muitas vezes, seguidores de outros mestres vinham ao Buddha e, após ouvirem suas palavras sábias e Ensinamentos, decidiam largar seus mestres e passar a seguir o Dharma (Ensinamento do Buddha). Em vez de ficar feliz em ver as pessoas deixando seus mestres, o Buddha as incentivava a voltarem para eles, insistindo que eles precisavam de seguidores e apoiadores, enquanto que ele, O Buddha, estava muito bem sozinho! Isto é um posicionamento completamente diferente de: “Ninguém vai ao Pai, a não ser através de mim” que pressupõe que Jesus Cristo se considerava a única ligação entre os homens e a salvação deles, portanto, deveriam estar o tempo todo com ele!

As diferenças são muitas, os exemplos – inúmeros! Se o Buddha preferia estar sozinho e não fazia questão de seguidores em volta dele, menos ainda, imagino eu, ele gostaria de ter com ele alguém que, ao mesmo tempo, quisesse seguir outro mestre, com ensinamentos tão diferentes do dele!

Quanto a Jesus Cristo, também suponho, não gostaria de ter “seguidores buddhistas” em sua Igreja, já que afirmou: “Ninguém serve bem a dois Senhores…” e “EU SOU o caminho, a verdade e a vida!” Ele não disse “Eu e um tal de Buddha que morreu lá na Índia há 600 anos, somos o caminho a verdade e a vida!”Então, não vejo sentido algum em ter dois mestres – Buddha e Jesus Cristo. Muito menos em pôr os dois em condições de igualdade, ou em divulgar imagens de ambos, juntos, como se o que ensinaram fosse exatamente a mesma coisa. O fato de terem dito coisas PARECIDAS, não os torna iguais, nem significa que devemos seguir aos dois ao mesmo tempo.

A nós MONGES e MONJAS, que formamos a MAHÁ SANGHA, a Comunidade Monástica fundada pelo próprio Buddha, com Preceitos claros e especificamente buddhistas, cabe a missão de SEGUIR UNICAMENTE ao Buddha, no qual tomamos Refúgio.

Aos Padres, Pastores e outros Sacerdotes do Cristianismo, aos quais devo respeito, como colegas de carreira, ainda que seguindo um ensinamento diferente do meu, cabe cuidar dos caminhos do Cristianismo. Da mesma forma que eles não igualam Jesus Cristo ao Buddha e nunca poriam uma imagem do Buddha num altar, cabe a nós buddhistas deixar Jesus Cristo aos cuidados dos cristãos, e cuidarmos da prática do Buddhismo, o que, por si só, já é bastante difícil, para termos que nos preocupar também com o que não nos diz respeito!

Já que cada um é livre para fazer a confusão mental que mais gostar, não posso forçar ninguém a seguir o que estou sugerindo, mas, enquanto Monge Buddhista, ciente de minha missão e dever, fica aqui minha opinião!

Fiquem todos em Paz e protegidos!

भन्ते सुनन्थो भिक्षु

Vantê SUNANTHÔ BHIKSHÚ

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